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Conflito de gerações: trocas de mensagem nunca substituirão uma conversa

Mulher trocando mensagem no celular - gradyreese/iStock
Mulher trocando mensagem no celular Imagem: gradyreese/iStock
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista do UOL

21/02/2022 04h00

Eu preciso do contato de uma Pessoa Jovem, que nasceu nos anos 1990, geração Y para Z. Peço a uma amiga, que conhece bem a Pessoa Jovem (PJ, para facilitar), que faça a ponte entre nós duas. Minutos depois, essa amiga reencaminha a resposta da PJ. "Posso falar com ela [euzinha], mas por mensagem. Peça para ela não ligar, por favor. Isso é coisa do século passado."

Juro, foi assim mesmo. Fico chocada. Depois, começo a rir. Os modismos de geração são tão bobos. Quando eu fui uma PJ, também achava coisa do século passado casar na igreja, usar meia-calça cor de pele, se dirigir aos mais velhos como "senhora" ou "senhor". Também achava cafona pedir a bênção ou dizer "Vai com Deus". Hoje, até acho bonito.

Há pouco tempo, passei por uma situação parecida. Pulei por cima da regra de bom tom — antes de ligar para alguém, pergunte se ele vai poder falar com você — e telefonei para uma pessoa, justamente uma PJ com quem trabalhei no passado e com quem eu achava ter intimidade suficiente para ir direto ao assunto. Eu estava com pressa.

- Me desculpe ligar assim, sem perguntar antes - comecei, fazendo aquele discurso de peço-desculpa-mas-acho-que-não-estou-fazendo nada errado.

- Haha, tudo bem. Old School, né?

Hummm, não foi exatamente uma resposta acolhedora, foi? Mas pelo menos foi educada. Olha essa conversa, então, que aconteceu agorinha, o que me levou a escrever este texto.

Me preparo para conversar com outra PJ. Quero contratá-lo para um trabalho, um frila. Treinada na nova etiqueta, decido mandar uma mensagem antes.

- Oi fulano, tudo bem? Soube que você está disponível para um frila. Podemos conversar?
Ele está online e é rápido na resposta.
- Podemos, sim. Estou disponível e tenho interesse no frila.
- Posso ligar?
- Você não quer deixar uma mensagem de voz me explicando direitinho o que tem que fazer? Aí, a gente combina tudo.

Foi nessa hora que pensei: tem algo mais importante acontecendo aqui do que um modismo geracional. Por causa das novas tecnologias de comunicacão e informação, estamos observando um fenômeno de enorme impacto na mais antiga forma de comunicação dos humanos falantes: a conversa.

Por que os PJs preferem conversar por mensagem? Fico pensando nas vantagens. Nesse tipo de comunicação assíncrona, mesmo quando somos superrápidos na digitação ou na mensagem de voz, sobra um tempo para pensar no que dizer.

Eu vou confessar uma coisa aqui. Meu cérebro é extremamente criativo, mas é devagar. Sou daquelas pessoas que ficam remoendo a resposta genial que nunca darão - pois perderam o timing. Ou que, na tentativa de responder rápido, ficam ansiosas e falam o que não devem. Sim, essa sou eu. Então, concluo, eu deveria gostar de conversar por mensagem, certo?

Dá tempo de pensar bastante antes de responder, de escolher bem as palavras, de pesar os prós e contras antes de emitir uma opinião. "Gostou do meu corte te cabelo"?, por exemplo. Quando me perguntam isso na lata, tendo a ser idiotamente sincera. Mas se me perguntam pelo aplicativo, posso elaborar uma mensagem neutra. "Nossa, adoro o jeito como você está sempre bem moderna." Pronto, porque tive tempo de pensar, não menti e nem magoei.

Imagino então como seria atualizar, no modo PJ, um diálogo que eu costumava ter com alguma amiga PNTJ - Pessoa Não Tão Jovem.

- Oi, tudo bem? Te acordei? Estou precisando te contar uma coisa.
- Em reunião. [emoji de coração]
- Ah, desculpe. Quando der, me liga? Preciso falar com você.
...
- Oi amiga, ufa, a reunião só acabou agora. Conta.
- É que eu estou pensando que talvez não tenha sido uma boa ideia ter me casado.
- Como assim? Tá louca?
- Ai, não sei, estou com muitas dúvidas... Sabe aquele dia que [começo a escrever um texto com muitas, muitas palavras e isso demora para caramba].

Depois de algum tempo, vejo que a amiga leu a mensagem e está digitando. Mas aí ela para. Volta a digitar. Para de novo.
Epa, o que será que ela está querendo dizer? Será que ela está me achando paranoica? Será que ela está de saco cheio dessa conversa?

Mas, finalmente, a mensagem aparece.

- Podemos falar depois? O dia aqui, na redação, está tenso. [emoji de coração partido].

Ah, não, não. Não aguento. Mesmo em minha imaginação, pego o telefone e ligo. Minha amiga imaginária atende, percebe que a coisa é séria. E eu começo a chorar.

Nunca que daria para fazer isso numa troca de mensagens.

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