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Cris Guterres

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A soberba da militância: a gente precisa entender o momento certo de lutar

Cris Guterres: "Poderia ter escolhido a soberba da minha militância, mas eu escolhi pela minha saúde mental" - Reprodução/Instagram
Cris Guterres: "Poderia ter escolhido a soberba da minha militância, mas eu escolhi pela minha saúde mental" Imagem: Reprodução/Instagram
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista de Universa

09/02/2021 04h00

O motorista do Uber, aparentemente simpático, foi logo puxando assunto e obrigando a me contrapor ao que eu mais desejava, entrar no carro muda e sair calada. Por vezes penso que devo ter um rosto convidativo para conversas, pois algumas pessoas costumam insistir num papo ainda que eu não me demonstre interessada.

A maneira como ele iniciou a conversa me pareceu estranha, veio logo perguntando se eu trabalhava naquele endereço onde eu tinha entrado no carro, em frente à TV Cultura. Recebi com insegurança a pergunta. Entre os milhares de golpes e situações sinistras que andam acontecendo na contemporaneidade, a gente já sabe que não pode ficar dando informações sobre nossa rotina para desconhecidos.

Conversas no Uber, pra mim, costumam evidenciar dois tipos de sentimento: ou eu saio com muita raiva do motorista ou eu saio emocionada rezando pra que ele seja feliz. Naquele dia eu sairia com um misto dos dois sentimentos.

Menos de quatro minutos no carro e ele se virou para trás para me perguntar se eu era heterossexual. Eu me senti nua em frente a um estranho. Fui certeira na resposta: não peguei o Uber para falar sobre a minha sexualidade. Ele me pediu desculpas, e lançou na sequência um "mas é que". Arrrrrrrrr, esse "mas é que" já me rasgou os ouvidos. Temos no carro alguém que acha que pode ser invasivo, pois tem algo que ele acredita ser muito importante dizer.

Enfim, as afirmações na sequência foram ainda mais desastrosas. Uma seleção de afirmações homofóbicas. Ele falou que não assistia à TV Globo porque os programas incentivavam os jovens a se tornarem homossexuais e que a TV Cultura era a salvadora do conteúdo televisivo. "Veja bem, não tenho nada contra homossexuais, só acho que a família tem que ser mais forte e que este negócio de colocar duas mulheres namorando no programa da Malhação é um plano para transformar nossos filhos em homossexuais."

A essa altura da fala dele eu estava muda, estarrecida tentando entender por que raios eu estava sentada sendo obrigada a ouvir aquela infestação homofóbica. Uma respirada funda para oxigenar meu cérebro e me proteger da minha própria raiva que minava naquele instante.

Ele não parava mais de proferir seu ódio aos homossexuais disfarçado de alertas para a sociedade. Insatisfeito que eu me mantive muda durante sua palestra me perguntou se eu tinha filhos. Ele fez a pergunta certa, pois o simples pensamento na existência de meu filho me leva sempre a um lugar de amor e acolhimento. Respondi com sorriso no rosto que sim. Tenho um filho de 16 anos.

Foi o suficiente para que eu recebesse toda a sorte de advertências para não deixar que meu filho assistisse a programas que o transformassem em homossexual. Ao final daquela seleção de absurdos eu disse a ele que eu acreditava que meu filho ainda era muito novo pra já saber se iria se relacionar com uma pessoa do sexo oposto até o final de sua vida.

Contei que eu fazia questão de dizer ao meu filho que ele poderia se relacionar com quem ele quisesse, fosse um homem, uma mulher, uma mulher ou um homem trans. Na minha casa sempre haveria acolhimento para o amor do meu filho.

E que meu filho não assistia Malhação porque não gostava, mas estava acostumado a se relacionar com pessoas do grupo LGBTQ+ que eram nossos amigos, vizinhos, pessoas que amávamos e que sempre estariam ao nosso lado, pois a gente não acreditava em amor de novela, mas sim em amor da vida real, onde as pessoas se entregam a quem bem entender.

Eu não quis dar uma lição de moral no motorista, longe de mim. Àquela altura do campeonato estava louca para sair correndo daquele carro. Só disse o que realmente passava em meu coração: que o amor é algo tão intenso e transformador que só os corajosos são capazes de amar incondicionalmente sem julgar.

Eu poderia ter escolhido a soberba da minha militância e ter apontado o motorista como um preconceituoso, mas eu escolhi pela minha saúde mental. Tem momentos em que a gente precisa saber qual o momento certo de lutar, quais as lutas que valem o nosso desgaste, quais os embates que devemos travar.

Mas por que digo tudo isso? Porque estamos vivendo momentos em que as pessoas de gerações mais novas estão subvertendo as falas das gerações anteriores que lutaram pela nossa liberdade. Estamos assistindo a uma geração que na ânsia de se tornar livre está assumindo o lugar do opressor e se transformando no outro que sempre abominou. A militância é uma prática, exige sabedoria. É transformar a sociedade através da ação. O verbo é agir e não agredir.

Os últimos cinco minutos de viagem foram ainda mais desastrosos com o motorista tentando se justificar com medo de uma avaliação ruim que eu pudesse fazer no aplicativo. Dei as cinco estrelas, no fundo ele é mais uma vítima. Um homem trabalhando de 12 a 14 horas em frente a um volante sendo obrigado a acreditar que é dono do próprio trabalho quando, na verdade, sabe muito pouco sobre seus próprios sonhos e desejos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL