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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ao buscar empregada doméstica nos EUA, ex-BBB mais parece procurar escravas

Ex-BBB Adriana Sant"anna fez uma série de stories reclamando do preço das empregadas domésticas nos EUA - Imagem: Reprodução/Instagram@santanaadriana
Ex-BBB Adriana Sant'anna fez uma série de stories reclamando do preço das empregadas domésticas nos EUA Imagem: Imagem: Reprodução/Instagram@santanaadriana
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

24/06/2021 13h35

"Gente, por favor. Acha alguém pra trabalhar aqui em casa, fazer tudo. Eu imploro. A gente paga bem. Eu só preciso que limpe, lave, passe, guarde, cozinhe e olhe as crianças quando eu precisar. Não aguento mais essa vida de ficar colocando coisa pra lavar." Esse desabafo 'desesperado' foi feito por Adriana Sant'anna, ex BBB e influenciadora que mora nos Estados Unidos, em seu Instagram.

Ela falava sobre a dificuldade de encontrar empregada doméstica no país onde vive. Em uma série de stories, Adriana reclamou também do preço cobrado por essas profissionais nos Estados Unidos. "No Brasil a gente estava feito. A gente tinha uma pessoa que fazia tudo. Aqui, para passar 25 dólares a hora a mais, para dobrar 25 dólares. Ah, para poder esticar o braço, mais 10 dólares. É assim! Então, você que tem alguém no Brasil, ajoelha e agradeça a Jesus".

A série de stories da influenciadora, que se diz desesperada, sem dormir e rezando, é uma espécie de aula prática de como funciona a mentalidade escravocrata de algumas pessoas do nosso país.

O Brasil é o país com mais empregadas domésticas no mundo (são mais de 6 milhões). Essa relação, muitas vezes, não é uma simples relação comercial, mas uma relação quase de "servo" e "sinhá".

Claro que não tem problema você contratar um profissional para fazer uma faxina ou uma babá para cuidar dos seus filhos, já que você não tem tempo porque também trabalha. Nada de errado nisso. Mas esse é um serviço e quem o faz é um profissional. E, como todos, deve ser respeitado e bem pago. Independente da profissão.

Alguém que "faça tudo", quando as relações trabalhistas são respeitadas, é algo que não existe. Nem a rainha da Inglaterra tem alguém que faz tudo. Ela tem governanta, garçom, cozinheiro, motorista. Alguém para fazer tudo seria um... servo.

Adriana Sant'anna não é a única a confundir empregadas domésticas com escravas e nem a culpada por essa mentalidade, que vem desde os tempos da escravidão.

Ela também não é a primeira a ter um choque cultural quando muda de país e descobre que ter uma serva que faça tudo para você não é uma realidade mundial, mas algo que acontece em um país que é extremamente desigual. E não, Adriana, isso não é algo pelo qual devemos ajoelhar e agradecer, muito pelo contrário. É algo pelo qual a gente deve se envergonhar.

Será que é tão difícil para mulheres como Adriana entender que ter uma "anja que faz tudo" não é privilégio, mas atraso? Um bom exercício para mulheres como ela: tentar se colocar no lugar do outro. Elas gostariam de ser essa pessoa que "faz tudo" para outra mulher ganhando um salário que só dá para pagar as contas? Quanto você cobraria para fazer esse trabalho?

A relação com funcionárias domésticas é tão mal resolvida no Brasil que muitas mulheres agradecem às suas empregadas falando que elas são "umas anjas que me ajudam". Não. Ela é uma profissional que você explora. É simples assim.

Quanto a ter que fazer tarefas domésticas (motivo de desespero para Adriana no vídeo) é difícil mesmo. É absurdo que sobre mais para as mulheres e que a maioria dos homens "só ajudem". Mas essa é a realidade da maioria das mulheres do mundo. Força, guerreira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL