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Como curtidas e interações em redes sociais contribuem para revolta online

Getty Images
Imagem: Getty Images

Gisele Rodrigues

Colaboração para Tilt

27/09/2021 04h00

A frase "vou xingar muito no Twitter" viralizou lá em 2010, mas ela resume bem um comportamento humano nas redes sociais. Não é preciso muito para publicações online que abordem discussões política, por exemplo, atraírem engajamento de internautas.

Psicólogos já observaram que os comentários na internet envolvem uma espécie de descarrego de ódio. E uma pesquisa recente, realizada por cientistas da Universidade de Yale, destaca que quanto mais os internautas recebem curtidas e compartilhamentos em postagens com suas expressões de indignação moral, mais eles se sentem recompensados. Logo, continuam fazendo.

A plataforma analisada foi o Twitter. O estudo reuniu dados de 7.331 internautas e cerca de 12,7 milhões de tuítes. Os resultados da pesquisa foram publicados no mês passado na revista Science Advances.

O que o estudo diz

Segundo os pesquisadores, plataformas de mídia social como o Twitter amplificam essa sensação de revolta moral diante da resposta dos likes e retuítes. Essa dinâmica mostra que o formato com que as redes sociais funcionam "treina" as pessoas para que elas continuem indignadas no mundo virtual e extravasem isso na internet.

"Os incentivos da mídia social estão mudando o tom de nossas conversas políticas online", disse William Brady, pesquisador de pós-doutorado no departamento de psicologia de Yale e primeiro autor do estudo, segundo publicação feita no site da universidade.

"Esta é a primeira evidência de que algumas pessoas aprendem a expressar mais indignação com o tempo porque são recompensadas pelo design básico da mídia social", disse Brady, que liderou o estudo com com Molly Crockett, professora associada de psicologia em Yale.

Por um lado, os pesquisadores afirmam que esse tipo de relação pode ter impactos positivos, já que pode ser usado para motivar punições por violação moral, além de ajudar a estimular movimentos e mudanças sociais.

Por outro, pode contribuir de formas negativas como assédios a uma minoria, além de divulgar informações falsas. Indignação moral de internautas mais radicais tem sido associada também a polarização política e disseminação de desinformação.

Como a pesquisa foi feita

Durante a análise, pesquisadores mediram as publicações dos internautas durante situações polêmicas da vida real. A partir disso, associou as expressões de indignação com o comportamento dos algoritmos da rede social.

Fazer esse processo é desafiador tecnicamente, porque medir comportamentos humanos na internet é complexo. Para conseguir isso, os cientistas utilizaram software de aprendizado de máquina (com inteligência artificial) capaz de rastrear a indignação moral nas postagens do Twitter.

Com o sistema analisando e fornecendo dados de mais de 12 milhões de tuítes, os pesquisadores puderam observar se os internautas expressaram mais indignação ao longo do tempo e, em caso afirmativo, o por quê, explicou a publicação feita pela Universidade de Yale.

Os tuítes analisados no estudo precisavam atender a três critérios, de acordo com o site Science Alert:

  • ser uma resposta a uma violação percebida de moral pessoal;
  • mostrar sentimentos como raiva, nojo ou desprezo;
  • incluir algum tipo de culpa ou apelo à responsabilização.

Alguns dos temas usados para avaliar a revolta das pessoas envolveram a proibição por parte do governo de Donald Trump de transgêneros servirem às Forças Armadas dos Estados Unidos e a acusação de assédio sexual e comportamento abusivo de um juiz indicado pelo até então presidente do país à Suprema Corte.

O resultado foi que o modo de funcionar das plataformas de mídia social, que oferecem curtidas, comentários e possibilidade de compartilhamento, acaba encorajando pessoas a continuarem se expressando na internet com suas postagens.

Ou seja, ter pessoas concordando com você funciona como uma validação para que você continue fazendo. Outra parte da pesquisa envolveu ouvir 240 participantes, que corroboraram com essas descobertas.

"Descobrimos que pessoas com amigos e seguidores politicamente moderados são mais sensíveis ao feedback social, e isso reforça suas expressões de indignação", disse a professora Crockett. "As recompensas da mídia social criam ciclos de feedback positivo que exacerbam a indignação."

Membros de redes extremistas politicamente acabam fazendo mais publicações de indignação, mas, de acordo com o estudo, eles foram menos impactados pelo efeito da recompensa social (com curtidas e retuítes)

Ainda segundo ela, os resultados também sugerem uma preocupação com os debates atuais sobre o papel das mídias sociais na política, e que esse comportamento nas redes acaba criando retornos positivos aos usuários, e exacerbando ainda mais a indignação na internet.

A pesquisa não teve como resultado levantar diálogos sobre a indignação ser boa ou ruim para a sociedade, mas essas descobertas podem ter impactos também para lideranças políticas e formadores de opinião que consideram de alguma forma querer regulamentá-las, assim como debates sobre o papel das mídias sociais na política.

"Nossos dados mostram que as plataformas de mídia social não refletem apenas o que está acontecendo na sociedade. As plataformas criam incentivos que mudam a forma como os usuários reagem a eventos políticos ao longo do tempo", concluiu Crockett.