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Para salvar animais, cientistas capturam DNA de mamíferos pelo ar

DNA de animais capturados pelo ar foram analisados -  Scott Gries/Equipa
DNA de animais capturados pelo ar foram analisados Imagem: Scott Gries/Equipa

Abinoan Santiago

Colaboração para o UOL, em Florianópolis

12/01/2022 04h00

Pesquisadores nos zoológicos de Cambridge, na Inglaterra, e Copenhague, na Dinamarca, descobriram que dá para capturar o DNA — o material responsável por armazenar e transmitir informações genéticas — de animais mamíferos pelo ar.

Com uso de filtros dentro e ao redor dos dois zoológicos, conseguiram identificar fragmentos microscópicos de materiais genéticos flutuando na brisa, o que tornou possível catalogar criaturas pelo sequenciamento do material coletado.

A descoberta foi publicada em 6 de janeiro, em dois estudos, na revista científica Currenty Biology.

A conclusão da pesquisa é inédita para a biologia animal: até então, apenas materiais genéticos de peixes em rios e oceanos foram capturados com esta técnica, que usa filtros em determinados lugares por entre 30 minutos a 30 horas.

As análises das amostras mapearam pelo menos 49 espécies de vertebrados no zoológico de Copenhague — sendo 30 mamíferos, 13 aves, quatro peixes, um anfíbio e uma de réptil. Já em Cambridge, o experimento resultou em 25 espécies, incluindo 17 mamíferos.

De acordo com Elizabeth Clare, pesquisadora que participou do estudo na Inglaterra, funciona como uma espécie de filtro de café.

"Você tem o ar passando, e qualquer partícula deve ser capturada, da mesma forma que o pó do café é capturado, mas a água corre", explicou ela ao site Wired. "O que estamos tentando fazer é capturar DNA ou células ou fragmentos microscópicos de tecido que estão no ar neste filtro. Então, podemos voltar para um laboratório esterilizado, abrir o tubo, retirar este filtro minúsculo e extrair o DNA diretamente dele."

O que os cientistas conseguiram capturar é chamado de "eDNA", ou "DNA ambiental", que são partículas genéticas encontradas no meio ambiente.

Elas se originam de materiais celulares eliminados pelos organismos por meio de pele, excrementos, transpiração, saliva e outras secreções.

A coleta deste material pode facilitar o rastreamento da fauna nativa, especialmente em grandes ecossistemas. Biólogos que se dedicam à investigação da vida de mamíferos têm como um dos principais obstáculos encontrar a principal maneira para rastrear os animais na vida selvagem, visto que certas espécies costumam se deslocar por quilômetros.

Existem técnicas de "armadilhas fotográficas", catalogação de trilhas e até mesmo coleta de fezes encontradas em caminhos deixados pelos animais, porém, a captura das partículas genéticas parece ser o principal mecanismo para o mapeamento com exatidão, conforme mostraram os resultados dos estudos.

A partir da coleta de DNA ambiental, o processo também se torna mais ágil, econômico e padronizado. Além disso, é possível catalogar espécies difíceis de detectar em determinado ambiente.

Outro fator do uso da técnica do eDNA é o diagnóstico precoce de espécies invasoras ou pragas que podem representar algum tipo de perigo às nativas do habitat estudado a fim de evitar a sua extinção.

Kristine Bohmann, pesquisadora do estudo no zoológico de Copenhague, considerou os resultados da técnica "muito emocionante", mas pondera que os estudos ainda estão no início.

Ela afirma ainda que um dos principais desafios agora "é descobrir como levar esse método para a natureza e como adaptá-lo aos diferentes tipos de habitats e ecossistemas". Isso porque o clima no lugar onde o filtro está exposto é um fator importante para o sucesso das análises.