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O que foi perdido em 2020: um grande amor

Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista do UOL

19/12/2020 04h00

Sonhei com ele ontem à noite. Estava calado, o que não era da sua natureza. Nos últimos 20 anos, passada a atormentada pré-adolescência, sempre que o via, ele estava falando e gesticulando, ao modo dos italianos. Rindo alto ou com um sorrisinho de lado que herdou do pai. Um meio sorriso. Tentando ser maroto. Digo tentando porque Serginho, mesmo fingindo uma certa malandragem, sempre foi o mais doce e ingênuo dos meninos.

Ligo para a mãe.
Bia, sonhei com ele. Tenho tanta saudade...
Me arrependo na hora. Não parece direito dizer isso. Qual o tamanho da minha saudade perto da dela?

Gosto que me falem dos sonhos, diz. Gosto que me falem dele.
Eu falo, tento dar detalhes, preencher lacunas, dar sentido ao que nem eu entendo.
Ele apareceu em casa, estava com dois amigos, conto. Eu o abracei forte, forte, e comecei a chorar. Parece triste, mas não foi, asseguro.

Ela revela que só sonhou sonhos tristes.
Ficamos quietas. Imagino que isso também não seja certo. Que ela não sonhe coisas boas com ele quando sonhos parecem ser tudo o que resta.

Existem as lembranças, claro, enquanto pudermos contar com elas. Eu, que tenho esquecido de tanta coisa, temo que as lembranças possam esmaecer como fotografias polaroides. Ou talvez não, como saber? Será que vou esquecer das férias que tiramos, todos juntos, naquela praia da Bahia? Os shorts largos no corpo magrinho dele? A pulseirinha hippie no pulso? O olhar de amor para o pai? E de desejo para as meninas? Serginho era um sedutor.

A vontade de que ele esteja aqui aparece nas coisas mais banais. Na hora em que estou cozinhando, enquanto estou dirigindo, quando estou jantando com meus filhos, pensando que seria bom tê-lo conosco. Acho que penso mais nele agora do que quando estava vivo. A arrogante certeza de que os jovens não vão morrer nos deixa preguiçosos, descuidados. Amanhã, semana que vem, no fim do ano. Não faltarão oportunidades, pensamos. Não é assim com tudo? Um eterno jogar para frente?
Até que o impossível, o indizível nos atropela.

Sergio deixa de existir. Desaparece. O mundo dele congela, para de frutificar belezas, imperfeições, vontades, alegrias e afetos. Seu universo se apaga. E todas as coisas que poderiam ter acontecido... Se soubéssemos, se apenas pudéssemos ter imaginado.
Ele morreu neste ano terrível de 2020. Tinha pouco mais de 30 anos. Era irmão do meu filho mais novo. Grande amigo do meu filho mais velho. Meu enteado.
Bia, tenho muita saudade.

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