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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A angústia diante da rotina e a vontade de largar tudo e cair na estrada

Cena do filme "Thelma e Louise" - Divulgação
Cena do filme 'Thelma e Louise' Imagem: Divulgação
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

28/03/2022 04h00

Você já teve um dia de Thelma e Louise? Eu tive alguns. Para falar a verdade, eles me assaltam no mínimo uma vez por semestre desde que me entendo por gente. Ai, que vontade de parar o que estou fazendo e cair na estrada. Parar de organizar a casa, de acordar cedo para trabalhar, de participar de reuniões chatas na empresa, de resolver os problemas dos outros. Você me entende? Hoje é um dia desses. Um desânimo diante das tarefas rotineiras, um cansaço de dar murro em ponta de faca, de ser a água mole em pedra dura. (Hahaha, acho que esgotei todos os ditados xexelentos do meu baú agora.)

Se você me perguntar o que me deixaria feliz nesse exato momento, eu não responderia "muito dinheiro", "um novo amor com muito humor" (copiando da querida Eli Prado), "filhos felizes e resolvidos". Eu responderia: uma boa estrada para pegar e coragem para ficar fora de casa por pelo menos uns 10 dias.

Acho que herdei da minha mãe essa vontade de correr o mundo. Por muito tempo, romantizei a herança, considerando-a um traço cigano, uma sede por novas paisagens. Hoje, entendo que nossa vontade de cair na estrada tem a ver também com o desencanto eventual com a própria realidade, o saco cheio diante da pia cheia de louça, minha metáfora favorita para todas as tarefas repetitivas que nos prometem ordem na vida e algum tipo de controle sobre o nosso destino e o dos outros.

Por que não é isso que a gente pensa ao fazer as mesmas coisas? Que um dia a gente ensina os filhos a lavar suas próprias roupas e a pagar suas próprias contas. Enquanto isso, damos conta do serviço. Que um dia a gente consegue organizar a equipe para trabalhar muito azeitada, feliz e produtiva, tão engajada que você nem precisaria estar mais ali, como a liderança que necessita apontar o caminho toda hora. Que, um dia, de tanto repetir um conselho, ele será adotado e, voilá, funcionará. Que um dia você vai passar o pano no gelo e ele vai ficar seco (opa, encontrei mais um clichê no fundo da sacola.)

A filha perdida - Divulgação/Netflix - Divulgação/Netflix
Olivia Colman em 'A Filha Perdida'
Imagem: Divulgação/Netflix

No passado, li muitos romances americanos que falavam dessa angústia das mulheres, esse aperto no peito diante das vidas que tinham construído para si. Lá pelos 40, 50 anos, suas personagens se perguntavam: é isso? Só isso? Filhos adolescentes, casamento morno para entediante, muitas sem carreira remunerada. Daí, as personagens tinham um treco e iam atrás de uma aventura, de um novo amor, de uma busca espiritual, qualquer coisa que desse um novo sentido à vida. A escritora Anne Tyler era minha autora preferida. Elena Ferrante entrega uma versão mais contemporânea desse tipo de angústia, especialmente em "A Filha Perdida".

Os gregos, que conheciam a essência da humanidade tão bem, inventaram o mito de Sísifo, o homem mais esperto de todos, condenado, por toda a eternidade, a rolar uma baita pedra até o cume de uma montanha. Antes de chegar ao destino, a pedra voltava ao seu lugar de origem, obrigando o grego a recomeçar a tarefa. Esse era o terrível castigo de Sísifo —e de toda a humanidade— por invejar a liberdade só concedida aos deuses.

Toda vez que leio essa história, fico torcendo para que nosso herói, anti-herói, não perca a ilusão de ver a pedra encaixada no alto da montanha. O mais trágico destino, sabemos todos, seria ele ter esse trabalho todo completamente desesperançado.

Por outro lado, imagino se Sísifo vivesse agora, e não na sua Corinto antiga.

Se ele tivesse diante de si uma boa estrada para pegar, com um carrinho honesto, será que não teria coragem de desafiar os deuses? Fazer companhia a Thelma e Louise e a tantos personagens que se rebelaram contra seu destino?

Talvez a história pudesse ser diferente atualmente. Porque essa é a novidade. Hoje, não todos, mas a maior parte de nós pode pegar um carrinho 1.0, escolher uma boa estrada e dar uma escapada —mesmo que breve— do destino. Isso, claro, se o carro estiver com o tanque cheio. Afinal, no contexto atual, não são os deuses os vilões, mas o preço da gasolina.

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