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OPINIÃO

Chemsex sem falso moralismo: vantagens e perigos de usar drogas no sexo

Imagem: Fernando Moraes/UOL
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Ana Canosa

Colunista de Universa

14/06/2022 04h00

Uma mulher me procura me contando uma história triste. Casada há 10 anos e sem libido, decidiu usar drogas psicoativas para dar uma incrementada no tesão. O álcool, que ela já tomava, a ajudava a relaxar, mas acrescentou a maconha e, por vezes MD - uma droga excitatória. Infelizmente teve 2 surtos alucinatórios, que se mantiveram mesmo após o término do efeito da droga.

Agora continua sem desejo, muito provavelmente efeito dos medicamentos que ela precisa tomar - além de todas as motivações iniciais para a diminuição do desejo que ela ainda não me contou, mas que se identificadas e trabalhadas - inclusive com o casal - poderiam ter economizado a angústia e o problema atual.

Certa vez assisti a uma aula de um professor da universidade inglesa King's College que dizia que seu sonho era desenvolver uma técnica rápida para identificar, durante um show, quem é mais sensível a cannabis. Tipo exame de diabetes - fura o dedinho, coloca o sangue no reagente e voilà... para um lado quem tem menos chance de surtar, a para o outro quem deve evitar. Porque apesar de já estar bem documentada na literatura a relação entre cannabis e psicose, até agora, a ciência não desenvolveu um método para prever a pré-disposição.

Atualmente chamamos de chemsex o uso de substâncias psicoativas com o intuito de fomentar o prazer sexual. São as drogas que têm algum efeito sobre o desejo e a excitação, além do relaxamento, favorecendo, por exemplo, o sexo anal sem dor. Também estendem o prazer sexual por mais tempo, o que a priori é um desejo compreensível, afinal sexo é mesmo muito bom. Bem feito e prolongado, melhor ainda.

O problema é que, o uso repetitivo dessa associação diminui o repertório, já que acaba tornando o sexo um ritual muito específico, galáctico, transcendental e brilhante. Quem vai querer transar de cara limpa depois de experiências tão gratificantes?

Para o cérebro, quanto maior o prazer, maior a chance de querer repetir a sensação, por isso o risco da dependência, de sexo e de substâncias. E nem sempre - aliás demora para cair a ficha - a pessoa percebe os prejuízos.

No caso da mulher que eu citei acima, as consequências foram impactantes, limitadoras e duradouras, afinal ela terá que conviver por um tempo com a redução da libido e o tratamento psiquiátrico.

Sem contar o estigma social que tem que enfrentar. Sabe quando a brincadeira não dá certo? Pois é, me sensibilizo com a sua situação e de todas as pessoas que só queriam buscar um tantinho mais de prazer.

A vida é difícil mesmo, manter o desejo no casamento - e na vida - não é fácil, adultos que somos, sabemos disso.

Devemos discutir abertamente com a sociedade sobre os efeitos das drogas na resposta sexual, saindo de uma proposta meramente moralista e policialesca, para uma que ajude as pessoas a refletir sobre essas escolhas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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