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Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Pela minha filha e pelo país": por que fui ao protesto no meio da pandemia

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Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista de Universa

25/06/2021 04h00

Frequento marchas e manifestações desde muito nova. Lembro-me de ir com meus pais, mas, depois de mais velha e com uma filha, passei a ter medo. Eu achava que outras pessoas podiam cuidar disso, pois eu estava em casa cuidando da minha pequena. Então, deixei de estar fisicamente presente nas mobilizações e passei a acompanhar de forma digital, apoiá-las via internet.

Uma vez, uma sábia amiga chamada Sueide Kintê me disse que uma mãe preta, que cria filhos pretos, já está fazendo um grande ativismo. Pense na Kathlen Romeu, mulher de 21 anos, grávida e assassinada; no Miguel, de 5 anos, garoto pernambucano que morreu em razão da negligência da patroa da mãe; na Ágatha Félix, de 8 anos, baleada a caminho de casa. Esses casos evidenciam de forma muito concreta, cruel e dolorosa o quanto ser mãe de uma criança negra já é um grande ativismo cotidiano, uma vez pensamos não só nos aspectos da criação, mas também nas estratégias para que os filhos continuem vivos.

Então, acolhi o meu medo aceitando que já desempenho um trabalho árduo, que é a construção da identidade e da autoestima da minha filha enquanto uma menina preta. Só que eu cheguei no meu limite.

Outro dia, comecei a pensar nos meus pais ativistas e no meu avô, que foi preso político na época das Diretas Já. Quando ele morreu, vários governos depois, foi embora com a sensação de que valeu a pena — ele assistiu os avanços, participou deles.

Diante disso, refleti que quero participar dos avanços da minha geração. Quero estar presente nas mudanças que desejo e acredito, aquelas que as próximas gerações também merecem, assim como usufrui das coisas que meu avô construiu. E é por isso que saí de casa no último fim de semana.

O outro motivo é que sinto que cheguei ao limite. Fazia sentido ficar em casa focada na Ayoluwa, minha filha, mas começou a deixar de fazer quando o momento que a gente está se mostrou tão violento, danoso, cruel e perverso. Não que já não fosse tudo isso antes, mas ultrapassou qualquer fronteira.

Estou no limite do medo, e não que os meus outros medos deixaram de existir, mas esse se tornou uma prioridade

Cumpri o isolamento social o máximo possível, mas precisei ir para a rua e somar a esse movimento. No meu cartaz, estava escrito: ''pela minha filha e pelo futuro do Brasil!'', porque foi nesse fluxo de pensamento que o meu avô e minha mãe fizeram por mim. Quando escrevo "minha filha", não me refiro apenas a ela, por isso coloquei ''futuro'' na mesma frase. Quando a menciono, estou falando de uma geração.

A presença no ato me encheu de esperança, porque aquela sensação de todo mundo em movimento pacífico, organizado e seguindo os protocolos da saúde o máximo possível, com uso de máscara e álcool em gel, é bonito, forte e potente. Dá aquela sensação de que você não está sozinho e que mais pessoas querem mudanças; que existe uma força do povo, das pessoas que desejam um país melhor.

Voltei para casa e minha filha ficou orgulhosa. Reverberar esse sentimento em outros territórios, como nas redes sociais, também tem importância, mas estar naquele meio me transformou mais uma vez.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL