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Nós desistimos de 2020, mas ele não desistiu de nós

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Imagem: iStock
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

29/12/2020 19h48

Ano porcaria foi 2020, para não dizer outra coisa. Um ano de merda. Xingo porque não tenho medo de gastar esse recurso, um dos poucos inesgotáveis à disposição. Pobres, ricos, jovens, velhos, otimistas, deprimidos: todos contamos com a abundância do verbo. Portanto, f***-se, 2020! Você foi um ano cafajeste, cheio de promessas, cheio de decepções.

Juro que pensei que pudesse desistir dele há alguns meses, fazer de conta que eu poderia pular direto para o ano seguinte. Mas 2020 me enganou. Trapaceou como um jogador de pôquer. Fiquei presa em sua trama maluca. Vírus que vem e vai. Todo mundo de máscara, de uma hora para outra. Sete bilhões de pessoas em pânico. Parte delas, escondidas em casa. Mortes, muitas mortes.

Nenhum dia de 2020 fez sentido. Os dias ruins foram inacreditáveis. Toda vez que tentávamos nos reconfortar com um "não dá para piorar", éramos atropelados por lideranças bizarras, que diziam: "calma, está tudo certo, morte tem todo dia mesmo". Quem poderia acreditar que isso seria possível? Só nos livros de Margareth Atwood e George Orwell encontramos personagens tão perversos.

Os dias bons... Ah, eles também aconteceram. Os dias bons alimentaram a fé na humanidade, na capacidade de sermos solidários, de superarmos o inimigo e nos superarmos. Lampejos de mudança, cheiro de revolta e revolução. Finalmente vamos vencer o racismo? Mas a chama, tão alta naqueles dias, onde está ela? Rezo para não voltarmos para as sombras.

Mas logo nos cansamos das boas ações, do pagamento da faxineira por três meses (para que ela ficasse em casa e não se contaminasse e nos contaminasse). Cansamos doar cestas básicas para os excluídos, afinal não nos sentíamos mais tão privilegiados. Nos cansamos de não encontrar pai, mãe, amigos, cabeleireira, barbeiro, o funcionário do açougue, o caixa da padaria. Queremos voltar para a fila nas estradas, brigar pela vaga no estacionamento do shopping.

Então, chega o fim do ano. Estamos ansiosos para enterrar 2020, um ano que aconteceu a nossa revelia. Foi ele quem mandou - não nós, os autoproclamados senhores do tempo. Foi ele. Fez as coisas como quis. E, pelo jeito, vai continuar fazendo. Deve invadir 2021 sem cerimônia porque não resolveu as questões que devia, no limite dos seus 365 dias.

Nossa, como estamos cansados de 2020.

Neste momento, gostaria de pedir ao Papai Noel, ao Buda e à Iemanjá que 2020 também se canse logo de nós e nos deixe. Nos dê um tempo para lamber as feridas.

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