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Beakman inspirou crianças com ciência na TV; hoje, se preocupa com o futuro

Paul Zaloom marcou época com o personagem Beakman em programa que fez sucesso no Brasil e nos EUA - Divulgação
Paul Zaloom marcou época com o personagem Beakman em programa que fez sucesso no Brasil e nos EUA Imagem: Divulgação

Bruno Madrid

do UOL, em São Paulo

26/07/2019 04h00

Resumo da notícia

  • O ator Paul Zaloom fez sucesso nos anos 90 interpretando o professor Beakman na TV
  • Com leveza, programa usava a ciência para tirar dúvidas de crianças telespectadoras
  • Zaloom, que até hoje divulga a ciência pelo mundo, conversou com o UOL
  • Ele relembrou momentos de seu programa, falou sobre sua paixão pelo tema e lamentou atual situação da ciência

Você se lembra do Beakman? Para quem era criança nos anos 90, este nome pode ser bem comum e já desvendou vários "mistérios". Não conhece e não entendeu nada? Calma. O tal Beakman na verdade é Paul Zaloom, ator norte-americano que interpretava um professor de ciência no programa "Beakman's World" (O Mundo de Beakman, no Brasil).

Basicamente, o programa tirava, de forma lúdica, dúvidas variadas das crianças com procedimentos científicos e explicações divertidas. Foram 91 episódios, que no Brasil eram transmitidos pela TV Cultura - e, por um período breve, pela Record. As gravações foram encerradas no fim dos anos 90.

O UOL conversou com Zaloom, que não é cientista, mas roda países divulgando o tema até hoje - ele estará, por exemplo, no Geek City. Na entrevista, o ator falou sobre sua ligação com o tema, relembrou momentos do programa e lamentou a atual situação (e futuro) da ciência nos EUA e no Brasil.

Como foi criado o "Beakman's World"?

O personagem Beakman foi criado por Jok Church em sua revista em quadrinhos, "You can with Beakman and Jax", publicada nos Estados Unidos e no Canadá por muitos anos. A Columbia Pictures Television decidiu que essa história, em que crianças escreviam perguntas sobre ciência e Beakman respondia, faria sucesso como um programa de TV.

Quando fui contratado para fazer o próprio Beakman, os produtores deixaram claro que eu não precisaria ajudar a criar o programa ou escrever os roteiros. Mas, como gosto do assunto, decidi oferecer meu tempo para ajudar a criar os vários elementos do programa. Afinal, não se trata de ganhar dinheiro: é sobre se divertir e fazer um bom trabalho

Como era sua relação com a ciência antes do programa? E como é hoje?

Eu sempre me interessei por ciência. Quando era criança, fui a um acampamento de veraneio em Vermont que ficava ao redor de bosques e de um lago. Aprendi muito sobre a ecologia, a flora e a fauna do local. O livro Silent Spring (Primavera Silenciosa, no Brasil) havia sido lançado na época e ajudou a dar vida ao movimento ambientalista. Esse interesse nunca me deixou e sou muito grato por isso. Como um adulto e um artista, tentei continuar a cultivar minha curiosidade.

Paul Zaloom: "É preciso ter interesse em descobrir como as coisas funcionam e como os vários elementos de nossa existência interagem" - Joel Silva/Folhapress
Paul Zaloom: "É preciso ter interesse em descobrir como as coisas funcionam e como os vários elementos de nossa existência interagem"
Imagem: Joel Silva/Folhapress

Uma das maneiras pelas quais esse "cultivo" pode acontecer é por meio da observação atenta do mundo ao nosso redor. É preciso ter interesse em descobrir como as coisas funcionam e como os vários elementos de nossa existência interagem. É o que todos nós podemos fazer para dar sentido ao mundo e aproveitar nossas vidas ao máximo.

Os experimentos do programa eram testados antes de irem ao ar?

Sim, o departamento de suporte projetou como os experimentos se desdobravam na câmera: eles apresentariam o conceito ao diretor, receberiam feedback e depois testariam o experimento final.

Entre estes experimentos, qual foi o que você considera melhor?

Bem, o meu favorito foi o show em "ranho", aquela palavra grosseira que a gente dá para o muco do nariz. Crianças são fascinadas por funções corporais, então nós frequentemente usamos isso para que elas entendessem como seus corpos funcionavam.

Eu entrei em uma narina gigante coberta de muco "produzido" com efeitos especiais de Hollywood: pegajosa, verde e repugnante. Vesti um traje de proteção e explorei o nariz como um astronauta explora o espaço. Foi muito divertido, e acabei ficando com um monte daquele ranho falso entre os dedos dos pés, o que me pareceu estranho.

E o pior?

Eu realmente não consigo pensar no "pior", embora ter um leão de verdade no programa tenha sido uma experiência assustadora. O leão estava atrás de mim e eu me dirigi à câmera na minha frente enquanto, em cima dela, o treinador balançava um grande bife para captar a visão do leão de frente. Eu estava entre o leão e o bife e fiquei, para dizer o mínimo, um pouco nervoso.

Houve algum tipo de acidente durante as gravações?

Não. O leão não me comeu, o elefante não bateu em mim, o chimpanzé não mordeu meu nariz, o jacaré não atacou meu braço e o camelo não foi para cima do meu rosto.

Por que o mundo de Beakman acabou?

Nós produzimos 91 episódios, que, naquela época, era o "número mágico" para o show ser vendido para reprises. Basicamente, o estúdio não tinha mais interesse financeiro em fazer o programa. O benefício para as crianças do mundo não se encaixava na "equação".

Então não há mais espaço para esse tipo de programa?

Seria muito caro. Nos EUA, programas de TV para crianças são feitos com pouquíssimo dinheiro hoje em dia. As empresas não querem gastar dinheiro em programação infantil - a menos que haja brinquedos e outras coisas para vender. É algo muito triste e patético.

Falta de espaço na TV para programas como o de Beakman gera revolta em Zaloom: "Triste e patético" - Divulgação
Falta de espaço na TV para programas como o de Beakman gera revolta em Zaloom: "Triste e patético"
Imagem: Divulgação

Como a ciência pode inspirar as crianças hoje? Alguma coisa mudou desde tanto tempo?

Eu acho que é importante termos uma forte noção do que está acontecendo em nosso mundo. E a ciência é uma maneira crucial para entendermos o que se passa ao nosso redor e como nós, seres humanos, podemos fazer mudanças positivas.

O desafio é tornar a ciência acessível às crianças de uma forma que elas possam entender e apreciar. Um modo de fazer isso é adicionar muito humor e efeitos visuais interessantes, além de fazer experimentos que as crianças possam acompanhar ou fazer em casa.

Apesar do sucesso do programa no Brasil - e de outros atrativos do tipo anos depois - mais de 40% das despesas com ciência e tecnologia foram cortadas recentemente no país...

Uma tendência similar está infelizmente acontecendo aqui nos EUA. Recentemente, o governador do estado do Alasca propôs reduzir a apropriação para o sistema universitário estadual em 41%.

Qual é a sua opinião sobre isso?

Cortar os orçamentos de educação, seja em ciência, tecnologia, artes ou qualquer outra coisa, é como atirar no próprio pé para se livrar de uma mancha.

Quanto mais criativamente as pessoas puderem pensar sobre a ciência, mais inovações surgirão para nos ajudar a enfrentar os desafios do futuro do planeta. O Brasil e os EUA podem estar na "vanguarda da inovação", mas isso não acontecerá se os sistemas educacionais forem dizimados.

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