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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

As vantagens e os desafios de namorar mulheres mais velhas

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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

31/05/2022 14h29

A pesquisa que eu citei outro dia, realizada pelo instituto Idea por amostragem, encomendada pela revista "GQ Brasil", revela que os homens estão mais abertos a namorarem com mulheres 10 anos mais velhas, muito embora prefiram as mais novas. 58,7% da média geral dos homens respondentes afirmou que sim, resposta que se manteve em praticamente todas as faixas etárias, regiões e faixa de renda, com exceção dos homens evangélicos (49,5%) e daqueles que ganham mais de 5 salários mínimos (48,9%). Ou seja, parece que quanto mais grana e apego a valores tradicionais, mais homens com rigidez no perfil de qual tipo de companheiras serve como ideal. Sinto tanto por eles...

O resultado geral mostra uma certa abertura para o combate ao etarismo e amplitude na visão sobre a mulher mais velha, que pode ser considerada mais interessante, por ser menos dependente em vários aspectos (financeiro, emocional) e ainda por cima mais experiente sexualmente falando - será que é essa a resistência dos evangélicos? Para os que prezam a abstinência sexual antes do matrimônio, a resistência pode fazer sentido.

O curioso - mas compreensível dado - é que, quanto mais velhos, menos homens estão dispostos a se relacionarem com mulheres 10 anos mais velhas, aumentando o índice dos que afirmam que se relacionariam com mulheres 10 anos mais novas. Segue-se o clichê.

Antes que a gente enverede só para a questão obviamente patriarcal, que demonstraria virilidade aos mais velhos por estarem desfilando com as mulheres mais novas, conferindo-lhe status e poder, eu gostaria de chamar a atenção para o que de fato move mais move essa rejeição.

Enquanto tratarmos o envelhecimento como a "morte" para a vida sexualmente ativa e interessante, evitaremos a qualquer custo aceitar a nossa própria velhice. E relacionamento amoroso faz espelho: quando minha parceria envelhece, reflete a experiência da vida, que muitas vezes eu própria não consigo aceitar. Tenho uma conhecida, de 85 anos, que fica tão brava - gritando pela casa - com o marido de 87 que se faz de "surdo", claramente porque admitir que ele está mesmo surdo - fato - é uma tentativa de se distanciar do medo que tem de suas próprias limitações. Então, um homem de 60 anos estar com uma mulher de 50 ameaçaria menos o seu próprio ego, já fragilizando com o tempo.

A resposta sexual humana muda com o envelhecimento, tornando-se muitas vezes mais lenta e pode trazer alguns desconfortos -perfeitamente resolvíveis, atualmente, com tratamentos farmacológicos, tecnológicos, cirúrgicos, fisioterápicos.

Mas a experiência e o gosto pela vida, além da prioridade amorosa, de doação e entrega, são os fatores que farão diferença no bem-estar sexual e da saúde física e emocional nas fases mais tardias da vida. Há várias pesquisas que apontam como pessoas mais velhas são sexualmente ativas e encontram alegria na relação sexual, mesmo com as adaptações que sejam necessárias para ela acontecer. Um viagra aqui, um lubrificante acolá, mais tempo para o nheco-nheco.

Chamo a atenção para a campanha do dia dos namorados da marca Reserva, que mostra um casal de pessoas mais velhas em uma cena sexy e erótica, com o slogan "Tem coisas que não mudam com o tempo".