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Como admitir que pifei? Relato de uma executiva workaholic sobre depressão

A executiva Angela Coelho da Fonseca, da Jogê, perdeu a energia para sair da cama e decidiu falar abertamente sobre a doença - Divulgação
A executiva Angela Coelho da Fonseca, da Jogê, perdeu a energia para sair da cama e decidiu falar abertamente sobre a doença Imagem: Divulgação
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

09/05/2022 04h00

No auge da pandemia, há quase dois anos, a executiva Angela Coelho da Fonseca sentiu o coração bater mais rápido. Ela estava no sítio da família, no meio do mato, com os cachorros, "os passarinhos cantando", ambiente inadequado para taquicardias. "De onde veio isso?", se perguntou. Mais alguns dias, a ansiedade voltou, forte, dando a ela a sensação da chegada de um infarto.

Assim começa a história de Angela com a depressão. Em abril, mês passado, Angela publicou um texto sobre o assunto em suas redes sociais. Destaco um trecho: "No último ano, entrei em contato com a enorme sombra humana chamada depressão. Entendi o meu tamanho e o tamanho dela, fui ao chão soterrada por uma mão enorme e invisível que fez sombra ao meu sol. Mas, quando toquei o poço úmido da tristeza sem fim, reencontrei amigos, minha família e o tempo. Neste tempo, bem devagar os dias foram ficando mais claros, encontrei anjos que sabiam ouvir o meu silêncio. Fui acolhida, abraçada, compreendida, e foi esta compreensão, sem julgamento, que me permitiu ficar em pé novamente".

Sócia e diretora criativa da empresa Jogê, Angela conta a seguir como aconteceu a dolorosa transformação de uma workaholic, que trabalhava 15 horas por dia e resolvia o problema de todo mundo, para uma pessoa que perdeu a energia até para se levantar da cama. Uma borboleta que acordou lagarta.

Universa - Por que você decidiu falar sobre seu processo de depressão publicamente?
Angela Coelho da Fonseca - Porque a depressão é uma doença. Uma doença terrível, aliás. Mas as pessoas tratam a doença quase como falta de caráter. Olham para a doença como uma rachadura moral, como se a pessoa deprimida só estivesse doente porque não é forte e resiliente. Então, além de estar doente, sem vontade de viver, a pessoa ainda tem que lidar com o constrangimento por sua apatia. Por isso, resolvi falar. Precisamos mostrar que estar deprimido não é frescura, não é mimimi de rico, não é sinônimo de preguiça e de falta de força de vontade. Não é uma mácula na biografia, não é preciso escondê-la. É uma doença como outra qualquer, um problema físico e psíquico, um descontrole bioquímico, entre outras coisas.

Você diz com muita ênfase que a depressão é uma doença. Mas as pessoas deprimidas, diferentemente de outras pessoas doentes, costumam esconder seus sintomas.
Exatamente. Eu costumo fazer uma analogia do câncer com a depressão. São doenças diferentes em quase todos os aspectos e só faço essa analogia porque tive as duas. Há oito anos, precisei retirar parte de uma mama por causa de um carcinoma in sittu [câncer não invasivo]. Eu nunca precisei me envergonhar do câncer, as pessoas não achavam que era uma falha de caráter, eu era acolhida O que eu vejo em comum com as duas doenças, porém, é que elas nos obrigam a lidar com uma sensação de finitude.

Existe esse sentimento de que vamos deixar de ser úteis. O corpo feminino sem parte da mama, provocado pelo câncer, parece deixar de ser útil aos olhos da sociedade machista. Uma mente e um corpo deprimido também. Parece quebrado. Esse prazo de validade do ser produtivo, de que tanto somos cobradas, expira veladamente, eu senti muito isso na fase aguda da minha depressão. Fiz as pazes com o meu tempo, sem olhar pelo retrovisor alheio.

Como você notou os sinais de que estava deprimida?
Demorei a perceber. Tinha uma certa angústia, tive episódios de ansiedade e taquicardia, mas continuei trabalhando. Eu pensava: eu não tenho tempo para ficar doente e acho que isso são bobagens da minha cabeça Sempre fui assim, uma workaholic assumida. Até que um dia não senti vontade de sair da cama e não fui trabalhar.

No primeiro dia, eu disse: "Ah, estou só cansada, vou ficar aqui vendo Netflix". Mas nem isso consegui fazer, tinha certo pavor em assistir algo que tirasse o meu fio de paz. Minha sensação é a de que eu estava caindo, para trás, dentro de um buraco, como numa fábula. Daí para frente foi piorando lentamente. Eu não queria ficar ao lado de ninguém, a solidão era a minha melhor companhia e eu pedia este espaço. Era como se eu quisesse me esconder dos julgamentos e, ao mesmo tempo, ter a oportunidade de me reconstruir, de provar para mim que eu era capaz de sair daquilo, ainda capaz de fazer algo extraordinário, dessa vez por mim mesma.

Eu sentia um enorme constrangimento, não conseguia contar para meu time de trabalho, poucos amigos sabiam, eu silenciei.

Sabe quando você quebra aquele prato precioso da família e quer se matar de tanta culpa? Eu me sentia culpada por ter quebrado o prato da tataravó. Dizia, sem nenhuma crítica para o meu marido e uma amiga muito querida: este mundo nesta configuração não me interessa, a estética ética que praticam me adoece e faço zero questão de continuar por aqui, viver se tornou uma gincana e não me interesso por isso. E eu dizia isso com muita naturalidade, porque de fato era o que eu sentia e expressava. Eu não via a morte como uma tragédia, mas como uma consequência natural da vida e que me traria considerável conforto.

O sentimento de constrangimento, você pode explicar melhor?
Além de lidar com a depressão, tive de lidar com a revisão dos meus conceitos sobre mim mesma. No momento em que toquei o chão frio do fundo do poço, percebi que estava nua, sem máscaras, aquelas máscaras e personagens que a gente inventa na vida. Não tem mais salto alto, capa, peruca. É o momento em que a gente tem que dizer "eu não sei". E poder dizer "eu não sei" é um enorme conforto. Que dia você vai voltar ao trabalho? Não sei. De zero a 10, quanto você está melhor? Não sei. É bom dizer "eu não sei". Mas foi difícil chegar neste lugar de respeito por mim mesma.

No começo, tudo que eu pensava era: como vou contar para as pessoas que minha validade expirou? Como dizer isso para 400 pessoas, os colaboradores da minha empresa, que dependem, de alguma forma, de mim e do meu trabalho? Como tirar a capa da fodona que resolve tudo? Eu nunca pedi ajuda, eu oferecia ajuda. Esse foi um grande aprendizado desse processo. Aprendi que se a pessoa sentiu, está sentido e ponto final.

Está tudo bem se sentir deprimido, estar doente ou apenas triste. Estes sentimentos fazem parte da nossa humanidade, mas a felicidade tóxica propagada pelas redes sociais nos coloca, de alguma forma, neste lugar de atos heroicos.

Aprendi que a gente não precisa se sentir culpado pelo que sente. Um problema comum é que as pessoas procuram uma razão para estar deprimidas. E querem uma resposta rápida, como se resposta e cura fossem uma coisa só. Por isso, a primeira ideia que surge para encurtar o caminho é tirar a legitimidade da doença, do que o deprimido sente. "Olha, você não tem razão para estar deprimido, olha que vida maravilhosa você tem."

Você ouviu isso de amigos?
Ouvi de muita gente. Quando publiquei meu texto nas redes sociais, muitas pessoas me responderam que também passaram pela mesma coisa. Mas responderam no inbox. Por quê? Porque não deixaram aberto para o público? Porque elas sentem que é um demérito pessoal passar pela depressão. Tive a sorte de ter o apoio incondicional da minha família. Meu marido e meus dois filhos foram fazer terapia familiar para me amparar na jornada que, todos sabíamos, não seria fácil. Uma amiga chegou de mala na minha casa e disse que só sairia de lá quando eu estivesse melhor. Para algumas pessoas, a depressão vai passar mais rápido, para outras, vai demorar. E para outras ainda, não vai passar nunca. Por isso, eu digo: se acolha com delicadeza e respeito. E permita que te acolham também, para que você não se sinta só nesta estrada.

De zero a dez, como você se sente agora?
Não estou 10. Mas não sei se um dia vou estar. O que eu sei: cheguei a um lugar onde viver voltou a ser interessante para mim. Com o apoio de uma psiquiatra maravilhosa e pragmática, com medicação, terapia, meditação, com apoio da família e dos amigos, eu voltei para a pista, rumo aos 57 anos, do jeito que a vida quiser.

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