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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vibrador, masturbação e bissexualidade: pesquisa investiga sexo na pandemia

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Imagem: iStock
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

19/10/2021 04h00

Um levantamento realizado por estudantes do curso de Publicidade e Propaganda da PUC-RS chamado "Que Vibração é essa?" investigou a busca pelo prazer em tempos de pandemia, entre mulheres cisgênero de 18 a 34 anos na capital Porto Alegre e na Grande Porto Alegre. O estudo contou com uma parte qualitativa, com entrevistas com profissionais e mulheres jovens, e uma segunda etapa quantitativa, com 591 respondentes.

O primeiro dado que eu achei interessante foi a porcentagem de mulheres nessa faixa etária que já se relacionaram com ambos os sexos (32%) — número que vem crescendo nos últimos anos. Embora não se possa condicionar experiências a uma orientação sexual definida, é fato que, enfim, a bissexualidade está saindo da invisibilidade.

Outro dado relevante foi sobre masturbação: 95% da amostra revelam já terem se masturbado, o que demonstra que as mulheres estão mais livres para a exploração do próprio corpo. A pesquisa Mosaico 2.0, realizada com mais de 3.000 pessoas em vários estados, por exemplo, registrava em 2016 que cerca de 40% de mulheres não se masturbavam, sendo que 1 em cada 5 relataram, na época, que nunca haviam experimentado a prática.

Autoconhecimento

A masturbação como prática de autopercepção para que a mulher exercite a sua autonomia nas relações sexuais tem sido encarada como fundamental na voz das próprias mulheres. Autoconhecimento e desconstrução foram palavras muito proferidas na pesquisa, reforçando esse movimento feminino em busca do prazer sexual, embora sentimentos como culpa ainda estejam presentes na vida de muitas mulheres.

O uso de vibradores, por exemplo, ainda encontra associação com a pornografia, provocando vergonha, mas certamente menos do que em décadas passadas: só cerca de 13% das entrevistadas afirmaram que não têm e não desejam adquirir um vibrador, contra 44% das que já têm e das outras 43% que pretendem comprar um.

Ainda sobre esse tema, embora tenham a percepção de que o vibrador não substitui a relação sexual (60%), as mulheres têm resistência de inseri-lo no jogo erótico com parcerias. Só 30% das respondentes já usaram durante o sexo, o que revela a dificuldade de comunicação livre de julgamentos preconcebidos sobre os sex toys.

Sabemos que muitas pessoas com vulva que enfrentam dificuldades de ter orgasmo nas relações sexuais podem se beneficiar do estímulo de um vibrador na região do clitóris, inclusive durante a penetração. No entanto, para que isso aconteça, se faz necessário ter conhecimento e tranquilidade com a manifestação da própria resposta sexual.

Ainda é comum ficarem receosas achando que os parceiros estão frustrados por elas não terem orgasmo através e exclusivamente da penetração, o que dificulta a vivência de prazer. Elas temem que apresentar um vibrador possa gerar reações negativas, como uma afronta à masculinidade.

93% das entrevistadas afirmaram que não chegar ao orgasmo é uma frustração, muito embora 77% admitiram já ter fingido gozar alguma vez, técnica que normalmente é utilizada para findar relações sexuais que estão desinteressantes e evitar questionamentos desconfortáveis.

83% concordam que as mulheres ainda colocam o prazer do parceiro em primeiro lugar, um índice que precisamos fortemente combater com educação sexual baseada na equidade de gênero.

A maioria das mulheres revelou que a pandemia afetou a sexualidade, mas os dados não são só negativos: 37% passaram a se informar mais sobre o assunto.

Embora os resultados desta amostra me pareçam muito assemelhados aos de outros estudos com jovens de grandes capitais brasileiras, devemos considerar que as respondentes preencheram questionários online, o que significa um recorte socioeconômico importante.

Aliás, quase todas as pesquisas realizadas nos últimos dois anos foram exclusivamente com essa metodologia, ou seja, os dados são muito importantes, mas restritos à realidade dos privilegiados que têm a tecnologia à sua disposição. A população mais carente está totalmente invisibilizada e não conhecemos suas vivências e necessidades.

De qualquer modo, guardados os recortes culturais das entrevistadas, os resultados me pareceram animadores, mostrando que as jovens estão trilhando um caminho de maior liberdade. As más notícias ainda se referem à interação heterossexual: 86% das respondentes disseram que já viveram situações em que a relação sexual acabou depois da ejaculação de um parceiro e 76% afirmam que os homens não se preocupam com o prazer feminino.

O resultado do levantamento é óbvio: estamos fazendo o nosso trabalho, cabe aos homens resolverem fazer a parte deles.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL