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O banco que derrubou mãe, filha e neta e os erros que insistimos em repetir

montagem com foto de Thay Pires e ícone do YouTube
Imagem: montagem com foto de Thay Pires e ícone do YouTube
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista do UOL

21/11/2020 04h00

Esta é a história de um banquinho azul de madeira. Doze centímetros de altura, 30 de comprimento ­—não mais do que uma régua de escola—, 20 cm de largura. Um pequeno banco, encostado na parede da cozinha, quietinho na maior parte do tempo. Só não é mais discreto porque sua cor, azul bebê, não combina com o vermelho dos armários.

O banco está na família há três gerações. Derrubou mãe, filha, neta e faxineiras um sem número de vezes. Dizem que matou minha avó. Ela caiu quando estava montada nele, quebrou o quadril e morreu, cem dias depois, na cama de um hospital. Infecção hospitalar. Mas minha avó tinha labirintite e osteoporose, estava com mais de 80 anos. Se não fosse o banquinho, poderia ser um escorregão no piso, um tropeção naquele degrau com defeito que ligava a sala ao corredor da casa dela. Enfim, eu nunca achei muito honesto considerar o banquinho um assassino.

Até agora. Escorrego feio quando tento pegar uma centrífuga de salada, guardada no alto porque quase nunca uso; a tampa não encaixa direito. Em vez de pisar no meio, piso na ponta do banco, o que o fez emborcar como um navio de papel. O mesmo erro da avó.

Me assusto, um frio percorrendo a espinha, a secadora de salada na mão, como se ela não estivesse nem aí para o acidente. Olho para o banco, virado de lado, e imagino que, por causa dele, eu poderia estar lascada. Ou morta. Penso em todas as vezes que ele derrubou alguém da família. Me lembro dos tombos, dos sustos, da torção no pé da minha mãe —um mês de botinha ortopédica, muitos anos atrás.

Me xingo por subir no banco de forma apressada, sem respeitar os defeitos da sua anatomia. Quantas vezes ouvi alguém da família avisando "cuidado com este banquinho que ele vira?", um alerta irritante, em geral dado por quem estava sentado à mesa, folgando, enquanto a outra pessoa dava duro colocando copos nos armários ou organizando os potes de Tupperware. Quantas vezes eu mesma pedi aos filhos para pisarem no meio dele, "nunca nas pontas"?

Não sei o que me deixa ali, esparramada no chão, olhando para o banquinho, em vez de levantar logo, me esquecer do tombo e continuar a preparar a salada, como sempre havia sido. Talvez seja a idade? Agora que sei que ossos quebram e que não sou Highlander? Ou a experiência —o resultado não muda se você continua fazendo tudo igual? Basta ter mais de 50 anos para saber que isso é a mais pura verdade. Um colega de trabalho gostava de dizer que "insistir no erro era o triunfo da esperança sobre a realidade" (parece que ele parodiava o escritor inglês Samuel Johnson, que criou a frase para falar mal do segundo casamento).

Imagino o que esse escritor diria sobre todas as vezes que subi no banquinho errático, esperançosa, acreditando que o tombo não se repetiria. O triunfo da esperança (de não cair) sobre a realidade implacável da queda. A esperança de que dessa vez será diferente... Esse banquinho azul tosco, encardido pelo tempo, que herdei da minha avó no lugar daquele lindo conjunto de xícaras de porcelanas douradas, não pode estar querendo ser uma metáfora da minha vida. Ou pode?

Sentada no piso frio da cozinha, com as costas apoiadas no pé da mesa, começo a achar que aquele pedaço de madeira, que não é móvel e nem escada, tem um ar realmente pretensioso. E zombeteiro. Se parece um pouco com aquelas pessoas que acham engraçado quando alguém tropeça e cai. Acho o fim.

Com muita raiva, decido tirar o banquinho da minha vida, não preciso mais de esperanças irracionais. Não vou mais gastar minha cota de fé em apostas sem sentido. Bastam todas as apostas necessárias, aquelas das quais preciso para sair da cama todo dia, abrir a janela e seguir em frente. Me levanto para carregar o banquinho da minha família até a lavanderia. O maldito banquinho. Nem me dou ao trabalho de colocá-lo de pé.

Amanhã, juro, ele vai virar picadinho.

P.S.: Esta é uma ficção com elementos biográficos.

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