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E se quiserem seu DNA para descobrir um assassino? Isso já está rolando

DCStudio/ Freepik
Imagem: DCStudio/ Freepik

Bruna Totaro

Colaboração para Tilt, em São Paulo

27/12/2021 04h04Atualizada em 28/12/2021 11h39

Casos de crimes arquivados pela polícia durante décadas estão sendo desvendados com a ajuda da ciência. Testes de DNA que qualquer pessoa pode fazer para descobrir sua árvore genealógica têm sido usados em investigações para prender assassinos nos Estados Unidos, destaca uma reportagem recente da revista norte-americana New Yorker.

O DNA é o nosso dado mais sensível, pois, entre outros aspectos, é capaz de nos identificar profundamente. Ninguém tem o mesmo código genético que outra pessoa. Sendo assim, existe um limite ético para o uso dessas informações?

Bom, é algo que nem mesmo a ciência ainda entrou em um consenso.

DNA para desvendar crimes

O assassinato de um casal em 1987, que ficou durante 30 anos em investigação sem qualquer pista conclusiva sobre os suspeitos do crime, teve um novo desdobramento após um teste de DNA caseiro ter ajudado a condenar o assassino.

Antes disso, nada chegou perto de solucionar o caso, nem mesmo amostras de sangue, saliva, sêmen e urina. Foi somente em 2018 que um detetive solicitou que uma empresa passasse o perfil de DNA do assassino para uma das genealogistas genéticas mais conhecidas do mundo, a CeCe Moore.

Bastaram três dias para que ela descobrisse um nome, e com algumas investigações a mais, o assassino. Ele foi condenado à prisão perpétua.

Dados cruzados: como funciona

Genealogistas são profissionais que analisam a genética humana para descobrir as ancestralidades de uma família. Ou seja, para construir árvores genealógicas completas. Durante anos, esses profissionais usaram bancos de dados privados de DNA como um apoio para comparar informações genéticas entre as pessoas e mapear redes familiares.

O segredo das investigações está no cruzamento de dados presentes nos bancos de informações da polícia e das empresas de análise genética. Isso faz com que qualquer pessoa possa se tornar uma espécie de testemunha genética, servindo como base para rastrear outras pessoas.

A chamada genealogia forense começou a se destacar quando observou-se que essas mesmas ferramentas poderiam ser usadas para encontrar assassinos a partir de DNAs coletados nas cenas de crime —como aconteceu nesse caso de 1987.

A polícia já trabalhava com banco de dados que permite a comparação de DNAs coletados em cenas de crime, mas esse tipo de abordagem funciona somente quando a amostra confere com o cadastro de um criminoso já identificado ou condenado.

A situação muda quando as autoridades decidem combinar o uso de DNA com informações de sites que desenham árvores genealógicas. São portais como o MeuDNA e Genera, no Brasil, que permitem que pessoas comuns façam testes para descobrir suas origens.

Foi essa a técnica usada no caso do Golden State Killer, encerrado em 2018. Na época, as autoridades usaram dados da empresa GEDmatch para encontrar e condenar o o assassino em série.

Foi o mesmo site que a genealogista Moore usou para ajudar a desvendar diversos outros casos arquivados pela polícia. Em um mês, ela solucionou o assassinato de Terri Lynn Hollis, de 11 anos, na Califórnia (1972); de uma criança de 12 anos, em Washington (1986); de uma menina de 8 anos, em Indiana (1988); e de uma professora estuprada e morta em sua própria casa, na Pensilvânia (1992).

A moda dos testes de DNA caseiros

Aqui vale uma breve explicação: quando falamos em DNA autossômico, é aquele que abrange 22 dos nossos 23 pares de cromossomos, codificados com informações sobre ancestralidade, suscetibilidade a doenças e nossos traços, como estrutura óssea, cor dos olhos e cor da pele.

Já o DNA cromossômico Y, também chamado de Y-DNA, é o que determina nosso par de cromossomo restante (XX ou XY), que diz se o nosso sexo biológico é feminino ou masculino.

Foi na virada do milênio que genealogistas começaram a se interessar pela genética, quando foi possível analisar pedaços de informação do Y-DNA em escala comercial. Os pesquisadores poderiam usá-lo, por exemplo, para estabelecer a linhagem de um homem com uma identidade desconhecida.

Com o tempo, uma empresa chamada FamilyTreeDNA começou a vender testes de Y-DNA por correio para os consumidores, a fim de construir um banco de dados que desse pistas para desvendar mistérios genealógicos.

Já em 2009, outra empresa, a 23andMe, desenvolveu uma tecnologia para os usuários acessarem seu DNA autossômico para esse mesmo fim, rastreando pequenas mutações genéticas.

Essas mutações, conhecidas como SNPs, combinam-se em padrões únicos que são passados de uma geração para outra: uma criança compartilhará 50% deles com cada pai, cerca de um quarto com cada avô, 12,5% com cada bisavô etc. É aí que estavam as informações que fariam os genealogistas notarem o poder da exploração genética.

As técnicas foram evoluindo, e foi a GEDmatch que começou a permitir as comparações de DNAs autossômicos.

A intenção inicial era oferecer suporte a softwares que comparassem árvores genealógicas a partir de resultados mais detalhados. Mas, sendo uma plataforma 100% gratuita e aberta ao público, o site se popularizou e começou a ser usado em casos de polícia.

Logo o assunto virou uma polêmica mundial, com histórias como a do detetive que acessou o banco de DNA caseiro para encontrar um estuprador em série.

À New Yorker, Moore demonstrou o uso da plataforma ao comparar o seu perfil ao de uma de suas irmãs. Na prática, a tela se enche de faixas horizontais, cada uma representando um dos 22 pares cromossômicos, e listras verticais —verdes, amarelas e vermelhas— que correm como um código de barras.

Enquanto as listras vermelhas indicam segmentos onde os dois irmãos não compartilham DNA, as amarelas dizem onde compartilham DNA de um dos pais e verdes onde herdaram DNA idêntico dos dois.

Ao percorrer por simples cores na tela, Moore é capaz de identificar a sua irmã —assim como toda uma árvore genealógica.

Isso pode ser negativo?

Encorajar as pessoas a fazerem testes de DNA para depois compartilhar esses dados com a polícia pode levantar questões éticas. A possível falta de consentimento e os riscos de buscas policiais serem conduzidas sem supervisão judicial são alguns dos principais pontos de alerta.

Digamos que você use um site como esse por curiosidade, mas não necessariamente quer que a polícia vasculhe sua árvore genealógica. A polêmica é exatamente sobre isso: as pessoas que entregavam seus dados genéticos a empresas privadas ou a GEDmatch não consentiram o uso de suas informações pela polícia.

Após as polêmicas, a GEDmatch mudou seus termos de uso para que os usuários pudessem optar pela permissão dessas pesquisas. Também passaram a permitir as análises somente para crimes violentos, como homicídio ou agressão sexual.

Existe ainda outra reflexão: mesmo que você dê consentimento, isso também significa dar consentimento para 50% do DNA de sua mãe e 50% de seu pai. Ou seja, não é só sobre você.

Bem social ou invasão de privacidade?

De um lado, temos a genealogia genética sendo melhorada para identificar assassinos à solta, solucionar casos arquivados pela polícia e garantir alívio a famílias que esperam por respostas e justiça durante décadas.

De outro, vemos a mesma técnica sendo usada para policiamento sem muitas regras, sem acompanhamento judicial, fora os riscos de vazamento de dados ultrassensíveis como o nosso DNA.

Em 2018, outro site especializado em construção de árvores genealógicas, o MyHeritage, revelou que dados de mais de 3 milhões de brasileiros haviam vazado.

Em 2019, o Departamento de Justiça dos EUA determinou novas diretrizes para o uso da genealogia genética, podendo ser usada apenas para crimes violentos ou casos que representassem uma clara ameaça à segurança pública ou nacional.

Os agentes federais foram instruídos ainda a não usar DNA de consumidores secretamente e não enganar parentes de suspeitos para que fornecessem amostras de DNA. Além disso, a técnica tem que ser tratada como uma pista e não como única base para uma prisão.

No início de 2021, um novo projeto com diretrizes mais severas virou lei nos EUA. A discussão é que o envolvimento de empresas privadas nesse tipo de vigilância sem supervisão do governo seria loucura, principalmente considerando que as empresas podem ter poucos limites legais ao considerar monetizar as informações que têm em mãos.

Genealogistas como CeCe Moore são contra a ampliação de regras, caso isso signifique deixar criminosos impunes. De toda forma, quase meio milhão de usuários da GEDmatch já permitem que a polícia use seus dados de DNA.

O número de testes realizados na plataforma aumentou de 200 mil em 2014 para 20 milhões em 2018.

Além disso, os pesquisadores calculam que 60% de todos os norte-americanos com antepassados europeus podem ser identificados a partir de seu DNA. Eles especulam que, em pouco tempo, o número se aproximará de 100%.

Errata: o texto foi atualizado
Diferente do informado, o caso de estupro posteriormente resolvido com um exame de DNA foi em 1992, e não em 1922.