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Como a ciência explica o caso do 'Papai Smurf', o homem que ficou azul

Nicole D'Almeida

Colaboração para Tilt, em São Paulo

18/09/2021 04h00

Humanos são capazes de mudar a cor da própria pele? Um caso nos Estados Unidos se tornou popular há alguns anos exatamente por isso. O norte-americano Paul Karason ficou mundialmente famoso por causa de sua pele azul escura.

A história foi tão surpreendente que ele chegou até a participar do programa de TV "The Oprah Winfrey Show", em 2008, um dos mais renomados dos EUA (o vídeo no YouTube com a entrevista já ultrapassou 5 milhões de visualizações). Mas por que ele ficou azul?

A história do "Papai Smurf", como Karason ficou conhecido, teve início em 1994. Certo dia, ele se deparou com um anúncio numa revista de um gerador de prata coloidal — uma substância pode se acumular no organismo, envenenando a pessoa e alterando a tonalidade da pele permanentemente.

Na época, ele ouviu que líquido era útil para tratar envenenamento com substâncias do petróleo. Para tentar ajudar um amigo, que trabalhava em uma oficina mecânica, o norte-americano decidiu experimentá-lo. Os dois prepararam um copo de 300 ml com a prata coloidal e tomaram o líquido por alguns dias seguidos.

Após o 3º dia do "experimento", o refluxo gastroesofágico que Karason tinha havia desaparecido. Com o aparente bom resultado, o norte-americano resolveu ir além.

Ele começou a passar a prata coloidal em ferimentos na pele. Começou por arranhões de gato, até que usou a substância em um caso intenso de dermatite (inflamação na pele). Sua pele então começou gradualmente a ficar azul. Durante dois, três meses, as pessoas nem perceberam a diferença.

A mudança de cor só foi notada quando um amigo foi visitá-lo e surpreendeu-se com seu rosto: Karason havia passado de um homem de pele clara, sardento e cabelo loiro avermelhado para uma pessoa de pele azul.

O que a ciência diz sobre a mudança

A explicação científica veio em 2008. A prata em contato com a água impede que as bactérias produzam energia e o mesmo acontece com as células do corpo humano.

O que aconteceu com Paul Karason foi exatamente a mesma coisa que ocorre quando a prata é colocada em uma chapa fotográfica. Exposta ao sol ela mudará de cor, assim explicou Mehmet Oz, cirurgião cardiotorácico e professor da Universidade de Columbia na época do talk show da apresentadora Oprah.

Essa condição é chamada de argíria, uma doença rara na qual a pessoa fica com a pele azul ou cinza devido ao acúmulo de sais de prata no organismo. Geralmente é observada em áreas do corpo expostas ao sol, mas pode estar presente nos olhos e nos órgãos internos também.

Seu tratamento consiste na suspensão de medicamentos que contenham prata em sua composição, além de terapia a laser e cremes com hidroquinona (substância comum usada no clareamento de manchas). Entretanto, não há uma cura para a argíria e as ações descritas são apenas preventivas ou para evitar sua progressão.

Em uma entrevista para a revista Inside Edition em 2008, Karason contou que continuou a beber a solução de prata coloidal mesmo após a mudança de cor da sua pele. Em 2009, contou ao jornal Today, dos Estados Unidos, que tinha esperanças de que sua pele não fosse mais azul e voltasse à cor de antigamente.

O que aconteceu depois com Karason?

Em 2012, Karason havia perdido a casa e estava morando em um abrigo para sem-teto. Além disso, lutou contra o câncer de próstata, problemas cardíacos, terminou com sua noiva e ficou desempregado.

Resolveu mudar-se de Madera, na Califórnia, para sua cidade natal, Bellingham, em Washington. Reencontrou-se com Joanne Elkins, que estudou no mesmo colégio, e começaram um namoro, decidindo morar juntos.

Em setembro de 2013, com 62 anos, Paul Karason faleceu em consequência de um ataque cardíaco em um hospital de Washington.

Na época de seu falecimento, a esposa Elkins chegou a comentar que o apelido de "Papai Smurf" nem sempre foi bem aceito pelo marido. "Ele não gostava desse apelido dependendo de quem o chamasse", contou a viúva. "Se fosse uma criança, ele até sorria, mas se fosse adulto, bem..."