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Ana Paula Xongani

Cheguei até aqui graças às mulheres da minha vida

Ana Paula Xongani com a mãe Cristina Mendonça, a avó e a filha - Rodrigo Fuzar/Divulgação
Ana Paula Xongani com a mãe Cristina Mendonça, a avó e a filha Imagem: Rodrigo Fuzar/Divulgação
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

31/12/2020 04h00

A gente que é mulher passa por muita coisa, né? Eu mesma já passei por várias e diferentes situações por ser mulher e, considerando a sociedade que a gente vive, também por ser uma mulher negra. E cada vez fica mais claro para mim a relação de como eu cheguei onde estou hoje com as mulheres que me sustentaram até aqui.

Venho de uma família que posso considerar matriarcal. Apesar do machismo e do patriarcado estarem presentes como em todas as gerações, a minha família é, sem dúvida, liderada por mulheres.

Embora não tenha sido sempre assim, hoje me sinto muito privilegiada porque tenho mulheres poderosas ao meu redor. Tanto as mulheres mais velhas da minha família, quanto as amigas e os grupos de mulheres que eu circulo.

Hoje quero dizer aqui que o feminismo, sobretudo o feminismo negro, foi uma porta para eu acessar estas mulheres, objetiva e subjetivamente. Estar em volta delas. E quando falo mulheres, estou falando de mulheres cis e trans. Brancas e negras. De diferentes sexualidades. Considero ser importante, em muitos momentos, delimitar, especificar as coisas. Tipo: "mulheres negras", "mulheres trans", "mulheres cis", "mulheres brancas", "mulheres heterossexuais", "mulheres lésbicas" etc. Mas é inegável que, perante a sociedade, mesmo com marcadores diferentes, estamos todas dentro de um guarda-chuva maior, de sermos "mulheres". E, deste lugar, temos elaborado um mundo melhor também pra nós, mulheres.

Quando comecei a me cercar de mulheres, muitas delas viraram amigas, parceiras, colegas de trabalho. Aqui no canal falo muito com elas. As pessoas que encontro na rua e mais me dedicam carinho são as mulheres e, cada vez mais, eu admiro o que temos feito e tudo o que conseguimos fazer juntas.

Se a gente for parar pra pensar, dá para perceber como nos organizamos pelo afeto, a e partir dele. A gente compartilha histórias, fala da gente e transforma o outro a partir de nós mesmas.

Olhando para a história, já avançamos politicamente, economicamente, culturalmente, socialmente, mesmo com poucos recursos, sem acesso ao dinheiro, às instituições públicas e privadas, ao poder, à tecnologia, sendo vitimizadas por várias violências cotidianamente. Já pararam pra pensar o quanto evoluímos pra chegar até aqui? Penso direto nisso, e penso que tem muito a ver com a capacidade que a mulher tem de olhar no olho. De entender, por ser mulher, o que é a vida e quais são as questões de outra mulher.

E isso é muito importante. É muito significativo quando a gente passa por uma situação, olha em volta e tem uma mulher. Há um tempo, estava num ônibus conhecido como "madrugadão". Aqui em São Paulo é uma linha que circula vários bairros madrugada adentro, levando de volta pra casa principalmente pessoas que trabalham até tarde da noite ou na madrugada; ou pessoas que estão ocupando a cidade por outras razões.

Neste horário, muitos homens entraram no ônibus e, de cara, penso por que apenas eles ocupam a cidade neste horário. Enfim. Fui ficando um pouco tensa. Até que entrou outra mulher. Ela era muito diferente de mim. Mas, entrou, me viu, deu um sorriso e sentou ao meu lado. E isso fez a minha viagem de volta pra casa ser muito mais tranquila e relaxada. Porque eu sabia que tinha uma pessoa ali por mim e ela, provavelmente, sentia a mesma coisa.

O que seria de nós, não fosse o abraço, a conversa, a troca de ideias, os encontros? A gente vem resistindo e transformando os espaços a partir dos nossos encontros. A partir do que a gente é, de como a gente consegue se transformar uma com as outras. A partir do afeto, com certeza.

E se você que está lendo isso aqui é um homem e está achando que este texto não é pra você: é sim. É pra te dizer que o movimento que a gente vem fazendo aqui tem transformado as estruturas. E que quando conseguirmos equidade, isso vai ser bom pra todos, inclusive pra vocês, homens.

Se você é homem, vamos fazer um exercício: me conte aqui nos comentários se você já tem a sensibilidade de sacar o poder e o impacto das mulheres da sua vida, sua mãe, sua irmã, sua filha, sua companheira.

E se você é mulher, me conta também. Me diz se você tem um grupo pra chamar de seu, uma rede de apoio de mulheres, de cura, de autoconhecimento, autoaceitação, um grupo de mulheres onde você pode existir. Principalmente se você for uma mulher negra, me conta quais são os espaços seguros físicos ou online pra você se expressar, ser o que é, falar sobre suas coisas.

Quem sabe dou umas dicas dos lugares poderosos de encontro de mulheres que me transformaram, que ainda me transformam e que podem me transformar, nos transformar ainda mais.

Seria uma boa lista pra começar 2021, heim?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.