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Revistas, games, vídeos: por que a Apple investe pesado em serviços?

Apresentadora Oprah Winfrey fez parte do anúncio do novo serviço de assinatura de vídeos da Apple - Reprodução
Apresentadora Oprah Winfrey fez parte do anúncio do novo serviço de assinatura de vídeos da Apple Imagem: Reprodução

Bruna Souza Cruz

Do UOL, em São Paulo

26/03/2019 04h00

Resumo da notícia

  • A Apple anunciou uma série de novos serviços de assinatura digital
  • Entre eles estão: pacotes de vídeos, jornais, revistas e games
  • Um dos motivos que levou a mudança de estratégia foi a queda na venda de iPhones

A Apple anunciou nesta segunda-feira (25) uma série de serviços de assinatura para atender dos que gostam de ler jornais (Apple News) e revistas (Apple News+), aos que curtem games (Arcade), passando pelos que querem séries e filmes (Apple TV+).

Para uma empresa que investe desde os anos 70 em fabricar dispositivos eletrônicos inovadores, a mudança de estratégia é clara. A Apple agora aposta em outros mercados e quer marcar presença no setor de entretenimento, usando a sua credibilidade para ganhar espaço.

Primeiramente, uma olhada rápida em alguns dos lançamentos:

  • Apple News e Apple News+: serviço de assinaturas de jornais e revistas que custarão US$ 9,99 por mês (ainda não há previsão para o Brasil).
  • Apple Arcade: serviço de assinatura de jogos com mais de 100 opções de games exclusivos. Podem ser acessados online ou offline e custam US$ 9,99 por mês. Ele estará disponível para o Brasil, mas ainda não há data definida.
  • Apple TV+: serviço de assinatura de vídeos (séries, filmes, documentários) exclusivos da Apple. Uma produção com Jennifer Aniston, Reese Witherspoon e Steve Carell está na lista. Ele estará disponível para o Brasil, mas ainda não há data definida.

Transformando crise em oportunidade?

Pensando no aspecto financeiro, as coisas certamente não estão como a Apple gostaria. Mesmo ainda sendo uma empresa que lucra muito (na casa dos bilhões por ano), suas ações registraram quedas significativas no ano passado. Ela chegou a perder US$ 199,5 bilhões em valor de mercado.

As vendas de produtos contabilizadas pela Apple também ficaram em baixa no último trimestre de 2018. Mesmo com os recém-lançados iPhone XR, iPhone XS e iPhone XS Max, as vendas não deslancharam e ficaram abaixo da expectativa da empresa. Por conta disso, ela precisou reajustar a previsão de receita do quarto trimestre, que caiu de R$ 89 bilhões para R$ 84 bilhões, para os investidores --o que não pegou muito bem.

A desaceleração econômica da China influenciou diretamente o baixo desempenho da Apple, segundo apontou Tim Cook, executivo-chefe da empresa. Mas não é só isso.

A ascensão de concorrentes de peso como as fabricantes chinesas Huawei e Xiaomi também pode ser considerada "culpada". Outro fator é a guerra comercial entre China e Estados Unidos, que envolve a cobrança de altas taxas de importação em produtos como ferro, alumínio e outros tipos vindos do país asiático.

Especula-se que o mercado da Apple na China possa ser prejudicado com possíveis retaliações do governo chinês.

Novos serviços digitais da Apple

AFP

Games prometem, já as notícias...

Diante de resultados ruins, a Apple decidiu mudar radicalmente a sua estratégia e ampliar a presença no mercado de serviços online. Sabe aquele conselho de economistas que diz: diversifique seus investimentos para ter mais chance de lucrar? Parece a Apple resolveu fazer a lição de casa.

Mesmo que as vendas de iPhone continuem aquém das expectativas, o fato de a empresa agora ter um verdadeiro leque de serviços de assinatura digital pode ser a garantia de que ela tenha um balanço positivo na hora de fechar as contas.

Neste ponto é bom lembrar que a Apple já trabalhava com alguns serviços digitais -- como o Apple Music, iCloud (armazenamento), Apple Maps (mapas), Apple Pay (de pagamento móvel), mas boa parte deles era voltada para quem usava os dispositivos da empresa e não para os consumidores de modo geral.

