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O robô que 'vive' com pinguins na Antártida para os salvar da extinção

Pinguins interagem com robô ECHO, na Antártida. - Divulgação/Woods Hole Oceanographic Institution
Pinguins interagem com robô ECHO, na Antártida. Imagem: Divulgação/Woods Hole Oceanographic Institution

Colaboração para Tilt, em São Paulo

05/05/2022 04h00

A Baía de Atka, na Antártida, é o habitat de milhares de pinguins-imperadores que, agora, convivem com um estranho visitante: um robô autônomo de 1 metro de altura. Mas, o intruso não está no local à toa. Seu objetivo é substituir os humanos em pesquisas com os animais e conduzir outras medidas para os proteger das ameaças causadas pelas mudanças climáticas.

O projeto é uma iniciativa do Woods Hole Oceanographic Institution, baseado em Massachussets (EUA), dedicado a estudos da vida marinha. Batizado de ECHO, o robô foi colocado em uma colônia de pinguins para se mover silenciosamente entre eles, sem assustá-los ou afetá-los em seus comportamentos, e armazenar o máximo de informações sobre eles.

Ele funciona como um veículo terrestre não tripulado e controlado remotamente pelos cientistas. O recurso conta com uma antena móvel que transmite dados a um observatório distante que monitora cerca de 300 pinguins a cada ano.

O esforço dos pesquisadores busca encontrar meios de evitar uma possível extinção dos pinguins no Polo Sul do planeta. De acordo com um estudo publicado em 2021 pela Global Change Biology, 98% da população de pinguins-imperadores poderá desaparecer até 2100, se as emissões de gases de efeito estufa continuarem a aumentar nos níveis atuais, levando ao aquecimento das temperaturas e ao derretimento do gelo marinho da Antártida.

"Os pinguins-imperadores vivem em um equilíbrio delicado com seu ambiente. Se houver muito pouco gelo marinho, os filhotes podem se afogar quando o gelo se romper mais cedo. Mas, se houver muito gelo marinho, as viagens de forrageamento [busca e a exploração de recursos alimentares] se tornam muito longas e mais árduas, e os filhotes podem morrer de fome", apontou a autora do estudo Stephanie Jenouvrier, ecologista de aves marinhas e cientista associada a Woods Hole Oceanographic Institution, em um comunicado.

Os pinguins-imperadores também servem como espécies sentinelas, pois seus comportamentos e organizações ajudam a revelar se algo está errado em seu ecossistema, especialmente se o problema está ligado à crise climática. Como a Antártida não é o lugar mais fácil para os cientistas acessarem, o robô ECHO pode realizar suas expedições no local sem afetar negativamente as colônias.

Estratégia

Robô ECHO em suas expedições pela Antártida.  - Divulgação/Woods Hole Oceanographic Institution - Divulgação/Woods Hole Oceanographic Institution
Robô ECHO em suas expedições pela Antártida.
Imagem: Divulgação/Woods Hole Oceanographic Institution

Os cientistas marcam 300 filhotes de pinguim por ano com um sistema semelhante ao de como cães e gatos são microchipados. O propósito deles é analisar o estado de saúde dos pequenos através de uma fiscalização de longo prazo. Com tiras de fitas simples e inofensivas, os pesquisadores prendem os sensores nas pernas dos filhotes, enquanto os pais estão ausentes para caçar.

O uso integrado desses recursos e de outros sistemas de identificação por radiofrequência, contribuem para o monitoramento remoto dos pinguins. Mas os sensores usados nos filhotes só podem ser lidos a cerca de um metro ou dois de distância. Então, o robô ECHO entra em cena e funciona como uma estação receptora sem fio, recuperando automaticamente os dados dos sensores dos pinguins.

Essas informações são encaminhadas ao Observatório Único de Observação e Rastreamento de Pinguins (SPOT, na sigla em inglês), localizado próximo da colônia. Com essa estratégia, os especialistas podem obter dados mais precisos dos pinguins marcados dentro de uma população de 20 mil deles, sem depender do observatório.

Com esses materiais, é possível estudar a maneira como os pinguins se adaptam ao ambiente que sofre mudanças graduais devido às mudanças climáticas. Os sensores também ajudam a localizá-los quando se aventuram em busca de alimento e mergulham no gelo dos oceanos, além de prever suas táticas de forrageamento.

Para Dan Zitterbart, cientista da Woods Hole Oceanographic Institution, o projeto auxilia nas medidas de proteção das faunas ameaçadas pelo derretimento do gelo e evitar sua extinção. E garantir a sobrevivência dos pinguins é uma tarefa que pode trazer impactos positivos ao futuro do ecossistema.

"A biodiversidade no Oceano Antártico é tão pequena, em comparação com as regiões mais temperadas do mundo, que perder qualquer espécie é devastador", explicou Zitterbart. "A evolução dos pinguins será capaz de preencher todos os nichos do planeta e, finalmente, criar animais capazes de sobreviver nesta área".