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Lua Cheia muda a forma como as pessoas dormem sem percebermos

Unsplash
Imagem: Unsplash

Marcella Duarte

Colaboração para Tilt

28/01/2021 17h18

A Lua Cheia afeta a maneira que as pessoas dormem sem que a gente sequer perceba. Ninguém vai virar lobisomem por causa dela, mas provavelmente pegará no sono mais tarde e dormirá por menos tempo. A pesquisa foi publicada na revista "Science Advances".

Segundo o estudo, a quantidade de luz solar que a Lua reflete (desde quase nada, na fase Nova, até o máximo possível na Cheia), nos estimula silenciosamente.

"Nossos dados parecem mostrar que os humanos, em uma variedade de ambientes, são mais ativos e dormem menos quando o luar está disponível durante as primeiras horas da noite", explica o time de cientistas liderado pelo neurobiologista Horacio de la Iglesia, da Universidade de Washington (EUA).

O assunto ainda é controverso no meio científico. Para investigá-lo, os pesquisadores colocaram monitores de pulso em mais de 500 voluntários, de localidades completamente diferentes, para acompanhar seus padrões de sono.

Inicialmente, foram 98 participantes do povo Toba-Qom, uma comunidade indígena na província de Formosa, na Argentina. Alguns deles não tinham acesso, ou tinham acesso limitado, à eletricidade em suas moradias rurais; outros viviam em um assentamento urbano, com rede de energia elétrica.

Em uma outra fase, foi monitorado o sono de 464 estudantes universitários que viviam na área de Seattle, um dos grandes centros dos EUA. Analisando as atividades de sono dos participantes em relação ao ciclo lunar mensal, os cientistas encontraram o mesmo padrão de dormir e acordar, independentemente de onde cada um morava.

Embora tenham havido variações, em geral, o resultado foi: as pessoas tendem a dormir mais tarde e por menos tempo nas noites de luar que levam a uma Lua Cheia, quando o brilho da Lua Crescente é muito intenso após anoitecer.

"Vimos uma clara modulação lunar do sono, com o sono começando mais tarde e durando menos nos dias que precedem uma Lua Cheia", diz la Iglesia. "Embora o efeito seja mais marcante em povos sem acesso à eletricidade, também está presente em comunidades com energia elétrica, incluindo alunos de graduação da Universidade de Washington."

Há diversas pesquisas a respeito de como as luzes artificiais, principalmente as azuladas das telas, bagunçam nosso sono e afetam nossa saúde. Depois que o Sol se põe, a iluminação humana causa efeitos que não são naturais nos organismos. Mas a própria luz noturna natural é variável, dependendo da fase lunar, do brilho das estrelas e das condições atmosféricas, e também deve ser estudada.

O conjunto universo da nova pesquisa não foi exatamente grande, e ainda há muitas análises complementares a serem feitas para expandir a compreensão dos resultados. Mas detectar o mesmo padrão de sono, em comunidades totalmente distintas de países separados por milhares de quilômetros, com variados hábitos relacionados à eletricidade, nos traz informações preciosas.

De acordo com os cientistas, "juntos, esses resultados sugerem fortemente que o sono humano é sincronizado com as fases da Lua, independente do contexto étnico e sociocultural e do nível de urbanização".

Mas o que gera esses efeitos? A pesquisa afirma que a atividade noturna prolongada, estimulada pelo luar, pode ser uma adaptação evolutiva. Essa característica pode ter sido carregada até nós desde a época das sociedades pré-industriais, sem energia elétrica: os humanos, inseridos em qualquer costume tradicional, podiam permanecer acordados e fazer mais atividades sob uma Lua brilhante.

Em entrevistas com membros do povo Toba/Qom, ficou claro que as noites mais claras são associadas a mais atividade de caça e pesca, eventos sociais e até aumento de relações sexuais.

"Em certas épocas do mês, a Lua é uma fonte significativa de luz noturna, e isso claramente era evidente para nossos ancestrais, há milhares de anos", diz o biólogo do sono Leandro Casiraghi, um dos autores. "A descoberta, por sua vez, sugere que o efeito da luz elétrica nos humanos modernos pode ter desempenhado um papel regulador ancestral do luar no nosso sono."