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Ana Canosa

Eles faziam cada vez menos sexo, e o ponto era como cada um encarava o amor

Tino Tedaldi/Getty Images/Cultura RF
Imagem: Tino Tedaldi/Getty Images/Cultura RF
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

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Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

04/08/2020 04h00

Esta é uma história que eu adoro contar, pois representa um desafio comum para os casais, quando o sexo está atravessado pelo amor e vice-versa.

Nelson e Beatriz tinham 30 e poucos anos e estavam casados havia quatro anos. Ambos trabalhavam e viviam um casamento de cumplicidade e companheirismo. Tinham namorado por 2 anos antes de se casarem. Tudo ia bem, salvo o fato de Beatriz ter ficado distante sexualmente nos últimos 2 anos do relacionamento. Durante o namoro eles já faziam pouco sexo, já que moravam em estados diferentes, então era só quando se encontravam que trocavam carícias e chamegos.

Quando eu os recebi, Nelson estava muito ressentido pelas negativas dela. Ele contou que a fase da "seca" começou quando a menstruação dela passou a se estender demais, 'blindando' a Beatriz. Depois, ele ficou refém do trabalho dela, da vida estafante, dos problemas com a mãe, das brigas porque ele não fazia coisas para ela no momento em que ela pedia.

As justificativas para não transar só foram aumentando. A resposta sexual de Nelson foi acompanhando o ritmo da mulher: primeiro ele ficou aguardando pacientemente o momento em que ela estivesse disponível. Depois, vendo que ela não se animava, ele intensificou as iniciativas, como um cachorro no cio, e a cada recusa dela ele alternava entre ter acessos de raiva ou ficar dias sendo distante e frio.

Um dia, durante uma briga, ela disse que se ele fosse incapaz de ter paciência, que arranjasse uma profissional do sexo para transar. Foi a gota d'água. Para ele, que tinha a convicção que o bom sexo era aquele recheado de afeto, foi a maior ofensa que podia receber. Cada vez que fazia sexo com Beatriz, ele reafirmava seu amor por ela. Em nenhum momento havia pensado em fazer sexo com outra mulher, só para satisfazer um desejo, descarregar tensão sexual ou variar.

Então, como resposta a proposta da mulher ele deixou de tomar a iniciativa da relação. Dependendo totalmente da iniciativa de Beatriz para transarem, passaram a fazer sexo uma vez por mês. Em paralelo ele foi ficando ranzinza e aproveitava todas as oportunidades para espezinhá-la no cotidiano. Brotavam fantasias que ela tinha algum caso paralelo ou que estava com ele por acomodação. Chegou a duvidar da adequação do tamanho do seu pênis, algo que nunca havia lhe incomodado antes.

Beatriz, por sua vez, tinha chegado no ritmo que lhe apetecia. Uma vez por mês era suficiente para ela. Não que não gostasse de sexo, mas ela nunca foi super transante. Não tinha muito desejo espontâneo, a exceção foi na época que ela estava apaixonada por ele, quando viu sua libido aumentar muito. Nos dois primeiros anos de casados ela era mais entusiasmada. Depois, a vida foi se encarregado de tomar conta dela. Achava que para os homens "qualquer buraco" apetecia, frase que tinha ouvido da sua mãe, durante toda a sua adolescência.

Um dia, durante uma sessão, Nelson disse que tinha dúvidas sobre o amor de Beatriz por ele. No que ela se espantou. Como podia dizer uma blasfêmia daquela natureza? Ela, que cuidava com tanto esmero das camisas dele, fazia a mala quando ele precisava viajar, preparava o jantar. Era ela que marcava os médicos para ele, que era tão desorganizado.

"Para isso eu contrato uma empregada" - respondeu ele. Foi a sessão mais difícil, mas também a mais esclarecedora que tivemos. Beatriz amava Nelson através do "fazer coisas" para ele. Mas Nelson fazia amor fazendo sexo. Embora ele gostasse que a mulher cuidasse de suas coisas, aquilo não era o mais importante para ele. Para Beatriz, que se ressentia por ele não ser um homem tão disponível para fazer coisas, toda a insistência sexual era entendida como egoísmo masculino, e não uma oportunidade de intimidade e amor. E por isso não se motivava para engajar-se na relação.

Percebemos que os dois amavam de maneiras distintas e que, ao invés de gratidão, a maneira de expressão amorosa do outro era sentida como falta. Quando ele disse com ironia que contrataria uma empregada, deslegitimava a maneira que ela sabia expressar o amor —da mesma maneira quando ela dizia com raiva que ele buscasse uma profissional, recusava sua maior expressão afetiva.

Quando entenderam que deveriam fortalecer a ação amorosa de cada um e ir ao encontro das necessidades afetivas, retomaram a intimidade emocional e a frequência sexual se intensificou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.