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O que a demissão de Sheryl Sandberg, da Meta, significa para as mulheres?

Aos 52 anos, Sheryl Sandberg, Chefe de Operações da Meta e segunda no comando das empresas de Mark Zuckerberg, pediu demissão - JACQUES DEMARTHON / AFP)
Aos 52 anos, Sheryl Sandberg, Chefe de Operações da Meta e segunda no comando das empresas de Mark Zuckerberg, pediu demissão Imagem: JACQUES DEMARTHON / AFP)
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista do UOL

06/06/2022 04h00

Não sei se você reconhece Sheryl Sandberg pelo nome. Mas, até a semana passada, todo anúncio que você viu no Facebook e no Instagram tinha o dedo dela. Segunda no comando das empresas de Mark Zuckerberg, que criou o Facebook e arrematou o Instagram e o WhatsApp, Sheryl era a pessoa adulta da corporação. Como reconhece o próprio Mark, aluno e chefe, ela trouxe números estonteantes para a publicidade das empresas (hoje, reunidas sob o nome Meta), além de ensiná-lo como gerenciar uma grande companhia.

Aos 52 anos, Sheryl, a Chefe de Operações da Meta, pediu demissão. Segundo o jornal "The New York Times", já havia um cheiro de desgaste no ar - ela estaria perdendo poder dentro da empresa nos últimos anos. Vai sair para cuidar da Lean In, fundação que criou há quase uma década. Também terá tempo para se dedicar à nova família e à filantropia.

Sheryl perdeu o primeiro marido em 2015, com quem teve dois filhos. Cinco anos depois ficou noiva de Tom Bernthal, produtor de TV. Tom vai levar os próprios filhos, de casamento anterior, para morar na mansão da mulher, na Califórnia.

Por que não? Se deve ter algo que Sheryl dispensa é emprego novo. Mesmo em idade considerada precoce para a aposentadoria de executivos, ela certamente já acumulou bônus suficientes para manter toda a família pelo século 21 inteiro. E a gente não pode esquecer que esse tipo de saída nunca é simples. A executiva, segundo ela própria, continuará se sentando à mesa dos conselheiros da Meta, embora não mais vá participar das operações do dia a dia da empresa.

Por outro lado, é um tanto irônico que ela abandone seu cargo tão cedo. Seu livro "Faça Acontecer" (Lean In, escrito com Nell Scovell) prega que as mulheres não desistam de ir atrás de cargos de liderança - mesmo considerando todas as dificuldades impostas pelo mercado e pela vida pessoal. Caso alguém ainda tenha dúvidas sobre o tema, homens continuam ganhando mais promoções do que as mulheres e trabalhando menos em casa do que as parceiras.

Guru das executivas

O livro Faça Acontecer projetou a imagem da executiva como militante da equidade de gênero. Sheryl virou uma espécie de guru das executivas da geração X, aquelas que nasceram nos anos 60 e 70. Essas profissionais sofriam com o famoso fenômeno do "teto de vidro" - de forma simplificada, elas chegavam à gerência, mas não conseguiam alcançar os postos de liderança: diretorias, vice-presidências e presidências.

Sheryl dizia em seu livro e, depois, na fundação que criou com o mesmo nome: não desista, vá até o topo! Na hora em que o Vale do Silício brilhava como o lugar das corporações do futuro, Sheryl era a mulher certa para a causa. Era uma profissional exemplar, poderosa no Google, sua ex-empregadora, e poderosíssima no Facebook. Até hoje, nenhuma outra mulher ocupou seu lugar. Por falar nisso, seu substituto na Meta será Javier Olivan, um homem.

Mais ou menos na época em que a ex-executiva do Facebook lançou seu livro, havia uma febre de pesquisas sobre os fatores que explicariam o teto de vidro. Uma dessas pesquisas foi publicada pela Harvard e indicava que boa parte das executivas não fazia questão de alcançar postos maiores. Elas tinham consciência de que eram capazes, sabiam que ganhariam mais dinheiro, mas não demonstravam a mesma sede de poder dos colegas homens e nem queriam o aumento de trabalho e responsabilidade que viria com os novos cargos.

Lembro de uma conhecida, uma consultora de finanças altamente bem-sucedida, dizer que esse tipo de percepção era uma falácia. Quem ganhava mais dinheiro, ganhava mais autonomia e, por isso, não havia razão para temer o sucesso. Faz sentido.

Sheryl Sandberg trabalhou 14 anos no Facebook. Ficou rica, deixou o chefe trilhardário e hoje pode fazer escolhas que a maioria de nós não pode.
Ainda assim, quem vive o dia a dia de uma grande corporação sabe o tanto de sangue que se deixa ali para que os resultados sejam superados, ano após ano. Mesmo no Vale do Silício, com suas salas de trabalho divertidas, não deve ter sido nada fácil.

Fim de uma era

É o fim de uma era, disse Zuckerberg no post do Facebook em que anunciava a saída de Sheryl. Posso supor que ele se referisse ao novo momento das suas empresas, que estão correndo rumo ao metaverso, o universo imersivo da realidade virtual. Mas me pergunto se a gente também não está chegando ao fim de outra era: aquela em que o ideal das mulheres, nas corporações, seja simplesmente o de repetir o feito dos homens.

Seria muita ambição imaginar que devemos buscar, mais do que salários melhores (além de salários melhores), um outro jeito de liderar? Um jeito, talvez, que não resulte em uma sucessão de burnouts.

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