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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vagina larga? Nem todo desencontro amoroso é responsabilidade nossa

Minha colega estava sendo perseguida pela síndrome da princesa, a mulher que para ser "a escolhida do baile" tem que ser bonita, generosa, prendada e casta - franckreporter/ iStock
Minha colega estava sendo perseguida pela síndrome da princesa, a mulher que para ser 'a escolhida do baile' tem que ser bonita, generosa, prendada e casta Imagem: franckreporter/ iStock
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

15/01/2022 04h00

O moço do beijo oco: essa é a maneira que minha colega se refere ao crush da vez. Um cara que ela conheceu em um desses aplicativos de encontros, com quem saiu e trocou uns beijos na primeira despedida. Beijo oco seria, em seu dicionário amoroso, um beijo sem língua. Achou estranho, meio sem entrega e conexão, tipo "beijo técnico de novela", coisa que ela imagina, já que nunca nem passou perto de um estúdio de TV.

De qualquer maneira, sem muito entusiasmo resolveu dar uma segunda "chance" aos dois. Saíram novamente e entre uma cerveja e outra, conversaram bastante. Do bar foram namorar na casa dele. Fizeram amor 3 vezes, me contou entusiasmada, dessa vez sem beijos ocos! Sentia-se alegre.

1. E o que mais a encantou...

...além da vitalidade sexual do homem, foi ele a ter chamado de gostosa várias vezes. Mais do que tudo ela estava com o ego inflado e a autoestima lá em cima. Para quem não se sentia muito atraente nos últimos tempos o reforço positivo foi fundamental para ter transformado esse momento de prazer em uma promessa de relacionamento.

2. E o que a decepcionou...

...foi que as mensagens trocadas pelo celular, durante a semana, não foram românticas, menos ainda picantes. Da parte dela, lançou um "...estava aqui lembrando da gente, foi uma delícia..." ou algo que o valha, mas ele não pareceu entusiasmado. Falaram do tempo, do trabalho, das cenas da vida cotidiana. Ao final de semana, se mostraram ocupados e ninguém deu um passo adiante, para um novo encontro. Ainda trocaram mensagens no sábado à noite, ele contando algumas agruras profissionais, totalmente desinteressantes do ponto de vista dela.

3. E ela começa então a se questionar...

... o que tem de errado, para ele não ter desejado encontrá-la novamente. Pensamentos naturais a que todos estamos sujeitos, já que aprendemos a gostar de nós a partir do quanto os outros gostam da gente. Uma cilada que armamos para nosso ego: você provavelmente é querido por várias pessoas e não por outras. Alguém pode não gostar de você sem razão aparente, simplesmente porque não "bateu o santo".

Minha terapeuta já dizia: "Você não é uma unanimidade"... Mas as mulheres foram induzidas a pensar que sempre são as responsáveis por tudo nos relacionamentos de bom e de ruim e que se há algo de "errado" o equívoco está, certamente, em sua atitude, em seu corpo ou no fato de terem assumido seu desejo sexual logo de cara...

4. Porque o ápice foi...

...quando ela se perguntou se o "moço do beijo oco" achou que a vagina dela era "larga demais", já que o pênis dele entrou com certa facilidade: "Estava bem excitada?"; "sim", ela me respondeu. E ao entabularmos uma conversa sobre o que de fato sentia, quais eram suas fantasias de "rejeição" e se de fato o moço era assim tão interessante, chegamos à conclusão que estava sendo perseguida pela síndrome da princesa, a mulher que para ser "a escolhida do baile" tem que ser bonita, generosa, prendada e casta.

Menos incomodada estava com o fato de não dar continuidade na relação com aquele homem, que na verdade ela já identificara como alguém com quem não tinha conexão. Temia mesmo não ser mais desejada por ele, e fez uma associação inconsciente entre coisas que se encaixam. Ela já tinha sentido que não, desde que ele não enfiara a língua na sua boca. Agora projetava o espaço vazio na vagina larga, que certamente não tinha. Ou seja, fez recair na mulher, novamente, a herança maligna de ser a responsável pelos mais do que naturais desencontros da vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL