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Ana Canosa

O beijo grego e a democratização do sexo anal

O ânus reivindica seu espaço e também pode assumir o protagonismo de prazer. - PeskyMonkey/Getty Images/iStockphoto
O ânus reivindica seu espaço e também pode assumir o protagonismo de prazer. Imagem: PeskyMonkey/Getty Images/iStockphoto
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

https://universa.uol.com.br/colunas/ana-canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

01/01/2021 04h00

2020 foi o ano das lives, tantas que até nos fartamos delas. Não precisava ser cantor famoso para iniciar uma e soltar a voz. Se tem uma coisa que a internet proporciona é acesso a todo e qualquer tipo (e qualidade) de conteúdo. E sobre sexo não seria diferente. Pois na reta final do ano, já na portinha de saída de 2020, a live que bombou essa semana foi a de uma profissional do sexo ensinando a fazer beijo grego.

Beijo grego, para quem não sabe, é sinônimo do famoso cunete: beijar o ânus da parceria ou parceiro. Que a região anal é reconhecidamente cheia de terminações nervosas e que, portanto, é altamente excitável, todo mundo já sabe. Não preciso ser eu ou a professora de beijo grego para dizer isso, afinal se você tem um, já tem consciência, não é mesmo? Não é necessário curtir práticas que envolvam a porta dos fundos, para assumir que a região é sensível.

Diz-se que na Grécia Antiga os amantes costumavam estimular a região anal quando estavam fazendo sexo oral em suas parcerias, indo do ponto A ao ponto B, por isso o nome. Fazia parte do jogo erótico, sem conotações subjetivas. Mas em algum momento da nossa história a prática foi relegada a subalternidade e o "c*" foi para esse lugar marginalizado. Basta analisar todas as expressões comuns que o envolvem para perceber, na nossa cultura, desejar que o outro vá "tomar no c*", modifica uma proposição de prazer para uma de sofrimento. Mas, isso por si só não consegue criar muros resistentes nos desejos inconscientes, promovendo as contradições humanas. Sinto dizer aos fiscais do c* alheio, que rejeitar, banir, criticar, não garante o não-desejo. Basta avaliar os números: a tal aula de beijo grego teve mais de 300 mil pessoas assistindo simultaneamente.

Será que finalmente voltamos a democratizar o c*?

No livro "Pelo C*: politicas anais", os autores Javier Sáez e Sejo Carrascosa chamam a atenção para o fato de que o ânus foi atravessado culturalmente pelas normas e assimetrias baseadas no gênero. Como não tem relação com a procriação, foi alvo de retaliação e passou de região de prazer para todas as pessoas, independente de gênero, orientação ou identidade sexual, portanto, mais democrático possível, para as categorizações que garantem privilégios, reforçando as desigualdades: existe o c* de homem hétero, de homem homo, de homem bêbado, de homem negro, de mulher hétero, de mulher homo, e por aí sucessivamente. Para cada categoria uma avaliação social.

Quanto mais perto da categoria "pessoa privilegiada", mais horror ao beijo grego se tem. Há homens hétero, por exemplo, que se sentem ofendidíssimos se alguém lhes oferecer carinho na região, pois isso lhes aproximaria de uma suposta homossexualidade, que pode ser por eles entendida como a máxima da vulnerabilidade humana. Nesse sentido, nós mulheres podemos ser mais livres para recebermos a prática sem que isso fira a nossa identidade de gênero.

Aliás a referida live, tinha como objetivo ensinar o beijo grego para as mulheres a fazerem nos seus parceiros, já que a professora garante sucesso absoluto entre os homens heterossexuais. E lá estavam as mulheres em massa, assistindo para incorporarem, talvez, em suas brincadeiras sexuais, mostrando mais uma vez que em se tratando de sexo, ainda são mais livres e curiosas do que os homens.

Achei engraçado a quantidade de vídeos no Youtube feitos por rapazes comentando a tal live e reforçando no final: "mano, se você teve a sorte de não ver isso, tá ligado, vou deixar o vídeo aqui no final, porque essa mina é o terror dos c* dos homens". A típica contradição de um candidato a fiscal de C* alheio. Crítica, mas tá doido para assistir e ainda compartilha com os colegas.

Claro que muitos ainda podem afirmar que a aversão pela proximidade a região anal tem mais relação com o nojo e isso é uma verdade, mas inclusive, recomenda-se uma boa higiene na região antes de praticar. A propósito, a chuca, além de ser bem conhecida dos homens gays, os aspirantes do beijo grego deveriam aprender alguns protocolos e cair de cabeça, ou melhor, cair de c* nas sensações de um beijinho naquele lugar. Pelo menos essa merda a gente pode limpar, enquanto outras, no Brasil...

Definitivamente, o prazer erótico e sexual não está tão somente na genitália. É preciso desgenitalizar esta lógica e compreender que o corpo é erógeno e plural. Um corpo que não é dividido, não é fragmentado. O ânus reivindica seu espaço e também pode assumir o protagonismo deste prazer. Afinal, o c* é doce e tem fogo. Para quem não quiser, tudo bem, mas, cada um que cuide do seu e se permita a experiência sexual que se sentir confortável e consensual. O beijo grego não é generificado e o c*, muito menos. Aproveitem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.