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Ana Canosa

Burnout afetivo é realidade. Como lidar com a exaustão dos apps de namoro?

O uso excessivo dos apps pode gerar ansiedade generalizada, que prejudica a autoestima fazendo com que as pessoas se sintam solitárias e ao mesmo tempo, dependentes -
O uso excessivo dos apps pode gerar ansiedade generalizada, que prejudica a autoestima fazendo com que as pessoas se sintam solitárias e ao mesmo tempo, dependentes
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Ana Canosa Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Ana Cristina Canosa Gonçalves

Colunista do UOL

03/12/2020 04h00

Por que mesmo você começou a usar os aplicativos de relacionamento? Não é incomum que as pessoas percam a motivação inicial - conhecer pessoas - e passem a reproduzir comportamentos do funcionamento automático: usar vários apps ao mesmo tempo, acumular curtidas, perder o interesse em conversar e nem mais se importar com o sumiço dos outros depois de uma intensa - mas fugaz - interação.

Se você está sentindo isso, pode estar sofrendo com o Dating Burnout ou, em português, Burnout Afetivo. Burnout significa queimar-se, exaurir, chegar à exaustão. A Síndrome de Burnout foi denominada pelo psicanalista alemão Freudenberger, na década de 70 no século XX, para designar os que sofrem de estresse ocupacional.

Agora está sendo aplicada para a compreensão do fenômeno relacionado à exaustão oriunda do uso de apps de relacionamento.

As primeiras fases da Síndrome de Burnout ocupacional são descritas como uma dedicação intensificada, quando se percebe a predominância da necessidade de fazer tudo sozinho e a qualquer hora do dia, marcando o imediatismo e o descaso com as necessidades pessoais, como comer, dormir e sair com os amigos. Sabe quando o trabalho te consome? Pois é.

Com os apps parece não ser diferente. Não é incomum usuários mergulharem profundamente em busca de possíveis matches e passarem horas no celular avaliando pretendentes e medindo a sua popularidade, falando só disso e deixando outras atividades de lado, principalmente as de lazer. No começo a diversão aparece como um sopro de entusiasmo, as pessoas passam a manejar a conversa com várias pessoas ao mesmo tempo e as vão descartando à medida que os pequenos sinais de desinteresse despontam.

Claro que divergências ideológicas, políticas e de valores éticos podem ser suficientes para ter ressalvas em uma conversa com alguém, mas há carência de curiosidade pelo outro, compreensão de como aquela ideia foi construída a partir da vivência pessoal de cada um. É mais fácil e rápido partir para outra pessoa.

Uma fase subsequente é a aversão por conflitos; a pessoa percebe que algo não vai bem consigo mesma, mas não quer enfrentar o problema. Em nossa cultura trabalhar muito sugere que você está fazendo parte do mercado de consumo e que, portanto, é uma pessoa competitiva, produtiva e, quem sabe, de sucesso. Pergunte como vai um amigo, que logo responde: "Cansado, trabalhando muito", com um misto de pesar e orgulho. Ou seja, a exaustão só é percebida quando o corpo começa a dar sinais de adoecimento, já que o problema (trabalhar demais ou em lugar insalubre) não é percebido socialmente como tal.

O mesmo pode acontecer com o uso dos apps. Amigos e a familiares podem, de maneira indireta, estimular a busca urgente por uma parceria amorosa, perguntando "cadê um namorado?" e não perceberem nada de errado. Para quem está buscando loucamente um pretendente, seja para encontrar um amor, ou reforçar o ego, os sintomas negativos são sobrepostos pelos pequenos e constantes picos de adrenalina, que, boa parte das vezes, não duram mais do que uns dias de trocas de mensagens que acabam logo.

Quando a pessoa passa a reinterpretar valores que antes lhes eram caros, como as relações de conexão e prazer com os amigos, com a família, a relação com o esporte, causas sociais, espiritualidade, desenvolvimento emocional e autoconsciência e começa a medir a sua autoestima só pela popularidade nos apps, mal sinal. Reações de raiva por ser frequentemente descartado, provocam sentimentos de ironia e desprezo, para aplacar a dor de não ter sido escolhido pelo outro.

Mas o pior sintoma da Síndrome de Burnout sem dúvida é a despersonalização, quando a pessoa passa a não se reconhecer, tem alterações de humor, tem dificuldade de aceitar pequenas brincadeiras, se irrita com facilidade e parece que está perdendo o controle.

Aplicado ao Burnout Afetivo, o uso dos apps pode gerar ansiedade generalizada, que prejudica a autoestima fazendo com que as pessoas se sintam solitárias e ao mesmo tempo, dependentes. O aumento da agressividade através de atitudes hostis e destrutivas faz com que haja uma incapacidade de relaxamento por sempre manter-se em alerta.

Para que os sintomas não evoluam, sugiro andar dez casas para trás e voltar para a pergunta inicial: por que mesmo você está usando tantos apps de relacionamento? As pesquisadoras Ligia Baruch de Figueiredo e Rosane Mantilla de Souza mapearam 3 estilos de uso dos apps por mulheres. Há o estilo curioso, escolhido por muitas no início das relações, o menos investido em contato e que mais se autopreserva. A abertura vai acontecendo aos poucos, na medida em que se conhece o outro. Esse estilo pode evoluir para outros, mas as pessoas que nele se identificam, podem sofrer mais com os desencontros e os nudes fora de contexto.

Já o estilo recreativo é associado a leveza e a diversão, vivência de emoções e experiências e é o que mais se aproxima do padrão culturalmente estabelecido para os homens, o que pode apresentar dilemas de gênero. Nesse estilo, o risco é viver um erotismo pasteurizado, e ser pega pelo FOMO, o fear of missing out ou seja, o medo de que está perdendo alguma coisa, que sempre há alguém melhor.

Por último, o estilo racional é aquele que segue os pressupostos tradicionais do amor romântico e tem como objetivo encontrar alguém para formar uma família. Para essas pessoas o ghosting e a frustração de não engatar uma relação de compromisso podem provocar Burnout, intensificando a ideia de que tudo é difícil, desgastante e que a pessoa não é suficientemente boa para ninguém.

A pandemia pode ter ajudado as pessoas a rever atitudes, objetivos, projetos. Na solitude, podemos entender que a harmonia e a paz de espírito podem ser encontradas dentro de nós mesmos, e não a partir do outro. Então, comecemos esse trabalho para só depois chamar alguém para o nosso lado. Amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável.