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Ela sofreu racismo ao tentar alugar salão e hoje trata o cabelo das famosas

Elis de Sá trabalha com extensões de cabelo e cuida de projeto social - Divulgação
Elis de Sá trabalha com extensões de cabelo e cuida de projeto social Imagem: Divulgação

Roseane Santos

Colaboração para Universa

28/04/2021 04h00

A empresária Elis de Sá, de 49 anos, já cuidou dos cabelos de celebridades como a atriz Marília Pêra e a top model Naomi Campbell. Entretanto, até chegar a esse lugar de reconhecimento, passou por dificuldades — muitas vezes permeadas por episódios de racismo. Em várias ocasiões, só conseguiu alugar uma sala para exercer o trabalho quando estava na presença do marido, que é branco.

Hoje, pode dizer que deu a volta por cima. É dona de um salão na Barra da Tijuca, bairro nobre do Rio de Janeiro (RJ), mantém um projeto social que ajuda pacientes oncológicos e quer expandir os negócios para a internet. "Ainda tenho muito o que realizar", afirma.

Primeiros passos no mundo da beleza

Quarenta anos se passaram desde a primeira vez que Elis cuidou dos cabelos de uma mulher, ainda criança, aos nove. O avô, que não chegou a conhecer, tinha uma barbearia, então ela credita essa vocação ao sangue. A mãe também trabalhava com estética, fazendo uma unha ali e outro penteado ali. Certa vez, na ausência dela, uma cliente chegou à casa querendo passar henê, um tipo de tinta com alisamento, que era a moda da época. Como não tinha outra pessoa para fazer o trabalho, Elis então aplicou o produto sozinha. Desde então, passou a encarar a tarefa como um serviço com seriedade

Aos 19 anos, foi a um salão para cortar o cabelo e o profissional acabou cortando demais. "Fiquei muito mal com aquilo", relembra. Como a mãe também fazia perucas, pediu uma para ela e desmanchou. "Fiz o que, na época, a gente chamava de implante. Com tranças dos meus próprios fios, fui costurando os outros fios cabelos ali. As minhas amigas gostaram muito e pediram para que eu fizesse nelas também. Dessa forma, aos 20, comecei a trabalhar oficialmente com o megahair", conta.

Era necessário chamar a atenção para conquistar mais clientes. Em uma época sem redes sociais, isso significava atrair a clientela pessoalmente. "Tive a de carimbar uma cartolina e panfletar na Central do Brasil. No princípio, as pessoas não queriam pegar, porque pensavam que eu estava pedindo dinheiro. Só que, aos poucos, começaram a aceitar os cartões e conhecer o meu trabalho. Moro na Baixada Fluminense, mas comecei a notar que muita gente de bairros mais afastados estava me procurando também", relembra.

Com um público maior, precisou expandir, uma vez que atendia apenas em casa. "Aos 23 anos, montei meu primeiro salão de beleza. Na época, eu mesma fui sozinha à imobiliária para alugar o espaço. Eles não quiseram fechar o contrato dando uma desculpa qualquer. Sinceramente, não julguei que fosse preconceito pela minha cor e, sim, pela minha idade", conta. Como já era casada na época, então pediu ao marido, mais velho, que tentasse fechar o contrato. "Não deu outra, a resposta foi positiva", diz. A questão é que, tempos depois, a situação continuava se repetindo.

Enxerguei o peso de ser uma mulher negra neste país. Parece que as pessoas acham que a gente não vai honrar compromissos, duvidam da nossa credibilidade. Lembro-me de outra vez, em que tentei alugar uma sala em Ipanema, e falaram que não tinham espaços disponíveis. Logo após, pedi ao meu marido, que é branco, e disseram que tinham várias opções

Anos depois, já com duas filhas, Elis decidiu se matricular em um curso caríssimo. O esposo foi contra, pois acreditava que o investimento não reverteria em lucro no futuro, mas ela foi em frente. Tratava-se de uma empresa nova, que estava trazendo uma técnica inovadora de megahair à base de queratina para o Brasil. Era um tipo específico de protocolo que ainda não existia. "Eu estava encantada com a novidade e, hoje, sei que essa aposta foi um divisor de águas na minha vida. Através do curso, consegui um emprego em um salão em Ipanema e recuperei o dinheiro total na primeira extensão de cabelo que fiz", diz a cabeleireira.

Elis de Sá - Divulgação - Divulgação
Elis de Sá diz que o racismo foi um dos gargalos de sua trajetória profissional
Imagem: Divulgação

Anjos da guarda pelo caminho

Foi quando a carreira dela decolou. "Fui chamada para fazer o cabelo dos atores da série 'A Casa das Sete Mulheres' (Globo) junto da representante dessa marca deste megahair. Depois também me chamaram para fazer a minissérie 'O Quinto dos Infernos' (Globo), quando conheci o maravilhoso ator Humberto Martins, que me indicou para muita gente. Através dele, conheci o Selton Mello e trabalhei em três filmes dele, sempre aplicando o mega", explica.

Entre a carteira de clientes, cuidou das atrizes Yoná Magalhães e Marília Pêra. Em outra oportunidade, chegou às estrelas internacionais. "Fiz o cabelo da Naomi Campell na casa do Luciano Huck", lembra. Já era suficiente? Não para ela, que decidiu partir para a faculdade de estética. "Terminei o curso com muito sacrifício, acordando às cinco da manhã, mas valeu a pena para que eu me sentisse uma profissional completa", argumenta. que eu me sentisse uma profissional completa", argumenta.

Hoje, além dos negócios para o público, também cuida do próprio projeto social. "Com o diploma de terapeuta capilar, montei o projeto Cabelinhos do Bem, que atende mulheres que passaram por quimioterapia", explica.

Apesar de ser uma empresária de sucesso, faz ponderações sobre a ascensão. "Tenho certeza de que se eu fosse homem ou uma mulher branca, a minha ascensão profissional seria muito maior", lamenta. Por outro lado, segue firme nos planos para o futuro. "Faço 50 anos em outubro e ainda tenho muitos objetivos. Quero ministrar um curso para ensinar o meu trabalho e também ter um site de venda de cabelo", finaliza.

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