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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nudes, sexting, masturbação: a jornada de uma mulher em busca do 1º orgasmo

Às vezes, mulheres passam a juventude sem ter um orgasmo sequer, que magicamente acontece quando estão vivendo uma fase de maior maturidade e independência emocional e financeira. - fizkes/Getty Images/iStockphoto
Às vezes, mulheres passam a juventude sem ter um orgasmo sequer, que magicamente acontece quando estão vivendo uma fase de maior maturidade e independência emocional e financeira. Imagem: fizkes/Getty Images/iStockphoto
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

16/03/2021 04h00

A Luísa tem 18 anos, e emendou uma amizade colorida com Lucas, o melhor amigo dela, pouco antes da pandemia chegar. Menos de um mês depois que eles começaram a ficar, eles fizeram sexo - a primeira vez dela. Foi o início da sua jornada de autodescoberta sexual, já que, antes desse evento, ela não conhecia muito seu corpo, nunca o tinha explorado. Sua família é religiosa e sua mãe muito "certinha", como ela me disse.

Com o isolamento eles ficaram meses distantes, trocando mensagens, inclusive de cunho sexual. Nudes, sexting, um universo que Luísa desconhecia. Como tinham uma amizade muito forte desde quando se conheceram, ela sempre confiou muito nele. Acontece que ela foi se apaixonando e ele não sentia o mesmo, desabafando com ela sobre as saudades que tinha da ex-namorada.

Embora atualmente as pessoas também se iniciem sexualmente em encontros casuais, tendência que vem crescendo nos últimos anos, ainda é mais alto o índice de adolescentes e jovens que tem sua primeira vez no contexto do namoro. Racionalmente fazer sexo pode parecer simples, mas emocionalmente, homens e mulheres ainda se sentem mais seguros a ter sua primeira vez com quem tenham intimidade emocional.

Ela acabou sabendo que ele encontrou a ex-namorada e que ficou num ata e desata com ela durante alguns meses, e daí Luísa achou por bem se afastar para não sofrer. Meses depois Lucas decidiu terminar de vez com a ex, por considerar o relacionamento tóxico demais e voltou a procurá-la. Quando se encontravam acabavam fazendo sexo, por mais que ela tentasse resistir, pois Lucas não queria compromisso.

A relação foi evoluindo, os laços se estreitando e finalmente eles passaram a namorar, com direito a status no Facebook e tudo. Segundo Luísa, eles têm uma relação ótima e atualmente ele é completamente apaixonado por ela.

Mas agora quem não esquece a ex é ela. Toda a sua inexperiência diante do sexo a faz comparar-se "ela devia fazer melhor". Como conhecia a história dos dois, inclusive a sexual, o fantasma teima em rondar seus pensamentos.

Embora Lucas seja um jovem empenhado em fazer Luísa ter prazer, ela ainda não conseguiu ter um orgasmo, muito possivelmente porque ainda não se deu esse direito. "Eu sempre fico no quase".

Ter um orgasmo pode ser mais difícil quando o sexo está atravessado por questões morais, pelo anseio do desempenho, pelo medo de perder o amor do outro. Ás vezes leva tempo para uma jovem se desvencilhar do dilema entre o seu desejo e as expectativas familiares e sociais que ela internalizou sobre seu comportamento, mantendo relações sexuais regadas por boa dose de apreensão e culpa.

É interessante observar o fenômeno da construção da autonomia sexual feminina. Às vezes, mulheres passam a juventude sem ter um orgasmo sequer, que magicamente acontece quando estão vivendo uma fase de maior maturidade e independência emocional e financeira.

Isso mostra o quão urgente é falar abertamente sobre sexo e rever posições tradicionais sobre o comportamento sexual de adolescentes. Porque sim, eles fazem e farão sexo: então que incluam além da responsabilidade, o prazer sexual para revertermos essa realidade.

Eu digo para Luísa que compreendo sua insegurança, comum a idade e a todo contexto que está vivendo. Que ela tenha um pouco de paciência, pois o orgasmo chegará, mas que se dedique a se desvencilhar da culpa, se ela existir, para que ele possa acontecer mais depressa. Que ela pratique mais vezes a masturbação a fim de conhecer seu próprio corpo e que o orgasmo nada mais é do que a possibilidade de produzir prazer sozinha.

O orgasmo não pode ser entendido como um presente que deva dar a Lucas, a fim de fortalecer a masculinidade dele, ou uma prova para mostrar-se madura ou interessante. Ela está no caminho, pois me diz que "sempre fica no quase" - mas o problema é que afetivamente ela também ainda não chegou lá, pois não se vê como a escolhida do namorado, mas como o prêmio de consolação.

Deverá lutar fortemente contra a comparação com a ex-namorada do Lucas, pois é isso que a faz sentir insuficiente e temerosa, o que inviabiliza a fluidez de suas sensações e emoções.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL