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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Fazer sexo com ex atrapalha a recuperação pelo término do relacionamento?

Fenômeno pode ser explicado pela fase pós rompimento, quando algumas pessoas vivem uma transição - Mixmike/Getty Images
Fenômeno pode ser explicado pela fase pós rompimento, quando algumas pessoas vivem uma transição Imagem: Mixmike/Getty Images
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

28/12/2021 04h00

Parece haver uma ideia de que, uma vez colocado um ponto final em um relacionamento, o melhor seria evitar contato com o(a) outro(a), inclusive sexual. A sabedoria popular crê que fazer sexo com um(a) ex atrapalharia a recuperação do término, prolongando o sofrimento.

Os dados de pesquisa disponíveis revelam que fazer sexo com ex não é incomum. Alguns estudos mostram que de 22% a 27% das pessoas fazem sexo com seus(suas) ex-namorados(as) ou ex-cônjuges. Quando a faixa etária é menor, os resultados quase duplicam: aproximadamente 40% dos alunos do ensino médio sexualmente ativos nos EUA relataram envolvimento em atividade sexual com um(a) ex-parceiro(a) no último ano.

O fenômeno pode ser explicado pela fase pós rompimento, quando algumas pessoas vivem uma transição. Algumas, sem condições emocionais, habilidade ou vontade de se lançarem em outras relações, fazem do sexo com o(a) ex uma maneira de encontrar satisfação sem ter que manter o compromisso. Também, é possível que o desejo sexual pelo(as) ex-parceiro(a) apareça mais forte, devido aos níveis de incerteza relacional e acesso sexual reduzido.

Há motivos para temer que o casal adentre um campo minado, quando a atividade sexual mantém proximidade e apego emocional —principalmente se o rompimento não for bem-aceito por uma das pessoas. Também acontece de esse sexo ser uma maneira de evitar que alguém saia buscando outras pessoas para satisfazer desejos românticos e sexuais, embora um fato não esteja diretamente ligado ao outro: perfeitamente comum que se faça sexo com o(a) ex (mas as pessoas gostam de se iludir, não tem jeito).

Aliás, mesmo que racionalmente haja o desejo de separação, como o "melhor a fazer", uma dualidade emocional é perfeitamente comum, pois especialmente no caso de relacionamentos longos, uma separação atravessa em cheio o sentimento de pertencimento: pode não ser fácil reinvestir em novas relações de amizade, afastar-se de familiares, ter que morar em uma outra casa, reorganizar rotinas. Nesse sentido, fazer sexo com o(a) ex pode ser uma maneira de satisfazer as necessidades de pertencimento.

Uma pesquisa longitudinal rastreou indivíduos em relacionamentos ao longo de seis meses e descobriu que declínios na qualidade do relacionamento com a parceria atual promove aumento do apego emocional a um ex-parceiro, sugerindo que podemos tentar reforçar necessidades insatisfeitas de pertencer ao retornar às conexões com os(as) ex.

Considerando essas linhas teóricas, uma pesquisa canadense publicada em 2018 no Archives Sexual Behavior acompanhou pessoas por dois meses, após cerca de uma semana de término de relacionamento, com o intuito de avaliar se fazer sexo com o ex atrapalharia a recuperação do término. Usaram ferramentas de avaliação de apego emocional com uma métrica de validade facial de amor e saudade; sofrimento emocional específico do término; emoções gerais positivas e negativas, associadas ao bem-estar; resiliência e satisfação com a vida e pensamentos intrusivos e ruminação sobre a separação.

Embora buscar sexo com um ex tenha sido correlacionado positivamente com apego emocional, não foi associado a outras variáveis de recuperação de separação, como aflição, pensamentos intrusivos e afeto negativo. Além disso, fazer sexo com (o)a ex foi associada a maior positividade (bem-estar) ao longo dos dias.

Portanto, talvez a associação entre buscar sexo com um(a) ex e a recuperação do término seja exclusivo para sentimentos de amor e anseio para algumas pessoas, e não ajustamento emocional e psicológico em geral. O estudo mostrou que, no geral, o sexo nesses casos funciona de maneira mais positiva do que negativa para a recuperação pós separação.

Algumas pessoas podem ter vivências diferentes sobre esse assunto, especialmente quando há muito ressentimento e negação do rompimento, mas parece que se relacionar com ex é uma forma de visitar referências anteriores, buscar pertencimento e acolhimento para que se apaziguem as ansiedades nem sempre fáceis da nova jornada.

E claro, matar a saudade. Para alguns, inclusive, reforça-se a ideia de que a relação não tem mais sentido algum.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL