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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Aos 41, ela é casada e continua virgem: amor nem sempre dá conta de tudo

Somente ela poderá guiar o marido na compreensão da sua sexualidade, diz colunista - iStock
Somente ela poderá guiar o marido na compreensão da sua sexualidade, diz colunista Imagem: iStock
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

11/01/2022 04h00

Marcelo, 43 anos, é recém-casado com Joana, 41. Ele me conta que a esposa tinha o sonho do casamento e que ele empenhou todos os esforços para realizar a festa que ela tanto queria. O problema é que, mesmo após a formalização da relação, Joana continua virgem, evitando o sexo com ele a todo custo. Uma hora está cansada, em outra com dor de cabeça e ele, aturdido, chora de raiva se perguntando o que fez de "errado" e se casou com a mulher "errada".

Falta de sexo já foi motivo para anulação do matrimônio. Ainda hoje pode ser uma justificativa bastante importante, mas não porque seja uma obrigação feminina em satisfazer os desejos do marido, como se o casamento fosse esse lugar com espaços delimitados e papéis rígidos, só com obrigações e deveres de ambos os lados. Eu digo a Marcelo que é necessário abrir caminho para entender o desejo e a expressão da sexualidade de Joana.

Joana pode não gostar de sexo, afinal nem todas as pessoas encontram prazer na relação sexual. Para as pessoas assexuais, por exemplo, transar com alguém pode não fazer muito sentido e, como elas mesmas gostam de brincar, um bolo de chocolate é tão ou mais prazeroso que sexo. Então, Joana pode gostar da relação afetiva que tem com Marcelo, da convivência e do que o casamento representa na vida dela, mas não se interessar pela atividade sexual.

Mas é possível também que Joana tenha medo da relação sexual. Algumas mulheres vivem uma experiência muito angustiante diante da possibilidade de serem penetradas. Essa condição é conhecida como vaginismo. O medo da penetração está associado à dor real —para aquelas que já tentaram uma relação sexual— ou prevista, para as que nem conseguem enfrentar a proximidade do encontro íntimo. Com frequência ocorre que o receio de que a experiência seja dolorosa promove contração da musculatura do assoalho pélvico o que levará a dor real.

Traumas ou abuso sexual, histórico de desconforto relacionado ao sexo são causas comuns. Além delas, mulheres com fortes traços de personalidade controladora e fóbicos podem ter mais dificuldade em se entregarem para outra pessoa, haja vista que a penetração pode ser sentida como uma "invasão" emocional. Mas muitas mulheres com vaginismo foram criadas em ambientes sexualmente repressivos, não conhecem o próprio corpo, não se autorizam a ter prazer e associam o sexo a algo sujo e pecaminoso.

Por fim, encontramos também, mulheres que têm grande dificuldade com a figura masculina, pois enxergam nos homens pessoas abusivas, agressivas e egoístas, fato normalmente associado ao histórico familiar ou de relações afetivas anteriores. A boa notícia é que o vaginismo é uma condição tratável, sendo importante fazer um bom diagnóstico com especialistas na área. Às vezes é necessária a associação de psicoterapia sexual com a fisioterapia pélvica.

Falta de conversa pode interferir na relação

O que será que excita Joana? Qual o contexto erótico que pode favorecer a sua abertura? Qual o segredo e as fantasias sobre a atividade sexual que ela carrega? Será que ela deseja mesmo Marcelo? Talvez nem ela mesma saiba responder a todas essas perguntas; ainda assim, somente ela poderá guiar o marido na compreensão da sua sexualidade.

Sugiro a Marcelo que abra seu coração, sem acusações. Que conte para ela sobre seus sentimentos, desejos e preocupações. Que diga que está triste, perdido e infeliz. Que está disposto a ouvi-la e tentar compreendê-la e, se for possível e do desejo dos dois, buscar ajuda. Esqueça a festa de casamento que proporcionou, como se isso bastasse para garantir felicidade e ajustamento conjugal, porque a entrega amorosa não pode se dar meramente no campo da troca, há muitas camadas envolvidas.

Sim, é possível viver um casamento baseado na conveniência de estar junto, mas até para chegar a essa conclusão, a verdade de cada uma precisa vir à tona sem acusações iniciais. Pergunte a Joana se ela está feliz a seu lado; muitas vezes a falta de conversa, de gentileza, de passeio e de alegria no relacionamento interfere negativamente na disposição para uma pessoa se abrir para a outra, no campo sexual. Será que Marcelo vive irritado, tenso, ensimesmado, crítico ao extremo, a ponto de contribuir para que Joana se feche ainda mais?

Embora este seja um conflito da ordem sexual, ele só será resolvido no campo do amor, ou seja, no enfrentamento da dor emocional e na escolha de investir na felicidade da outra pessoa. E essa disposição terá que vir dos dois lados. Se Joana também não estiver disposta a se abrir ao problema e acolher as aflições de Marcelo, este sim é um motivo importante para pensar na impossibilidade de seguirem juntos. O "erro" é sempre achar que o amor é um sentimento que vai dar conta de tudo, pois ele dá trabalho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL