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Ana Canosa

Estudos aconselham: só faça sexo casual se tiver vontade de fazer sexo

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Imagem: Getty Images
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

https://universa.uol.com.br/colunas/ana-canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

16/07/2020 04h00

Como fazer para transar com alguém depois de algum tempo sem praticar, especialmente se você só teve um parceiro na vida? É como andar de bicicleta, diriam alguns —uma resposta que tem lá seu quê de verdade. No entanto, bicicletas não falam, não julgam, não violam, não agridem. Também não elogiam, não confortam, não afagam e não te elevam a autoestima. Então, embora pareça, a resposta fácil não alivia. E esse é o dilema vivido por uma leitora, que escreveu pedindo ajuda.

Acho essa ansiedade bem comum. Diante de cada nova parceria, há muitas crenças, medos, expectativas. Receio de julgamento. Não que os homens não passem por isso, é óbvio que sim, mas nós mulheres ainda temos que lidar com a herança maldita do dilema mulher santa x mulher puta.

Tenho uma revelação a fazer: quando eu tinha uns 17 anos, 35 anos atrás, cheguei a mentir para um novo parceiro que eu era virgem (hoje eu dou risada, mas na época provavelmente isso tenha me tirado o sono). Quando chegou a hora H, e embora eu tenha uma boa veia para o teatro, fui incapaz de fingir espanto e inabilidade para algumas práticas.

Afinal eu tinha passado os últimos 9 meses fazendo muito sexo em todos os motéis da rodovia Raposo Tavares, em São Paulo, com o namorado anterior. Então eu contei a verdade, a transa não aconteceu e o cara ficou decepcionado. Disse ele que pela mentira, não pelo fato em si. Mas tudo bem, ele não era um escroto, me entendeu e retomei a rotina da Raposo Tavares com ele, no final de semana seguinte.

No meu caso, pesava sobre mim o fato de que eu era uma jovenzinha que gostava de sexo, em uma época que a virgindade ainda era valorizada e dizia algo a respeito de sua "portadora". Mocinhas que gostam de sexo e tem variedade de parceiros é uma exigência da atualidade. E digo exigência porque a virgindade, à exceção de alguns grupos mais tradicionais, principalmente religiosos, esteve completamente fora de moda no final do século 20.

Não é incomum as pessoas me dizerem: "Eu tive uma iniciação sexual tardia, com 20 anos". Convenhamos, nem é "tão tardia" assim já que a média no Brasil é 16 anos. Mas ser virgem vai na contramão da espetacularização do sexo que vimos acontecer, nas duas últimas décadas e que pasmem, está retrocedendo em outros países. Em muitos deles a idade da iniciação sexual está aumentando. No Japão, por exemplo, metade dos jovens entre 19 e 23 anos são virgens. Talvez ser virgem volte a ser cool. Mas isso é tema para outra coluna.

Pensando no lugar da valorização de condutas e costumes para a performance de gênero, nossa leitora tem que analisar: seu incômodo está em dizer que não é mais virgem ou em dizer que está se sentindo como fosse?

Te entendo e aviso: na outra extremidade estará alguém que tem as suas próprias convicções sobre performance. Minha dica: converse antes e seja honesta.

Mas pode ser que não seja a vergonha de ser ou parecer "virginal" o que a esteja angustiando, mas sim visualizar como ter uma nova relação de intimidade corporal e emocional com uma nova pessoa. Afinal, nem todo mundo tem essa relação de desapego com o próprio erotismo, destituído da conexão emocional.

Existe um conceito bem interessante sobre sociosexualidade, a capacidade de engajamento em relações sexuais casuais. Sim, para muitas pessoas fazer sexo sem compromisso pode trazer algum prejuízo emocional, principalmente se a pessoa tem motivações não-autônomas: pressão do grupo, agradar o outro, ser aceita, ser amada, não estar consciente na hora do sexo, esperar outra coisa da parceria que não só o prazer sexual (tipo fazer sexo esperando uma relação de amor).

Os estudos aconselham: só faça sexo casual se estiver com vontade de fazer sexo, em nome do prazer. E não é fácil, para muitos, dissociar prazer de intimidade afetiva. Se a nossa leitora está menos segura, talvez valha a pena esperar por alguém que pareça uma parceria mais afetiva e compreensiva com a sua "falta de jeito". Não é preciso se colocar a prova. E, de novo, converse: "Estou sem jeito, faz tempo que não pratico".

Não se force. Quando a química bater forte, intuitivamente você saberá o que fazer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.