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Cris Guterres

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Tudo Nela É de Se Amar": livro mostra que autoestima é arma para liberdade

Em seu livro de estreia, Luciene Nascimento mostra que minar a autoestima da negra é forma de branquitude criar uma narrativa de poder - Reprodução/Instagram
Em seu livro de estreia, Luciene Nascimento mostra que minar a autoestima da negra é forma de branquitude criar uma narrativa de poder Imagem: Reprodução/Instagram
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista de Universa

08/06/2021 04h00

Senti uma força veemente quando li a frase que nomeia o primeiro livro da advogada, maquiadora e poeta Luciene Nascimento, "Tudo Nela é de Se Amar" (Ed. Sextante), lançado em abril.

O livro em minhas mãos, olhos fixos na delicada ilustração da artista Mariana Sguilla. A frase reverberou em meu coração. Foi como se alguém dissesse tudo o que eu precisava ouvir naquele momento. Abracei o livro como quem procura abraçar a si mesmo e acolher o próprio ser.

Como mulher e negra tenho ciência de que fui convencida, durante anos, pelos olhos dos outros de que muito pouco em mim seria de se amar.

Com isso, abalei as estruturas de meu próprio amor e me vi soterrada sob os escombros de uma autoestima deflagrada pela outremização, termo que aprendi lendo Grada Kilomba. Segundo a escritora e psicóloga portuguesa, isso ocorre quando a definição de quem é a mulher negra não parte dela própria, mas de quem tenta defini-la segundo uma visão arraigada de machismo e racismo.

tudo nela - Divulgação - Divulgação
Na obra, a advogada fluminense "mostra que a beleza é um fenômeno avassalador"
Imagem: Divulgação

A escrevivência (a escrita que nasce das vivências) de Luciene no livro é resultado de um compilado de textos que ela produziu enquanto vivia um processo de transição capilar. Ao passo que ia se descobrindo por debaixo de anos e anos de alisamento dos cabelos, a autora fluminense foi colocando no papel as emoções que sentia e descobriu a quão avassaladora é a manifestação da beleza.

"Tudo Nela é de Se Amar" é o mesmo título do poema que Luciene escreveu durante esse processo que viveu em 2014 e que já teve um trecho publicado em "Na Minha Pele" (ed. Objetiva), de Lázaro Ramos — o ator, aliás, assina o prefácio do livro de estreia da escritora.

Luciene, que também é maquiadora, sabe o quão transformador é o poder da estética na libertação das mulheres, sobretudo para as mulheres negras que carregam na pele as marcas de um racismo que massacra nossa autoestima, como ela mesma define.

Minar a nossa autoestima é uma das ferramentas utilizadas pela branquitude para criar uma narrativa de poder e nos colocar num lugar de subserviência onde podemos ser restringidas. Um ser humano sem autoestima fica sem arma para lutar por sua liberdade.

Esta e muitas outras descobertas que a autora tem feito ao longo de sua dedicação em acolher a mulher que reflete em seu espelho estão narradas na obra que é um presente às leitoras que estão decididas a não ser o que os outros esperam que elas sejam, mas sim o que escolheram ser.

A multiplicidade de Luciene transcende seus poemas, vem fazer morada no coração e abalar as estruturas seculares que visam nos pisotear, abafar nossa voz. Em sua jornada ancestral, com coragem e talento, a autora nos propõe mergulhar em sua escrita e descobrir que a beleza é um fenômeno avassalador.


"TUDO NELA É DE SE AMAR"

Eu ouvi recentemente que sou da 'Geração Tombamento':
preta, pobre, consciente
que carrega esteticamente
a cura pro próprio tormento.
Meu tormento não nasceu comigo, me lembro de senti-lo bem no colégio, de os meninos me revelarem que amor-próprio era privilégio.
Meu amor-próprio foi construído, demorei, mas aprendi e aos dezoito concluído: meu padrão não é daqui.
E quis lançar aos quatro ventos, pendurar uma faixa amarela, quando eu via uma pretinha triste, escrevia e dizia para ela que tudo nela é de se amar. Tudo.
O modo como os músculos dos braços protuberam.
A pele que contorna a carne do rosto, iluminando e escurecendo onde quer. Tudo.
O cabelo que trava os dedos na hora de acarinhar,
que é como se dissesse: se eu te permiti tocar tão profundo, então pode permanecer entre os meus fios.
A forma como enfrenta a vida, tudo nela
é de se amar. A pele preta já vem do ventre
tatuada inteira de história, que é a memória
ancestral retratada na forma do nariz,
na forma como lida, como fala, como luta
e como cala, porque luta até no silêncio
dos lábios mordíveis,
mastigando qualquer coisa, quando repara
e se envergonha,
o sorriso que contrasta.
O tanto de amor que ela já sabe que vai precisar ensinar aos filhos, ela já guarda em cada maçã do rosto.
Tudo nela é de se amar.
É que se se considerar que esse fio forte surgiu
de dentro da cabeça dela,
deve-se supor que o que há dentro dela
não é fraqueza?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL