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Chinelo virou sandália pra quem?

McDellacroix em campanha para a Havaianas - Reprodução/Instagram
McDellacroix em campanha para a Havaianas Imagem: Reprodução/Instagram
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

17/09/2020 04h00Atualizada em 17/09/2020 09h49

Todo mundo sabe que, já há algum tempo, existe um aspecto da indústria da moda que propõe uma estética descontraída, com uma forma de se vestir mais "leve", mais "suave", "slow", sugerindo que a moda, além de um lugar de beleza, é também um lugar de conforto.

Sim, é fato, alguns padrões já foram quebrados. No universo do trabalho corporativo, dos escritórios e salas de reunião, sobretudo nas áreas mais "inovadoras" e moderninhas - tecnologia, telefonia, comunicação, marketing e afins - não existe mais a obrigatoriedade do terno e gravata para homens e do salto para mulheres.

Pode-se usar roupas mais confortáveis, em alguns casos até "chinelos". Mark Zuckerberg criou uma tendência quando apareceu de chinelos e meias em suas fotos trabalhando, certo? Isso também se estende para outras tendências que temos acompanhado: calças e bermudas rasgadas, upcycling, e a até mesmo a moda brechó, vintage.

Particularmente, gosto.

Mas, pra gente seguir nesse ambiente de transformação e rompimento de padrões, quero propor algumas reflexões. Aqui mesmo nesta coluna, já falamos que, antes de tudo, a moda veste um corpo, uma pele. A moda veste o nosso ser e estar neste mundo.

O corpo que recebe esta informação de moda, seja esta moda tendência ou não, sempre vai dizer mais do que a própria tendência. Ou seja, corpos diferentes são lidos de formas diferentes pela sociedade, a partir da moda.

Muitas vezes, a moda é pensada a partir de um padrão. A moda agora é usar chinelo? Ok. Mas, quando isso foi pensado e virou case de mercado, quais corpos deixaram de calçar chinelo e passaram a calçar sandálias?

Hoje, por exemplo, vejo com alegria e entusiasmo as recentes campanhas da Havaianas nas redes sociais, em parceria com o Young Gifted and Blackn, com fotos belíssimas de mulheres negras, outras com pessoas trans. É só arrastar o feed para observar a proposta mais diversa. E isso é ótimo. Meu desejo é que se torne comum. Sabe por quê?

Cuidando de alguns recortes regionais, já que o nome "chinelo" pode variar de região para região, se sairmos da bolha da internet, se formos pras ruas, pro dia a dia, para os ônibus e metrôs, das margens da cidade para o centro, o chinelo é sandália para quem? A moda vintage se torna vintage para quem? A calça rasgada é fashion para quem?

Como será que a sociedade, ainda hoje, lê um corpo preto, um corpo gordo ou um corpo trans indo trabalhar de chinelo? Como essas pessoas são lidas no caminho que fazem de casa até o trabalho, quais olhares recebem? E nas portarias dos prédios nas regiões nobres e mais centrais? Será que são os mesmos de um corpo considerado "padrão"?

Durante a gravação do programa Se Essa Roupa Fosse Minha, que apresento no GNT, me lembro da preocupação da minha mãe, uma mulher sexagenária, de outra geração. Ela queria que eu "me arrumasse" para chegar ao set. Eu já seria "arrumada" lá, bem vestida e maquiada. Mas, ela queria que eu "me arrumasse para ir", porque ela queria que eu fosse "lida" como apresentadora de TV. Percebem?

Essa ressignificação dos termos e das tendências é importante, bonita e sustentável, mas precisa estar acompanhada de um trabalho mais profundo de quem faz a moda acontecer - marcas, indústria, mídia - de ressignificação dos corpos, da liberdade e da leitura social de quem a veste, a liberdade de quem a veste.

E é por isso que essa campanha acerta e por isso desejo que ela se torne comum, que se estenda a outras marcas. É sobre criar estes imaginários de que corpos diferentes do padrão também pertencem a esse universo.

Pois também é fato que numa estrutura mais ampla, ainda hoje, mesmo assumindo os estereótipos que a moda propõe ou propôs historicamente, corpos não-padrão não são lidos como parte dos mais diferentes espaços, muitas vezes nesse lugar de "faço parte", "pertenço a esse espaço", certo?

Será que as pessoas estão preparadas para um homem negro de máscara neste momento de isolamento social? Ou para mulher negra advogada, por exemplo, ir trabalhar de tênis? Ou será que isso é privilégio de alguns? Será que ressignificar a moda já é para todo mundo?

Será que quem faz a moda, cria tendências, é capaz de colocar todo mundo na intersecção, no atravessamento das questões sociais que a gente vive? Isso é muito importante que aconteça.

A partir do meu corpo negro retinto, eu quero deixar de ter receio de sair "de boas" na rua. Quero usar minhas roupas leves, meus chinelos, sabe? Quero sentir essa liberdade, essa suavidade. Meu sonho!

Claro que este não é um trabalho apenas das marcas. Tem muita coisa por trás disso, muita coisa que envolve a transformação dos olhares da sociedade para tudo isso que escrevo aqui. Mas, é também e principalmente responsabilidade delas, uma vez que são elas que criam e alimentam imaginários a partir de suas campanhas.

Essa diversidade precisa cada vez mais deixar de ser pontual e passar a ser perene, em todas as marcas. Não quero a liberdade só em março e maio para as mulheres, em junho para os LGBTQIA+ ou em novembro para os negros.

Precisa ser sempre. Precisa ser todo dia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.