À la CSI: drone e covas falsas ajudam na busca de escoteiro sumido em 1985

Passados 38 anos do desaparecimento do escoteiro Marco Aurélio, que tinha 15 anos à época, a polícia retomou as buscas pelo garoto após receber novas pistas. O uso de tecnologias à la "CSI", com direito a drone, geolocalização e georradar são a esperança de que se encontre pistas ou o corpo do garoto no Pico dos Marins, em Piquete (SP).

Novas pistas motivaram o recomeço das buscas, segundo a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública). A possibilidade com que a polícia científica trabalha é que o corpo do garoto possa estar enterrado no pico. Já foram mapeados cinco possíveis locais.

A perita Karin Kawakami De Vicente do núcleo de desenvolvimento de projetos da Polícia Científica do Estado, explicou a Tilt que o trabalho no Pico dos Marins usa três tipos de sistemas:

1. Drone com radar: 'tomografia' do solo

Estes drones carregam um radar de abertura sintética, que consegue fazer uma espécie de "tomografia do solo". Os drones fazem um voo helicoidal (em forma de hélice) a uma altura de 120 metros, descendo até 80 metros.

O drone que carrega esse radar emite ondas que "adentram" na terra e permitem fazer este mapeamento. Ele consegue "enxergar" a até 50 metros de profundidade, mas para os fins de investigação - no caso a busca de ossadas - ele não vai tão fundo, dado que covas humanas costumam ficar entre 1,5m e 2m de profundidade.

Feito inicialmente para achar formigueiros e minérios, a Polícia Científica — junto à Radaz (que detém os equipamentos) — treinou um sistema de inteligência artificial para que o sistema possa achar covas e ossadas na região.

Drone operado pela Radaz; aparelho conta com radar que ajuda a detectar pontos com possíveis covas no Pico dos Marins
Drone operado pela Radaz; aparelho conta com radar que ajuda a detectar pontos com possíveis covas no Pico dos Marins Imagem: SSP

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Neste processo, chamado de aprendizado de máquina, um sistema recebe várias imagens de exemplo numa fase de treino. Na sequência, com as imagens feitas pelo drone, ele tenta checar a correspondência entre o "treino" e o que foi captado para indicar os alvos de investigação.

Isso é algo totalmente novo. Tivemos que criar oito covas falsas com ossos de animais em outro ambiente para tentar simular o que encontraríamos em uma cova com humanos e, assim, treinar o drone com o radar.Karin Kawakami De Vicente

A partir deste processo, a investigação conseguiu chegar a cinco locais para escavação.

2. Geolocalização: sem celular, outra solução

Ainda que os drones ofereçam os locais, para fins de perícia é necessário delimitar os espaços. Para isso, a Polícia Científica tem usado geolocalização.

Qualquer celular conta com GPS, porém geralmente as posições de localização são ajustadas com o acesso à internet. O problema é que no Pico dos Marins não há conexão, de acordo com Karin.

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Dessa forma, a investigação tem usado sistemas de alta precisão da Santiago & Cintra Consultoria para marcar os locais indicados pelo drone.

3. Georradar: carrinho de ondas eletromagnéticas

Homem usa georradar em grama; equipamento permite saber o que está sob o solo
Homem usa georradar em grama; equipamento permite saber o que está sob o solo Imagem: Wikimedia Commons

Com as áreas delimitadas, há ainda o uso de um georradar, da Leica.

O equipamento é uma espécie de carrinho que é passado no solo e emite ondas eletromagnéticas.

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A partir disso, ele cria um mapa 3D do que tem debaixo da terra.

Tablet mostra composição do solo no Pico dos Marins, em Piquete (interior de São Paulo), em captação obtida por meio do georradar (radar de penetração no solo)
Tablet mostra composição do solo no Pico dos Marins, em Piquete (interior de São Paulo), em captação obtida por meio do georradar (radar de penetração no solo) Imagem: SSP

Processo deve levar meses

No dia 22 de setembro, a Polícia Científica encerrou a escavação do primeiro dos cinco locais.

De acordo com a perita, eles acharam um balde e fizeram coleta de diversos materiais, que estão sob análise. O processo todo pode levar até três meses.

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Ainda não há data para as próximas escavações. O processo envolve reunir pessoas de diferentes equipes. Além das empresas que emprestam a tecnologia para encontrar covas e ossadas no Pico dos Marins, é necessária a participação dos Bombeiros, Polícia Ambiental, delegacia e prefeitura de Piquete.

Mesmo o processo de escavação é complexo, pois os peritos precisam estar todos paramentados para evitar a contaminação da região com material biológico deles próprios.

O que aconteceu

Em 8 de junho de 1985, Marco Aurélio e mais três amigos, acompanhados de um monitor, faziam uma trilha em direção ao Pico dos Marins.

Durante a expedição, um dos colegas torceu o pé e Marco Aurélio foi autorizado pelo líder para retornar para o acampamento na base do morro para procurar por ajuda.

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Depois disso, o garoto nunca mais foi visto.

Na época, polícia e bombeiros fizeram buscas por quase um mês, mas não encontraram o garoto. O caso foi dado como encerrado.

O caso voltou a ganhar vida quando o pai do garoto apresentou novas evidências no fim de 2021. Na ocasião, o pai foi informado por um morador da região que o escoteiro fora morto e enterrado na área que agora é objeto de buscas. A polícia fez buscas, mas não teve sucesso.

Só recentemente, com o uso da tecnologia, foram detectados ossos na região indicada.

O desaparecimento de Marco Aurélio motivou o podcast "Pico dos Marins: o caso do escoteiro Marco Aurélio", produzido pelo Globoplay, que ajudou a reacender o interesse no caso e as buscas.

*Com informações adicionais do Estadão Conteúdo

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