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Guilherme Rambo

Facebook x Apple: entenda a treta de gigantes por nossos dados pessoais

MrJayW/ Pixabay
Imagem: MrJayW/ Pixabay
Guilherme Rambo

Guilherme Rambo é programador desde os 12 anos. Especialista em engenharia reversa, é conhecido mundialmente por revelar os segredos da Apple antes mesmo dos anúncios da empresa, além de programar para as plataformas da empresa.

18/12/2020 04h00

O ano está quase acabando, mas sempre há tempo para mais uma briga entre gigantes da tecnologia. Dessa vez, sobem no ringue Facebook e Apple. De um lado, a empresa conhecida por não ligar a mínima para a privacidade dos usuários, de outro, a empresa que afirma considerar privacidade um direito fundamental de todos.

A causa dessa discussão é uma mudança que a Apple anunciou junto ao lançamento do iOS 14, mas que só entrará em vigor no início do próximo ano.

O que a Apple quer mudar?

Atualmente, se um app quer coletar dados dos usuários para fins de publicidade segmentada, mesmo que para enviar a um terceiro —como Facebook— pode fazê-lo sem uma permissão explícita do usuário, basta que essa prática esteja presente na política de privacidade (aquela que ninguém lê).

Funciona mais ou menos assim: digamos que existe um app usado para gerenciar a rotina de passeios do seu cachorro. Mas acontece que esse app tem um recurso muito comum em diversos apps por aí: ele permite aos usuários fazerem login usando a conta do Facebook. O desenvolvedor do app também usa anúncios do Facebook para divulgá-lo, e o SDK do Facebook no app para poder receber estatísticas de como os anúncios estão se saindo.

Você instala esse app e cadastra informações suas e do seu pet —a raça dele, por exemplo. Você também cadastra passeios no app, incluindo em quais parques você gosta de levar seu cachorro para passear. O código do Facebook que existe dentro desse app —mesmo que você não use login com Facebook— pode receber essas informações e começar a montar um perfil seu.

Como muitos outros apps também têm esse código do Facebook rodando dentro deles, a empresa consegue montar um perfil muito completo dos seus hábitos e preferências: qual raça de cachorro você gosta, os lugares que gosta de ir, qual tipo de comida é sua favorita, etc.

Dessa forma, quando alguém vai montar uma campanha de marketing no Facebook ou Instagram, é possível fazer um direcionamento extremamente específico de quem verá aquele anúncio. Exemplo: "mostre este anúncio para pessoas que moram na região oeste da cidade de São Paulo, tem interesse em corgis, Parque Villa-Lobos e gostam de comida italiana".

Lembrando que isso acontece mesmo que você não tenha uma conta no Facebook.

Tudo isso é possível hoje em dia graças a um número chamado de IDFA, que nada mais é do que um identificador longo e único que apps podem acessar.

Esse identificador é o mesmo em todos os apps que o tentam ler e é único por dispositivo, o que na maioria dos casos quer dizer que é único por pessoa.

Em posse desse identificador, as ferramentas de analytics presentes dentro dos apps conseguem correlacionar atividades de um usuário ao longo de vários apps, permitindo então a criação desse perfil publicitário.

Tudo o que a Apple pretende fazer com uma atualização próxima do iOS é exigir que, quando um app quiser ter acesso a esse identificador, o mesmo peça permissão explícita para o usuário, da mesma forma que apps precisam da sua permissão explícita para acessar coisas como câmera e GPS. Então, após essa mudança, se um app ou ferramenta de analytics presente nele quiser acessar isso, você verá um alerta na tela pedindo sua permissão.

App pede permissão de acesso aos dados em um aparelho da Apple - Reprodução - Reprodução
App pede permissão de acesso aos dados em um aparelho da Apple
Imagem: Reprodução

Quais os argumentos do Facebook?

Não é de se admirar que uma mudança dessas tenha causado espanto na empresa do mundo que mais lucra com a montagem de perfis de usuários para venda de anúncios direcionados: o Facebook.

De acordo com a empresa —que tem feito campanha em jornais contra a medida— poucos usuários permitiriam o rastreamento deles por diferentes apps.

Aqui vale uma pausa para apreciarmos o fato de que a própria premissa do argumento já o prova moralmente questionável. Afinal, se muitos usuários negariam essa permissão, isso prova que eles se sentem desconfortáveis com o nível de coleta de dados ao qual estão sujeitos.

Prosseguindo. De acordo com o Facebook, isso prejudicaria os pequenos negócios, que utilizam sua plataforma de anúncios para chegar a potenciais clientes.

Particularmente, considero esse argumento muito mais um apelo se utilizando de uma classe muito querida por políticos — especialmente em 2020 — para tentar angariar apoio e forçar a Apple a permitir a invasão de privacidade dos seus usuários.

A verdade é que essa medida prejudica exatamente uma empresa, que não é pequena: o Facebook. Pequenas empresas sobreviveram por séculos sem precisar de direcionamento fino de anúncios para potenciais clientes, não vai ser isso que irá matar as pequenas empresas.

Fica claro aqui que o Facebook está preocupado sim é com as potenciais perdas com vendas de anúncios na sua plataforma, que se torna menos competitiva quando eles não conseguem montar perfis detalhados dos usuários como faziam antes.

O que acontece daqui para frente?

Eu acredito que a mudança imposta pela Apple nesse caso tende a ser positiva para todos os usuários e realmente negativa apenas para empresas que se beneficiam com a venda indireta de dados dos consumidores.

Acho bem provável que as reclamações do Facebook não surtam nenhum efeito prático no curto prazo e que a medida entre de fato em vigor.