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Ana Paula Xongani

A moda serve você ou você serve a moda?

Reprodução/Pinterest
Imagem: Reprodução/Pinterest
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

20/08/2020 04h00Atualizada em 25/08/2020 12h07

Roupa é essa combinação de tecidos, técnicas e intenções que amamos e todes usamos, não tem jeito. Elas nos aquecem, fazem nosso dinheiro circular. Ela fala por nós, nos diz muito sobre lugares sociais e muitas, muitas vezes mesmo, nos protege de um mundo que insiste em não aprender a lidar com corpos diversos, sobretudo o corpo da mulher e, ainda mais, da mulher não-padrão. Mas, isso pode ser assunto pra outra coluna porque hoje quero propor outro papo por aqui: quando será que a roupa protege a gente da gente mesma?

Cá pra nós, ninguém nasce de roupa, né? E, em algumas culturas, também não morre com ela.

Embaixo de todos esses panos e de todas as essas ideias, o que encontramos? Ele mesmo, nosso corpo. E olha que curioso: igualmente como suas roupas, ele, o corpo, conta desejos, marcas, vontades e necessidades.

Quando a gente fala sobre moda é importante ter um olhar completo sobre a gente! Você já parou pra pensar que não existe roupa sem corpo, mas existe corpo sem roupa? Só isso nos dá a dimensão da importância da corporeidade para o desenvolvimento da moda. Pensar moda sem falar de corpo é, portanto, incompleto.

É muito possível passarmos dias, até anos, sem olhar para os nossos corpos mesmo vestindo eles diariamente. Evitar o espelho e um olhar cuidadoso pra gente é mais cotidiano do que imaginamos. E é muito comum dedicarmos mais tempo pensando em como vamos COBRIR do que como vamos DEScobrir os nossos corpos.

Descobrir corpos sempre fez parte de "como" a gente conta as histórias. As roupas se transformam em indumentárias que se transformam em marcas históricas. Quer alguns exemplos? A disparidade dos corpos escravizados nus enquanto escravizadores andavam cheios de panos é um marco da desigualdade. A revolução da mini-saia nos anos 60 é um marco das discussões feministas.

O cós baixo dos anos 90 é um marco do culto ao corpo magro. Mesmo os croppeds contemporâneos, que no meu feed aparece sempre deixando belíssimos corpos volumosos à mostra como o meu, também neste contexto entendo demais como um marco da busca por liberdade e noção de outras referências de beleza.

Mas existe uma outra dimensão para o "DEScobrir", muito mais complexo e individual. Um descobrir dedicado e investigativo sobre nossa intimidade. O momento que a gente descobre nosso corpo no mundo, os territórios que ele ocupa, coletivos e individuais é um dos momentos de maior importância em nossa trajetória.

Somos pouco estimulades a lidar com a gente. Masturbação, por exemplo, ocupa lugares de vergonha. Se acariciar é um tabu e até cuidados básicos, como pentear o próprio cabelo, cuidar da própria unha ou mesmo da própria pele, é rapidamente terceirizado.

Quando olhamos para as mulheres as diferenças se amplificam, com tantas regras impostas pelo machismo e pelo patriarcado. É mais fácil esconder e odiar nossos corpos do que entendê-los e conhecê-los.

Como ele se movimenta fora da modelagem superestruturada? Quais volumes que ele tem sem o apertar o cinto ou como ele fica livre na fluidez de uma saia rodada? O que os tecidos grossos escondem sobre sua pele sensível? O que em você está sempre coberto por panos? Essas são perguntas para responder e repensar se a moda serve os nossos corpos ou se é com ela que a gente "foge" dele.

Como sempre digo nos conteúdos que produzo: moda são escolhas. Algumas delas ainda inconscientes. E ter consciência de moda é ter consciência corporal. Sempre importante lembrar também que é responsabilidade da moda enquanto indústria gerar conscientização sobre a necessidade de respeitar os corpos que a carregam.

Descobrir seu corpo é uma revolução individual. Lidar com todos os incômodos, festejar as belezas que ele tem, se olhar no espelho, entender o que é bom pra você, onde ele cabe e o mais incrível, aprender e dominar a língua que seu corpo fala. Com isso tudo em mente, a moda ganha outro lugar, que na minha opinião é o lugar onde ela merece: a moda a serviço dos corpos, das existências e das nossas escolhas conscientes. Não o inverso.

DEScubra-se!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.