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Cris Guterres

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que não vou cancelar Karol Conká

BBB 21: Karol Conká no quarto do líder - Reprodução/Globoplay
BBB 21: Karol Conká no quarto do líder Imagem: Reprodução/Globoplay
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista de Universa

16/02/2021 04h00

Há dias venho recebendo mensagens em minhas redes sociais me pedindo um posicionamento com relação ao programa Big Brother Brasil. Minha opção tem sido me manter como uma samambaia verde e vistosa numa sala ampla. Só observo, não digo nada.

Muito deste meu silêncio foi resultado do meu cansaço com relação ao fato de que as pessoas acreditam que devo comentar todas as situações envolvendo outros negros e todos os casos raciais que acontecem no planeta. Nós, negros, não temos o direito de sermos cobrados individualmente por nossos atos. Não vejo pessoas brancas sendo cobradas a se posicionarem sobre a atuação de Fiuk no programa.

Há mais de duas décadas, todo início de ano é a mesma coisa. O programa Big Brother Brasil ocupa um espaço importante nas rodas de conversas. Espaço este que poderia ser preenchido por temas relevantes em torno da promoção de políticas públicas, mas ok, decidimos falar de BBB. Escolhemos seguir sendo pautados por uma única empresa de mídia que ao longo da sua existência vem demonstrando seu poder de influência e manipulação das massas em momentos decisórios do Brasil.

E assim seguimos num país cheio de juízes onde elegemos no mês de fevereiro algumas pessoas para serem linchadas virtualmente e canceladas pela atuação que estão desenvolvendo no programa. Uma destas pessoas é Karol Conká.

Não estou preocupada se você vai achar que a estou defendendo. Insisto em dizer isso, porque vejo várias pessoas famosas procurando maneiras delicadas para falar no assunto sem serem tachadas como defensores ou como algozes de Karol. Começam suas falas com "não estou passando pano pra ninguém...".

Entre panos, vassouras e esfregões que podem ser usados na tentativa de limpar a barra de alguém, eu, assim como o rapper Djonga, vejo mais uma sociedade hipócrita que "na hora do julgamento, Deus é preto e brasileiro e pra salvar o país, cristão, ex-militar que acha que mulher reunida é puteiro".

Karol promoveu situações de humilhação dentro da casa, fala com os participantes como se fosse superior a todos, manipula, grita, manda calar a boca, se envolveu em situações de xenofobia, foi até acusada, pelo tribunal da internet, de abuso pelo beijo que deu num dos participantes do programa.

Diante destas atitudes, de repente, não mais que de repente, o Brasil inteiro se transformou num país de pessoas boazinhas e humildes assustadas com o comportamento dela. Tenham a santa paciência! Toda esta indignação justo num país que elege um homem que endeusa torturadores, defende pena de morte, desfere falas homofóbicas, ofende mulheres e que é diretamente responsável pela morte de quase 240 mil pessoas ao minimizar constantemente a pandemia de covid?

A sociedade brasileira está acostumada a aplaudir homens com estas atitudes. São homens que estão apresentando programas na TV aberta, homens que estão na liderança de empresas, conduzindo equipes, homens no palco cantando suas músicas, nos campos de futebol sendo tratados como ídolos e na condução do país sendo chamados de mito.

Karol foi eleita o tirano da nação por ser mulher e negra. Eu não vou linchá-la virtualmente porque este é o país onde um homem branco tem autorização discursiva para xingar, falar palavrões, incitar a violência, humilhar mulheres publicamente e, este homem está no poder recebendo aplausos por seus feitos desprezíveis.

Sempre que vejo mulheres agindo como Conká, me permito refletir sobre o que a sociedade teria ensinado a essa mulher que fez com que ela acreditasse que ocupar o lugar de indivíduos opressores seria uma boa estratégia de sobrevivência num mundo onde as mulheres são questionadas e trituradas por todas as suas atitudes.

É muito fácil atacar Karol nas redes sociais, mandar ameaças de morte para a família, gravar vídeo, usando de sua influência digital, incitando as pessoas a agredi-la ou obrigar o filho dela a viver recluso em casa com medo de ser ultrajado. Difícil é você refletir sobre qual é a sua parcela de culpa na promoção de uma sociedade machista que cancela mulheres como Karol e permite a ascensão de homens como Danilo Gentili ou qualquer um outro com sobrenome Bolsonaro.

Eu não vou cancelar Karol. Mesmo sendo contrária à conduta dela, sei que no Brasil nós mulheres, principalmente as negras, não somos permitidas de ter o mesmo comportamento que os homens. No espelho social, somos refletidas como o outro do outro.

Julgadas e condenadas por nossos feitos de maneira escandalosamente mais agressiva. Mesmo estando em situações completamente diferente, é importante lembrar que Marielle pagou com a vida, Claudia teve seu corpo arrastado no asfalto e todas as minhas ancestrais que ousaram não se submeter foram relegadas ao apagamento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL