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Ao som de funk misógino, Bolsonaro transforma preconceito em hino de guerra

Presidente Jair Bolsonaro (PL) dança funk em lancha, no litoral de São Paulo - Reprodução/Twitter (@AragaoMosart)
Presidente Jair Bolsonaro (PL) dança funk em lancha, no litoral de São Paulo Imagem: Reprodução/Twitter (@AragaoMosart)
Lilia Moritz Schwarcz

Lilia Moritz Schwarcz

Lilia Moritz Schwarcz é antropóloga, historiadora, professora da USP e de Princeton e curadora adjunta para histórias e narrativas do Masp.

Colaboração para o UOL

27/12/2021 04h00

Dizem que a boa política é a arte de construir consensos. Esse não parece ser, porém, o projeto de Jair Bolsonaro —se é que ele tem algum. Ao contrário, o seu modelo é aquele do soberano autoritário, que prefere dividir para bem reinar.

Na segunda passada, dia 20 de dezembro, em publicação nas redes sociais, o tenente do exército e assessor especial do presidente, Mosart Aragão, tornou pública uma cena vergonhosa e vulgar em que Jair Bolsonaro aparece dançando em uma lancha, no Guarujá, cidade praiana do estado de São Paulo.

O episódio não passaria de pura ostentação cafona, já que o presidente aparece dançando animado, com a marca da Havan em um dos braços —empresa do não menos cafona e apoiador inconteste Luciano Hang—, e sua embarcação circundada por ruidosos jet skis. Péssima mensagem para os feriados pré-natalinos, num contexto em que 20 milhões de brasileiras e brasileiros passam fome e 24,5 milhões não sabem se vão comer amanhã, segundo pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.

Ao redor do Chefe do Planalto podem ser vistas pessoas brancas, com seus trajes de praia, dançando animadas ao som do funk "Proibidão Bolsonaro", composto por Tales Volpi Fernandes, o MC Reaça. A música, que segue o mesmo ritmo de "Baile de Favela", já foi utilizada no ato de filiação de Bolsonaro ao Partido Liberal.

Mas o que chama a atenção para valer, e no pior dos sentidos, é a letra preconceituosa da música entoada por todos no barco, incluindo-se no coro animado o próprio presidente, numa atitude evidente de autoexaltação.

A letra é sobretudo misógina: compara mulheres de esquerda a cadelas peludas e ofende figuras públicas como Maria do Rosário, Jandira Fegdali e Luciana Genro. O hino bolsonarista também cita, de forma jocosa, Jean Willys; ex-deputado federal e ativista da comunidade LGBTQIA+, obrigado a se exilar do país por causa da perseguição imposta pela família Bolsonaro.

Os bolsonaristas têm um problema com mulheres que não correspondem ao modelo "passivas do lar" e com a homossexualidade. No entanto, desta vez, o preconceito vira hino de guerra.

Além do mais, o funk caracteriza Michelle como Cinderela, numa alusão à brancura da primeira-dama e sua beleza, que segue os padrões ocidentais. Cinderela é também aquela que nada faz por si própria: aguarda sempre por uma fada madrinha ou a chegada de um príncipe encantado.

O texto dá conta, ainda, de dividir as mulheres brasileiras dizendo que dará "pras feministas ração na tigela", enquanto as "mina da direita são top belas". "Dar" é um verbo que simboliza a ideia de que mulheres devem "merecer" algo dos homens e, assim, "receber" o que eles "acharem" que elas têm direito, ou o que "fizeram jus" —por seu mau ou bom comportamento e por sua beleza física.

Fico me perguntando que visão o bolsonarismo guarda das mulheres? Sempre belas --seguindo padrões heteronormativos, brancos-- e do lar? A resposta, observando-se o vídeo e a letra da música é um estrondoso sim.

Basta notar a mulher que dança efusivamente ao lado de Bolsonaro: branca, loira, de cabelos lisos e com o corpo sarado, ela faz par com um desajeitado presidente que tenta o impossível para mostrar seu gingado. Evidentemente encantado com a cena, ele posa como menino da homenagem. No pacote, a música ataca a CUT, os Sem Terra e as esquerdas de um modo geral. Da sua parte, Bolsonaro é representado como o macho de plantão, saltando de paraquedas, capitão da reserva, "quente" e "fervendo".

Vale lembrar que a mesma música foi entoada num trio elétrico em ato público de apoiadores do candidato Jair Bolsonaro, em Boa Viagem, no Recife. Na insistência há, portanto, intenção. "Proibidão Bolsonaro" é puro estereótipo, dividindo a esquerda da direita, mulheres belas daquelas (ditas) feias, machos quentes e minas passivas e dependentes de protagonistas atuantes e dissidentes.

O texto, escrito por um homem, fixa a imagem que o bolsonarismo espera das mulheres: Cinderelas que aguardam felizes por seu príncipe encantado que há de chegar num corpo de capitão da reserva ou cair de paraquedas na realidade daquelas que passivamente mantem-se "deitadas eternamente em berço esplêndido".

Trinta anos de democracia nos permitiram revolucionar a visão do feminismo e do papel das mulheres nas conquistas republicanas. Nos fizeram protagonistas nessa luta por um Brasil mais justo e menos desigual. Que esse hino nos ajude a ver, com olhos bem abertos, o retrocesso que o bolsonarismo significa para os brasileiros em geral, e para as brasileiras muito especialmente. O ódio não nos fará menos, nunca mais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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