Agora, o jogo virou e a estratégia é outra. Ainda é cedo para cravar que essa ou aquela plataforma vai fazer a cabeça do público. Mas certamente ter diferentes opções aumentam bastante as chances de dar certo.

O mercado de games, por exemplo, só cresce e gera cada vez mais dinheiro. Nos Estados Unidos, videogames tiveram uma receita maior do que toda bilheteria da indústria do cinema em 2018, US$ 43,8 bilhões contra US$ 41,7 bilhões, respectivamente. No mundo todo, os games para smartphones, consoles e computadores arrecadaram US$ 134,9 bilhões no ano passado, segundo a consultoria Newzoo.

Para a Apple, os jogos ocupam 30% de todo o rendimento da Apple Store. Por isso, o lançamento do Arcade pode ter sido uma decisão estratégica interessante.

Por trás do Apple News+ está a compra do serviço de revista digital Texture em março de 2018. Na época, ele oferecia mais de 200 títulos por US$ 9,99 por mês. O valor foi mantido na nova plataforma, mas o número de revistas foi ampliado para 300.

O lançamento pode ser vantajoso para a Apple, mas ela ainda precisa lidar com o fato de que alguns produtores de conteúdo de peso no mercado têm receio de que o Apple News+ roube os seus assinantes. O "The New York Times" e "The Washington Post" são dois exemplos. Os veículos não aceitaram participar do novo serviço por conta das condições impostas.

Outro ponto de atenção é como a empresa vai remunerar as mídias disponíveis na plataforma. Já se sabe que ela ficará com 50% da receita. A outra metade fica entre as publicações com base no tempo de permanência dos leitores. Regras que podem afastar possíveis parceiros.

Tim Cook agradeceu aos profissionais que farão parte dessa 1ª etapa do novo serviço de assinaturas de vídeo - Reprodução
Tim Cook agradeceu aos profissionais que farão parte dessa 1ª etapa do novo serviço de assinaturas de vídeo
Imagem: Reprodução

"Netflix da Apple"

Por fim, temos o Apple TV+. A empresa promete um sistema de vídeos revolucionário, mas enfrentará muitos desafios para ganhar espaço em um mercado dominado pela Netflix, Amazon Prime Video, HBO Go e tantos outros que funcionam lá fora (e no Brasil).

O primeiro deles será convencer usuários a assinarem o serviço de streaming de vídeos. Além disso, ampliar o leque de conteúdos oferecidos também será decisivo. Só a Netflix possui 139 milhões de assinantes e deve investir R$ 15 bilhões em conteúdo neste ano, lembrou o "Wall Street Journal".

Do ponto de vista de conteúdo, a Apple ainda vai começar com bem menos opções de vídeos. Mas talvez ela tenha uma vantagem. Os vídeos por assinatura ficarão disponíveis dentro do Apple TV, que reúne conteúdos também de parceiros famosos como HBO, Amazon e ShowTime.

Estima-se que a Apple tenha um orçamento de US$ 1 bilhão para investir em conteúdos de TV original. Um valor generoso e que prova que ela está realmente disposta a se destacar na indústria do entretenimento.

Um dos investimentos pesados feito no ano passado foi a contratação da apresentadora Oprah Winfrey para produzir programas para a empresa. Os detalhes do acordo não foram relevados na época, mas o anúncio repercutiu no mercado de serviços digitais.

Na época, Adam Levy, analista da conselheira de ações Motley Fool, afirmou que o sucesso da Apple no streaming de música provava a capacidade da empresa se arriscar no ramo de conteúdo em vídeo.

"Com o crescimento do conteúdo original em plataformas como Netflix e Amazon Prime Video, os consumidores estão encontrando motivos para se inscrever em mais de um serviço. E a Apple tem o dinheiro para investir em fazer um serviço diferenciado de qualidade", declarou na época.

A expectativa é alta. Mas, como dito anteriormente, a Apple ainda terá que correr para alcançar concorrentes estabelecidos e que já caíram no gosto popular. Além disso, o receio de que os serviços de streaming de vídeo acabem funcionando como pacotes de TV a cabo - e consequentemente afetem o bolso dos usuários - também é algo para ficar no radar.

O fato de sair da zona de conforto certamente será um desafio grande para a empresa. Será que ela consegue?

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