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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Por que o Facebook agora vê a Apple como concorrente em apps de mensagens?

Mark Zuckerberg é cofundador e chefe do Facebook - Liu Jie/Xinhua
Mark Zuckerberg é cofundador e chefe do Facebook Imagem: Liu Jie/Xinhua

Guilherme Tagiaroli

De Tilt, em São Paulo

30/01/2021 04h00

A Apple e o Facebook não deveriam competir entre si na teoria. Afinal, a primeira produz aparelhos eletrônicos (iPhone, iMac, iPad) e softwares (como o macOS e o iOS), e a segunda atua no ramo de redes sociais (WhatsApp, Instagram e Messenger) e venda de propaganda. Mas o jogo virou, e agora elas são concorrentes em pé de guerra. Pelo menos é isso que acha Mark Zuckerberg, cofundador e chefe do Facebook.

"Nós cada vez mais vemos a Apple como uma das nossas grandes concorrentes", disse Zuckerberg durante divulgação de resultados financeiros na última quarta-feira (27).

O contexto para essa afirmação é uma certa birra com o iMessage, o sistema de mensagem da Apple, que está presente em diferentes gagdets da companhia, do iPhone ao MacBook. A base do argumento é: o iPhone é o smartphone mais vendido dos EUA, e ele já vem com um app de mensagens nativo, o que reduz as chances de crescimento de outros aplicativos do gênero, como as do grupo Facebook —WhatsApp e Messenger.

É curioso, pois o argumento da rede social lembra um pouco a briga contra a Microsoft há alguns anos relacionada ao Internet Explorer. Após anos de batalhas judiciais, pelo menos na Europa, a Microsoft tinha de oferecer opções de download de navegadores no sistema Windows.

Se no Brasil o WhatsApp é megapopular, no mercado americano as coisas são um pouco diferentes graças à predominância do iPhone. Com uma divisão de mercado na casa dos 60% segundo a Statcounter, os smartphones da Apple lideram nos EUA, o que faz com que muita gente fique no próprio iMessage mesmo para conversar.

No mundo, o WhatsApp tem cerca de 2,3 bilhões de usuários; já a Apple não divulga detalhes sobre o iMessage. Só sabemos que há mais de 1,3 bilhão de aparelhos usando-o, como iPhones, computadores (com sistema macOS), tablets (com sistema iPadOS) e relógios (com sistema WatchOS).

Voltando ao chefe do Facebook, ele ainda cita o recente foco da Apple em serviços para chamá-la de concorrente desleal. "A Apple tem todo o incentivo para usar a posição dominante da plataforma deles para interferir em como nossos apps e apps de outras empresas funcionam, que é o que eles regularmente fazem", afirmou Zuckerberg durante a divulgação do resultado financeiro do Facebook. "Eles dizem que estão tomando ações para ajudar as pessoas, mas as ações da companhia claramente mostram o interesse competitivo deles."

Vale lembrar que além do ramo de mensagens, as empresas também concorrem no ramo de games. A Apple tem o Arcade, um serviço de assinatura de games móveis, enquanto o Facebook tinha planos de levar o app Gaming para o iOS para distribuir joguinhos para smartphone. A Apple recusou o aplicativo inúmeras vezes, e agora ele está disponível apenas para visualizar conteúdos de streamers.

Como se nota, o Facebook não está nada feliz com a Apple. Tanto é que uma das ações consideradas pela rede social é processar a empresa da maçã por práticas anti-competição.

Além do iMessage, outra questão incomoda o Facebook. A Apple adiou temporariamente uma funcionalidade do iOS 14 que pediria a permissão explícita das pessoas para acessar um identificador único, geralmente usado para criar o perfil de usuários para publicidade segmentada. De forma resumida, com isso ativado e com muitas pessoas se recusando a ceder as permissões, isso poderia arruinar o Facebook.

A rede social de Zuckerberg, por sua vez, argumenta que tal ação impediria negócios pequenos de enviar publicidade direcionada a seus clientes.

O ano ainda está no começo. Então, a briga deve ir esquentando com o passar do tempo. De um lado temos o poderoso Facebook, criticando a igualmente poderosa Apple e afirmando que medidas pensadas pela rival arruinariam vários de seus negócios. Do outro temos a empresa da maçã, que defende que a privacidade deva ser um direito, mas que também não abre mão de faturar alto com seus gadgets caros. Quem vai a nocaute?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL