PUBLICIDADE

Topo

Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Levei 25 anos para entender o que é ser uma mulher negra latino-americana'

Em 25 de julho, é lembrado o Dia da Muher Negra Latino-Americana e Caribenha - Jessica Felicio/Unsplash
Em 25 de julho, é lembrado o Dia da Muher Negra Latino-Americana e Caribenha Imagem: Jessica Felicio/Unsplash
Conteúdo exclusivo para assinantes
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista de Universa

25/07/2021 04h00

Quanto tempo você demorou para sacar que você, nascida e habitante do Brasil, é uma pessoa latino-americana? Eu demorei uma média de 25, 26 anos. Muito, não é? Se você não sabe, vou te contar: neste domingo, dia 25 de Julho, é celebrado o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

Essa data é um marco de luta, mas bem recente — foi instituída em 1992, no 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, na República Dominicana. O evento aconteceu para dar visibilidade às mulheres negras que atuam contra a opressão de gênero, a exploração e o racismo. No Brasil, desde 2014 e pelas mãos da presidente Dilma Rousseff, se comemora na mesma data o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, homenagem à líder quilombola homônima que viveu no século 18.

A consciência de que somos pessoas latinas, mulheres latinas, mulheres negras latino-americanas e caribenhas nem sempre é óbvia, e isso gera algumas questões que valem a conversa.

A questão que mais me incomoda é que o fato de não nos reconhecermos como latinas, parte deste pedaço da "América", soma muito na invisibilização dos povos indígenas, originários dessa terra. É uma recusa que nos desconecta da história deste território, nos afasta da noção de não apenas fazer parte dela, mas de poder impactá-la.

Vamos pensar aqui juntas. Antes do processo violentíssimo da colonização e escravidão no Brasil, já tinha gente aqui, vivendo no país em plena harmonia e respeito à natureza, com uma riqueza cultural imensurável.

Lélia Gonzalez, que é uma mulher que descende de africanos e indígenas, gostava de usar o termo "amefricana": eu sou uma amefricana, somos amefricanos. Isso jogou luz na existência desses povos aqui da América. Há muitas pessoas parecidas comigo fora desse Brasil, neste mesmo continente. Por exemplo, na Colômbia (que é meu sonho conhecer), temos 30% de população negra. Tem muita gente que não sabe que Jamaica é Caribe, que Haiti fica na América e que são populações, países, majoritariamente pretos. O Haiti tem uma história de resistência fortíssima, que a gente precisa conhecer, se apropriar e entender, porque é também a história do povo negro, de mulheres negras latino-americanas.

O fato é que me reconhecer como uma mulher negra latino-americana, para mim, trouxe mais força na luta. Perceber que tem mulheres negras por aí, em outras partes das américas, e que se conectam comigo, me traz a noção que nós somos muito maiores

Somos negras, somos latinas, somos muitas e habitamos a maior parte desse continente. Dia 25 de Julho é Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Ocupamos e seguiremos ocupando esse lugar, porque esse território também é nosso.

Você já tinha pensado nisso? Quem são as mulheres negras de outros países da América Latina e Caribe que você conhece e admira?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL