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Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Descobri o empoderamento linguístico e conto por que ele é fundamental

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
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Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista de Universa

03/09/2021 04h00

Você fala inglês ou qualquer outra língua? Se sim, como aprendeu? Quais foram os acessos que você teve a essa educação? Que diferença fez na sua vida?

Se a sua resposta para a primeira pergunta é "não", já está no meu time. Vem comigo. Não fala inglês por quê? Não teve uma educação tão boa? Na escola não foi suficiente? Não teve oportunidade de ir para outro país?

Pode ter certeza que você não é culpada por nada disso; mas eu sei, porque eu também vivo nessa vida, em que, muitas vezes, não falar outra língua abala a nossa autoestima. Por isso, acho que a gente tem que falar um pouco sobre autoestima linguística, mas como eu não entendo nada sobre o assunto, eu convidei uma pessoa para falar aqui comigo, a linguista Cássia Santos.

Ela me explica que "a pessoa que estuda linguística - no meu caso, estudei linguística na Universidade Federal de São Carlos -, vai estudar todos os fenômenos da linguagem e da língua. E, nesse sentido, a gente precisa falar sobre empoderamento linguístico".

Uma vez cruzei com um vídeo dela na internet, em que ela estava explicando como falava ''água'' em inglês. Achei a explicação tão saudável, tão linda, que eu pensei ''eu acho que é essa mulher que vai me ajudar''. Mandei uma mensagem dizendo: ''olha, preciso muito falar inglês, aprimorar a fluência, porque cada vez mais eu tenho oportunidades em que eu preciso disso''. Começamos a conversar e, entre vários assuntos, chegamos ao termo ''Empoderamento Linguístico''.

Eu tinha uma dúvida que me angustiava demais que é: por que no Brasil a gente só fala uma língua? Por que a gente não aprende outras línguas verdadeiramente, sabe?

Na opinião da Cássia, a educação pública no Brasil não estimula. "Quando o aluno vai aprender em sala de aula fica naquela coisa do verbo 'to be'. É um ensino defasado", argumenta.

Além disso, a maioria no ensino público são pessoas pretas, periféricas. "Muitos carregam traumas, medos. Eles falam 'Cássia, eu não consigo aprender uma nova língua, me falaram que eu falo errado, que eu não sei nem falar português, quem dirá outra língua.'', me conta.

Chegamos, portanto, em outro ponto, quando ela me disse algo interessantíssimo: não existem erros de português, existem variações no idioma. "Não existe língua sem falantes. Existe uma maneira correta para falar as coisas? Não, não existe. Então, existe a norma padrão, que um grupo muito pequeno da nossa sociedade tem acesso, e existem todas as variações que a gente tem no cotidiano. A correção do plural do coleguinha ou ainda ficar diminuindo o outro por ele não falar como a gente considera como certo também é uma forma também de opressão e de fechar espaços", complementa.

Quando falamos em um segundo idioma, então, estamos nos referindo a um privilégio, também diretamente relacionado ao racismo estrutural. Se poucas pessoas têm acesso a falar uma outra língua e essas pessoas são exatamente as privilegiadas, significa que, se você não tem fluência nem foi iniciado em um segundo idioma, em primeiro lugar, a culpa é da estrutura social

Mas, pensando no outro lado da moeda, pensando em autoestima, será que falar outra língua traz benefícios? E o lugar em que aprendemos faz diferença?

Cássia explica que sim. "É algo que te coloca em espaços inimagináveis, porque você começa a ter contato com novas pessoas. Por exemplo, eu acho ótimo quando dizem: ''Ah, eu fui para África do Sul aprender inglês'', pois é um inglês diferente, africano. Para quem é preto, por exemplo, já se encontra com uma nova identidade, porque a língua cria novas realidades", argumenta.

Ela me conta também que já teve oportunidade de falar inglês com pessoas no Brasil e fora. E que, dependendo do contexto, se sentiu insegura, sim. Entretanto, com o tempo, foi percebendo que a língua só funciona se a gente fala, então, ela simplesmente começou a praticar.

"Esse lugar é nosso. Principalmente desse povo preto, lutador, que às vezes não consegue pagar um curso de inglês. A minha palavra para todos é: pratique, tente colocar o vocabulário no seu dia a dia. Inspira frases no dia a dia. Então, acordou fala para sua família ''bom dia - good morning''. Baixe todos os aplicativos, tente encontrar as palavras estrangeiras que a gente já usa no cotidiano, confira em um dicionário. Tente começar algum livro. Vai dar certo!".

Outra dica legal é avisar as pessoas do nosso círculo social que estamos aprendendo, porque essas pessoas vão acabar ajudando, mandando um link, uma referência para ajudar.

Vou aplicar os conselhos por aqui e te convido a fazer o mesmo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL