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Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Discurso para vestir': a roupa que uso também é símbolo de resistência

Cristina Mendonça, mãe de Ana Paula Xongani, recria a líder quilombola Tereza de Benguela - Acervo pessoal
Cristina Mendonça, mãe de Ana Paula Xongani, recria a líder quilombola Tereza de Benguela Imagem: Acervo pessoal
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Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista de Universa

29/07/2021 04h00

Certa vez, disseram que a minha marca, o Ateliê Xongani, faz "discursos para vestir". Eu amei. É a definição perfeita para uma marca criada e liderada por duas mulheres negras que adoram falar, claro, mas também amam expressar e ressignificar as suas existências a partir da moda.

Há mais de dez anos, quando minha mãe, Cristina Mendonça, e eu criamos o Ateliê, inspiradas pelos tecidos que encontrei em uma viagem à Moçambique, chamadas capulanas, sabíamos que era a hora de levar essa imagem para mais mulheres. Queríamos mostrar aquilo que a moda sempre foi para a gente: um lugar de expressão, de cuidado, de beleza. O nome "Xongani" significa isso, inclusive: "se enfeite, fique bonita!".

Antes de pensarmos em entrar no mercado da moda, minha mãe já me mostrava os papéis desempenhados pelas vestimentas — às vezes escudo, às vezes palco.

Quando ela criava minhas roupas e acessórios, era para deixar bonita toda a minha corporalidade negra e fortalecer as minhas subjetividades a partir da autoestima

Quando ela cortou o cabelo alisado, muito antes da "transição capilar" e o "big shop" virar um movimento importante, era para que eu crescesse vendo todos os dias um cabelo igual ao meu ser cuidado, enfeitado. Era para me ensinar, apesar dos padrões dizendo o contrário, a ver beleza nos cabelos crespos naturais.

É por isso que, para a gente, é tão emocionante recomeçar o Ateliê Xongani, que estava parado há mais de um ano, em razão da pandemia. Considero um renascimento, porque a volta sustenta não apenas o Ateliê em si, mas também as subjetividades da minha existência, da existência da minha mãe e de todas as mulheres que, também através da moda que a gente produz, enxergam beleza nelas mesmas.

Mulheres como a Klaryssa Keize, uma jovem na casa dos vinte, e a Cleide Nascimento, mais velha, na casa dos 50, que estão com a gente diariamente no Ateliê, se dedicaram muito para entregarmos a coleção Tereza. Ela é inspirada na mulher negra e quilombola Tereza de Benguela, baseada nos pilares de criação, consciência e resistência. Recriamos a figura de Tereza a partir da imagem da minha mãe, aos 63 anos, como uma rainha com vestida e adornada com acessórios.

Para este renascimento, firmamos uma parceria com Marcha das Mulheres Negras, movimento incansável na garantia do bem viver de pessoas negras, e uma nossas peças tem parte do lucro revertido para as ações deste movimento.

Tudo que eu faço é sobre isso. Seja nesta coluna, nos meus canais pessoais ou no Ateliê Xongani, meu trabalho é inspirado pela nossa força, beleza e complexidades. Acredito em uma moda acessível e inclusiva, pensada e modelada para nós, para a diversidade dos nossos corpos; pronta para vestir tudo o que somos e nosso corpo carrega. Por nós, por todas nós, pelo bem viver.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL