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Ana Paula Xongani

Preta Caminhão: Ela saiu do armário 2 vezes e achou na moda a sua liberdade

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

19/11/2020 04h00

Vou começar a coluna de hoje com um clichê: quem me conhece sabe (rs) que com a minha criação de conteúdo gosto sempre de misturar conversas gostosinhas com papo cabeça. A partir do diálogo que estabelece conexões, promover reflexões sobre coisas que atravessam a mim e aos corpos como o meu: um corpo de mulher, um corpo preto, um corpo volumoso.

Quando entrevistei a Ana Claudino, ela me apresentou a Preta Caminhão, perfil da Jamine Miranda no Instagram, uma grande influência pra ela, que passou instantaneamente a ser também uma grande influência pra mim. Uma mulher preta falando sobre moda. Uma mulher preta falando sobre o quanto ela entendeu que a moda é seu lugar de expressão. Uma mulher que, com seu conteúdo, colabora para que outras mulheres rompam com ciclos de violência que a própria moda impõe a um corpo como o dela, como o meu, como o seu.

Decidi então conhecê-la e trazer um pouco mais disso tudo pra esta coluna. E comecei perguntando como ela se vê no mundo da moda. "A moda é o meu lugar de liberdade, a expressão do que eu sou. É onde eu crio novas narrativas e possibilidades de entendimento do que é a liberdade, de que você pode se vestir como quiser. De que, mesmo não estando dentro de um padrão de feminilidade imposta, você tem a sua vaidade, o seu cuidado com você mesma."

Jamine me conta que pra ela não foi diferente. Como muitas de nós, mulheres negras, a questão estética, de se entender, se olhar e ser olhada a partir de uma perspectiva da beleza tem um impacto gigante na construção da nossa autoestima e, claro, da nossa personalidade.

"Na infância, sempre tive liberdade de me vestir como eu gostava, com blusões, camisetões e tal. Mas, entrando na adolescência, a coisa muda um pouco. Você tá lá, querendo beijar na boca e tinha uma coisa muito posta. Eu, se além de negra, não performasse aquela feminilidade padrão, se eu não fosse uma "preta tombamento", ninguém ficaria comigo não."

Ela, que "saiu do armário duas vezes", primeiro como mulher lésbica e depois como caminhoneira, precisou criar seu próprio caminho. "Cheguei a me questionar se eu não era um homem (trans, no caso), do tanto que eu não cabia nas expressões de feminilidade. Foi um processão entender e construir o caminho do que é ser mulher pra mim, gostando de me vestir da forma que eu gosto."

Entender qual é o nosso "look ideal" estando fora dos padrões traz muitos desafios. "Cara, eu compro a maioria das minhas coisas em lojas de departamento e é complexo, né? Primeiro, mesmo que eu performasse essa feminilidade imposta, entraria numa loja e não encontraria nada que me serve nessa sessão, pelas questões do tamanho. Aí pego alguns acessórios e vou pra sessão dita masculina. Aí, chego lá, as camisas de botão, que eu adoro, são produzidas para corpos sem seios e com barrigas maiores. Quando visto, ficam apertadas na altura dos seios e super largas, esquisitas, na altura da cintura. É um não lugar."

Durante nosso papo, já profetizei uma coleção de camisas com design da Preta Caminhão em parceria com o Ateliê Xongani. Acho que vai ser um sucesso necessário!

Sobre a criação de conteúdo, Jamine explica: "Quando eu ia buscar referências na internet, encontrava poucas coisas, não encontrava quase ninguém parecida comigo. Então, eu quis ser essa referência e tem sido um rolezão de vida mesmo. É muito legal se conectar com pessoas como você, trocar, aprender, criar juntas um lugar de conforto pra ser quem a gente é, entender que a gente é daora sendo exatamente como somos".

Uma coisa que me chamou a atenção foi quando ela falou de sua mãe, Zoilde Guedes. Aliás, isso sempre me chama a atenção porque somos nós, adultos, os responsáveis por criar esse universo de liberdade de expressão para as crianças e como isso é importante.

"A minha mãe está no lugar em que isso não é uma questão mais. Uma vez, com uma namorada, nessa época de fim de ano que a gente tem aquele lance de usar tal cor no dia da virada do ano, ela chegou em casa com uma cueca pra mim e uma calcinha pra minha namorada."

Mandou bem dona Zoilde! "É muito importante, no momento em que você já tá passando por vários processos de entendimento do que você é, da estética derivada disso, não ter atravessamentos no seio familiar. O apoio da minha família foi fundamental pra mim!"

Eu acho isso lindo. Perfeito!

Preta Caminhão é linda! Faz um trabalho incrível em suas redes e transpõe muitas barreiras. Um olhar engessado pode achar que o que ela faz impacta apenas mulheres lésbicas, por exemplo. É claro que tem este lugar e ele é muito importante. Mas, ela impacta a mim, uma mulher heterossexual. Ela me faz refletir sobre padrões de gênero, sobre quais peças podem ficar incríveis no meu corpo volumoso, sobre outras possibilidades de acessórios, de make, de cabelo.

Ela me inspira a continuar investigando e expondo a moda e suas relações com a sociedade, com nosso comportamento. Continuar falando sobre os problemas e as soluções que a moda pode implementar no nosso dia a dia, na nossa convivência, na nossa existência.

É isso que sempre desejei com esta coluna e com os encontros que ela me traz, como a Preta Caminhão, a quem agradeço demais pelo trabalho e pela troca.

Você, que está lendo e chegou até o final deste texto, te convido: volte nas fotos. Releia as imagens. Bora sair da caixinha?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.