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A falta de desejo por sexo pode ser uma herança familiar?

laflor/Getty Images
Imagem: laflor/Getty Images
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

https://universa.uol.com.br/colunas/ana-canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

28/07/2020 04h00

No consultório, tenho buscado compreender a falta de entusiasmo de Victor para se engajar na atividade sexual. Isso já foi uma cobrança da sua parceria, mas hoje não é mais. Ele não se sente assexual, mas também não dá muito valor a experiências sexuais. Para ele a vida tem a sua graça, mas está longe de ser um sujeito emocionado. E sexo é apenas uma atividade boa, nada demais.

Das suas memórias sobre o tema enquanto vivia com os pais e as irmãs, Victor só lembra de duas ocasiões em que o sexo esteve presente para ele naquela casa: a primeira quando encontrou uma camisinha no chão do quarto dos pais e a segunda quando o tema foi tratado em uma reunião familiar, quando ele tinha 18 anos, e os pais, 20 anos de casados. Esse segundo episódio o marcou.

A tal reunião foi agendada previamente pelo pai, para tratar de um assunto importante, com toda a família presente. A sala, só usada para receber visitas, foi o ambiente escolhido. O pai conduziu toda a trama, com floreio e contextualização: contou como ele e a mãe de Victor se conheceram, como foi o namoro e o casamento. Mas tinha algo diferente na fala do pai.

Ele fez questão de contar que a lua de mel deles foi maravilhosa, cheia de sexo, que resultou na concepção de Julia, a irmã mais velha de Victor. O pai fez uma ironia, comparando com a concepção da Ana, sua irmã do meio: "Nessa sua mãe só pegou no tranco, já não era mais a mesma", o que fez a moça encher os olhos d'água. Afinal, quem gosta de se imaginar sendo concebido sem arroubo de paixão e desejo?

Esse pai, que nunca havia falado de sexo com os filhos, resolveu passar a limpo a vida sexual do casal, de uma hora para outra, na reunião familiar, constrangendo todo mundo. Aliás, se tem um equívoco que os pais cometem em se tratando do tema "sexo" é justamente resolver ter uma "conversa séria" da noite para o dia, para falar de um assunto que envolve intimidade, sem nunca ter construído essa ponte antes.

Pode ser muito pior escancarar a vida íntima do casal para os filhos sem preliminares, nem lubrificantes. Falar de sexo em casa é necessário e importante, mas precisa ter leveza, naturalidade e conexão.

Vale ressaltar que na maioria das vezes os filhos não curtem virar confidentes das aventuras sexuais dos pais. Uma coisa é saber que eles transam, vê-los demonstrando afeto e carinho; outra coisa é ouvi-los gemendo a noite ou ter conhecimento das práticas preferidas da sua mãe. Criamos uma resistência meio 'burguesa' a esse tipo de pormenor.
Voltando ao drama de Victor: o pai continuou contando como o sexo foi diminuindo na vida do casal, até quando Vitor foi concebido e daí foi abstinência total. Ou seja, sua existência de algum modo fez cessar de vez a libido da mãe.

Segundo o que contou o pai, a mãe, que se manteve calada, não tinha mais interesse e nem valorizava mais o sexo. Ele conta que ela buscou tratamentos, psicólogos, médicos e afins, mas nada mudou no panorama erótico e o pai ficou insatisfeito com a situação.

A lembrança de Victor sobre esse momento é a de um pai transante, cheio de tesão e de uma mãe que não queria nem ouvir falar de sexo, apesar de - aparentemente - buscar solução para a questão. O sexo era bom para ela? O sexo com ele era bom para ela? Ela parou de gostar de sexo ou nunca gostou, fazia por obrigação? Ela parou de gostar de sexo ou parou de gostar de fazer sexo com o marido? Sobre isso nada foi dito. Então, veio o anúncio de que eles chegaram em uma situação irreversível em que a separação era a única solução viável. Um casal de vida "normal", sem brigas ou grandes desafetos.

Para Victor, que hoje está em uma relação com pouco sexo, doeu ver que para o pai a vida do casal foi resumida ao nascimento, desenvolvimento e a morte do sexo.

O companheirismo, o projeto familiar, a alegria da vinda dos filhos, os 20 anos juntos, ou seja, boa parte do patrimônio afetivo não havia sido incorporado na narrativa e isso o incomodou profundamente.

A questão que se impôs diante dele é que lugar o sexo ocupa em uma família e como essa herança familiar o afetou. O sexo se tornou algo pesado, trágico até. Não dá para creditar ao fim do casamento dos pais o único e mais importante fator que influencia as suas questões sexuais. Mas é fato que o prazer se tornou um tema sob controle, do qual ele mantém uma certa distância para não criar grandes expectativas.

Ele faz o caminho inverso do pai: dá total importância ao relacionamento de cumplicidade e parceria com a esposa e pouco valor ao sexo, mostrando que essa seria a melhor versão do conflito, tentando resolver, dentro de si, a distorção paterna.

Mas, ao permitir que a história familiar se faça presente e se repita, ele mesmo não se liberta das amarras familiares - reais e fantasiosas - que o impedem de desfrutar uma vida sexual mais intensa e satisfatória.