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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Maio é o mês da masturbação. Será que você consegue comemorar sem culpa?

Data foi criada em 1995 nos EUA - JulyProkopiv/iStock
Data foi criada em 1995 nos EUA Imagem: JulyProkopiv/iStock
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

11/05/2021 04h00

Desde 1995, maio é o mês da masturbação no Estados Unidos. A data foi criada em 1995 nos EUA, também para homenagear a médica Joycelyn Elders, primeira secretária de saúde negra dos EUA. Jocelyn foi demitida por Bill Clinton, em dezembro de 1994, após defender em uma conferência de combate à Aids da ONU, a inclusão da masturbação na educação sexual nas escolas. Para rebater o conservadorismo de (logo ele!) Clinton, a sexóloga Carol Queen organizou o evento Masturbate-A-Thon, onde foi instituída oficialmente a data.

A data não é oficial aqui no Brasil mas, como na atual conjuntura, desculpem o trocadilho da 5º serie - a masturbação é o que está à mão - melhor mesmo é aderir aos americanos e comemorar.

A masturbação é uma prática comum e universal. Vários estudos estimam que cerca de 90% dos homens e 80% das mulheres a praticarão alguma vez na vida.

Ela já era representada em esculturas e pinturas na Grécia antiga e no Egito. Mas, durante a história, quanto mais o sexo esteve ligado à reprodução e ao matrimônio, mais ela foi combatida e condenada. A palavra já carrega em si o estigma moral.

Derivada do latim Manustuprationen, junção de manus (mão) e stupration (macular) - portanto macular com as mãos - o autoerotismo foi sinônimo de perversão, atentado à moral e adoecimento. Sim, a masturbação já não tem essa conotação para a maior parte das culturas, mas se engana quem acha que os séculos de repressão não deixaram fantasmas. Outro dia, um púbere me fez a seguinte pergunta em um bilhetinho: "a má istorbação pode causar doenças?"

No século 17, blasfêmios, homossexuais e masturbadores eram elegíveis à pena de morte. Mas foi entre os séculos 18 e 19 que a campanha antimasturbação aconteceu fortemente. Foram criados dispositivos antimasturbatórios, como anéis penianos com garrinhas pontudas, para evitar uma ereção contínua nos pobres púberes e adolescentes que viviam em internatos na Europa.

No século 18, o médico Suíço Samuel Tissot escreveu um tratado sobre a masturbação, "L'Onanisme", descrevendo-a como uma prática que provocava uma série de sintomas como convulsões, cegueira, atrofias desenvolvimentais - vícios, e tantas outras enfermidades.

Hoje, a OMS indica a masturbação como fonte de prazer sexual diante da pandemia do coronavírus. Nada como um dia atrás do outro, não é mesmo? Sorte a nossa que vivemos neste século.

Durante meados do século 20, alguns pesquisadores como Kinsey e Master & Johnson contribuíram com seus estudos do comportamento sexual dos norte-americanos, revelando em números que a masturbação está presente em quase toda a vida, independente das pessoas terem parcerias e estarem satisfeitas em suas relações sexuais.

É uma atividade complementar e não necessariamente compensatória - salvo momentos especiais - como o atual pandêmico, onde ela é a única fonte segura de descarga sexual para muitos. Quando a prática realizada sozinha equilibra um desbalanço no desejo entre casais, funciona bem, mas também pode afetar os que já estavam distantes sexualmente, pois pode faltar ímpeto para buscar a parceria e fazer sexo a dois. Mas daí é mais consequência do que causa.

Já masturbação compulsiva, como um ímpeto que aparece com recorrência, provocando prejuízo na concentração, desempenho das atividades laborais, de lazer e interação familiar, inclusive provocando lesões nos genitais, pode ser sinal de sofrimento e por isso, é necessário buscar ajuda profissional. Medicamentos específicos e a psicoterapia podem ajudar.

No Brasil, segundo a pesquisa do Prosex de 2016, a diferença entre a prática masturbatória de mulheres e homens era de mais de 20%. Imagino que o crescimento nos últimos anos da indústria de cosmética íntima e sex toys indicará menor distância em estudos futuros.

Madonna chocou parte do mundo quando simulou a masturbação trajando um vestido de noiva, no vídeo Like a Virgin, em 1991 — fichinha diante do vestido decorado com vulvas da maravilhosa Gabi Amarantos, na música Xanalá, de 2020. Na Suécia, em 2015, por exemplo, fizeram uma campanha para escolher um novo nome para a prática feminina: venceu Klittra, junção de clitóris com glitter - pois achavam que os termos existentes não eram suficientemente positivos.

No entanto, ainda percebo maior estranhamento dos pais e mães quando estão diante da descoberta da estimulação genital das meninas, do que dos meninos, ao manipularem seus pênis. É um exercício diário desconstruir a ideia de que as mulheres não valorizam o prazer.

A masturbação, além de promover autoconhecimento, indispensável para a busca de satisfação sexual: quando promove orgasmo, há liberação de hormônios anti-inflamatórios e imunomoduladores que podem ajudar a fortalecer o sistema imunológico. Sem contar a ação da dopamina, que, além de provocar sensação de bem-estar, favorece o foco, ou seja, masturbação também funciona para quando você estiver com dificuldade de terminar um trabalho. Além disso, a prática frequente previne incontinência urinária feminina, pois o orgasmo fortalece a musculatura pélvica. Ou seja: só motivos para comemoração!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL