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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gritos e gemidos: o incômodo de quem ouve e o prazer de quem faz

Li Martins e JP Mantovani, participantes do "Power Couple" - Reprodução / Internet
Li Martins e JP Mantovani, participantes do "Power Couple" Imagem: Reprodução / Internet
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

22/05/2021 04h00

Na edição do reality show "Power Couple", da Record, o sexo barulhento do casal Li Martins e JP Mantovani causou rebuliço e incomodou outro casal. Tem como modular o som primitivo do prazer sexual?

Gemidos e gritos, sejam de dor, prazer, susto, medo, são reações fisiológicas espontâneas associadas às emoções primitivas e também uma maneira de expressar em sons, uma descarga de tensão. Nesse sentido, é esperado que durante a relação sexual, as pessoas emitam sons. Porém, estudos com animais levantaram a hipóteses de que nem tudo é só reação espontânea. Fêmeas de babuínos, por exemplo, emitem uma série de sons copulatórios, que aparecem com maior complexidade perto da ovulação ou quando cruzam com machos que têm grande influência no grupo, ou para os ajudarem a atingir o orgasmo. Nessa última situação, fêmeas humanas são parecidas.

Em 2011, uma pesquisa publicada na revista "Archives of Sexual Behavior" com mulheres heterossexuais constatou que 66% afirmaram que gemiam para acelerar o clímax do parceiro, já que os homens associam o gemido ao orgasmo feminino. Percebendo que a mulher teve um orgasmo, o homem sente que não precisa mais segurar seu orgasmo e ficaria mais livre para gozar e relaxar. Um comportamento passível de questionamento, principalmente quando a mulher não está aproveitando de verdade a transa. Muitas vezes, quando o sexo está ruim, por inabilidade da parceria, falta de estimulação adequada, previsibilidade, ausência de química e encaixe entre o casal, ou por falta de disposição para se entregar ao sexo, gemer alto, fingindo excitação crescente, serve claramente para acabar logo com a relação. Escuto de muitas pessoas o quanto o prazer sexual da parceria é um aditivo certeiro para a excitação e, sabendo disso, o recurso é acionado por muitas mulheres. Às vezes também o fazem para agradar seus parceiros. No estudo citado, as mulheres também relataram que gemem para aliviar o tédio e o cansaço e também para elevar a autoestima, talvez uma espécie de legitimação da própria sensualidade.

Devemos lembrar também que os filmes pornográficos normalmente reforçam muito essa vocalização copulatória, em nível que, de vez em quando, beira o ridículo, induzindo as pessoas a acreditarem que a qualidade do prazer está associada com o nível do som emitido, o que não é, nem de longe, uma verdade.

As pessoas modulam suas expressões de sentimentos e emoções, por diversas razões. Tem relação com traços de personalidade; para pessoas mais tímidas ou introvertidas, por exemplo, manifestações que chamem a atenção podem acionar sentimento de vergonha. Para os extrovertidos, acostumados que estão a se comunicarem, gemer ou gritar no sexo pode ser somente algo habitual. Mas claro que há pessoas bem dramáticas e também histéricas, para quem as expressões estão sempre intensificadas, que se comportam como uma espécie de aula de crossfit ambulante. Nesses casos, uma performance sexual acalorada pode assustar a parceria. É importante reforçar também que essa modulação na expressão pode ter relação com um aprendizado social. Há culturas bem mais silenciosas, cujas famílias expressam emoções pelo olhar ou pelo comportamento corporal, nunca pela voz.

Aliás, aqui chega-se também a um ponto importante: nenhum gemido durante o sexo desregula a bússola do erotismo. Como saber se a outra pessoa está sintonizada, curtindo o sexo, se ela fica completamente muda? É uma reclamação comum das mulheres heterossexuais, que se dizem frustradas com o silêncio dos parceiros, que não emitem mais do que um grunhido no final.

Então, se os sons copulatórios são uma marca da relação sexual para boa parte das pessoas, por que os vizinhos haverão de se incomodar com a sinfonia que vem do quarto ao lado? Na minha opinião, é uma questão de contexto. Para quem gosta de sexo, ouvir gemidos e sussurros alheios pode servir como um incentivo interessante e dar uma ótima ideia. Mas, mesmo que você ame sexo e não tenha princípios morais que rechacem a expressão sexual, pode ser que se você estiver de mau humor ou com um sono há pouco iniciado, acordar com a gritaria do andar de cima pode provocar muito desconforto. De resto, reclamações dessa natureza me parecem inveja mesmo, afinal excetuando casais muitíssimo animados, a parte da relação sexual com picos de grande excitação não chegam a durar mais que 15 minutos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL