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Imposto e aviso barrado: por que Apple e Facebook estão tretando de novo?

Facebook escreveu em letras pequenas mensagens no seu app dizendo: "A Apple retira 30% desta compra" no iOS e "Facebook não retira taxas desta compra" no Android - Divulgação
Facebook escreveu em letras pequenas mensagens no seu app dizendo: "A Apple retira 30% desta compra" no iOS e "Facebook não retira taxas desta compra" no Android Imagem: Divulgação

Nicole D'Almeida

Colaboração para Tilt

29/08/2020 10h46

O Facebook decidiu alfinetar mais uma vez a Apple neste mês. Mas, dessa vez, o motivo é o imposto cobrado pela App Store. A loja de aplicativos da Apple aplica uma comissão de 30% sobre as transações de todos os apps da plataforma, assim como a Play Store, da Google.

Para apoiar criadores e pequenas empresas nesse momento de crise econômica causada pela pandemia do coronavírus, a rede social divulgou, no último dia 14, uma ferramenta em que autores de transmissões ao vivo podem cobrar "ingressos" dos usuários, para que, dessa forma, consigam assistir ao conteúdo.

Para que esse valor cobrado seja destinado inteiramente ao criador da live, a empresa pediu às lojas de apps que retirassem ou diminuíssem essa taxa de 30%. Mas, ambas recusaram essa oferta. E, além disso, a Apple ainda proibiu o uso do Facebook Pay, plataforma de pagamentos da rede social.

Para deixar bem claro sua revolta com a companhia da maçã, o Facebook fez uma publicação de forma bem direta no seu blog corporativo:

Pedimos à Apple que reduzisse seu imposto de 30% na App Store ou nos permitisse oferecer o Facebook Pay para que pudéssemos absorver todos os custos das empresas em dificuldades durante o covid-19. Infelizmente, eles rejeitaram nossos pedidos e as pequenas e médias empresas receberão apenas 70% de sua receita arduamente conquistada. Como isso é complicado, enquanto o Facebook estiver dispensando suas taxas, deixaremos todas as taxas claras no produto

Por usa vez, a Google aceitou que o Facebook use o Facebook Pay para processar os pagamentos. Com isso, o usuário Android tem duas escolhas: se usar a plataforma da rede social, estará dando 100% de seu dinheiro aos empreendedores; se usar a Play Store, apenas 70% irá para o criador de conteúdo.

Facebook esclarece taxas das lojas de apps no seu aplicativo  - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

O Facebook compartilhou as imagens de como ficará o novo recurso. Enquanto no Android diz: "O Facebook não cobra nenhuma taxa por essa compra", no iOS diz: "A Apple fica com 30% dessa compra". Mas, ainda precisaria da aprovação da Apple.

Nesta sexta-feira (28), saiu o veredito em relação ao design do novo recurso do Facebook. De acordo com a rede social, a Apple rejeitou a versão que a plataforma informa sobre a taxa de 30% cobrada pela empresa da maçã.

De acordo com a Apple, há uma regra na qual os desenvolvedores não devem mostrar "informações irrelevantes" para os usuários. Entretanto, em comunicado, o Facebook disse que ainda estão trabalhando para disponibilizar essa informação dentro do aplicativo.

Essa não foi a primeira vez que reclamaram da cobrança de 30% em cima das transações feitas em aplicativos. Ainda neste mês, a Apple entrou em uma guerra com a Epic Games após remover o jogo Fortnite de sua loja de aplicativos, a App Store.

Para contextualizar: a Epic Games decidiu burlar a regra da Apple sobre a taxa de 30% de transações em apps, e ofereceu aos seus usuários a opção de realizar transações em seu aplicativo fora do sistema da Apple. A companhia de Tim Cook não gostou nem um pouco disso e deletou o game de sucesso mundial da sua plataforma.

Como tudo começou

Essa rivalidade entre os executivos das gigantes da tecnologia não é de hoje. Tudo começou com uma entrevista de Tim Cook para Charlie Rose em 2014. Na entrevista, sua intenção era alfinetar a Google ao dizer que "quando um serviço online é gratuito, você não é o cliente. Você é o produto".

Entretanto, Mark Zuckerberg tomou as dores e, pouco tempo depois, cutucou Cook durante uma entrevista à Time, dizendo "Ele acha que está alinhado a seus clientes? Se estivesse, os produtos seriam mais baratos!"

Essa tensão se tornou ainda maior quando a violação de dados da Cambridge Analytica e do Facebook, em março de 2018, veio à tona. No caso, dados privados de cerca de 50 milhões de usuários da rede social foram coletados sem o consentimento deles.

Nesse período, ao ser perguntado o que faria se estivesse no lugar de Zuckerberg, durante uma entrevista para a Kara Swisher, Cook respondeu "O que eu faria? Eu não estaria nessa situação". O dono do Facebook ficou tão "pistola" que pediu para que os executivos da empresa se livrassem dos iPhones.

Desde então, Facebook e Apple vêm se enfrentando repetidamente sobre privacidade e diferentes modelos de negócios.

Mais algumas tretas

Fevereiro de 2019: A Apple oferece a algumas empresas uma permissão especial que lhes dá exceção à regra geral de desenvolvedores, permitindo um acesso avançado a informações dos aparelhos. O Facebook tem esse certificado especial.

Entretanto, em fevereiro de 2019, a empresa de Mark Zuckerberg abusou de seu privilégio pagando usuários --entre eles adolescentes-- para que usassem um app chamado "Research". Este aplicativo, por sua vez, tinha permissão para acessar todos os dados dos usuários nos smartphones, incluindo os criptografados, como iMessage e e-mails.

Após a descoberta, a Apple removeu a permissão especial da gigante das redes sociais, além das versões de teste de aplicativos, ou seja, apps internos da empresa. Mas, a punição durou poucos dias, e o Facebook voltou a ter seu certificado especial novamente.

Março de 2019: Dessa vez, após um mês da treta anterior, Mark Zuckerberg alfinetou a empresa de Tim Cook em relação ao data center que a Apple possui no território chinês.

Acontece que, apesar de a Apple ser defensora assídua da privacidade e defesa dos dados de seus usuários, ela se contradisse ao fornecer seus serviços e ter um data center na China, país no qual a lei exige que os dados sejam armazenados nele próprio. Dessa forma, o governo chinês tem a chance de controlar as informações de seus cidadãos.

Junho de 2019: E a treta continua. Em julho de 2019, Nick Clegg, chefe de assuntos globais do Facebook, ao palestrar em Berlim, cutucou a Apple ao falar sobre o modelo de negócios financiado por publicidades. No discurso, ele diz que o Facebook é gratuito e para todos. Mas, "outras grandes empresas de tecnologia [...] são um clube exclusivo, disponível apenas para consumidores aspirantes com meios para comprar produtos de alto valor hardware e serviços."

Em nenhum momento foi citado o nome da Apple. Mas, Clegg falava uma semana após Tim Cook discursar em uma formatura na Universidade de Stanford. Em seu discurso, por mais que não houvesse menção ao Facebook, o executivo alardeava os valores de privacidade da Apple em contraste com o Facebook desde o escândalo da Cambridge Analytica.

Com os recentes capítulos sobre a taxa de 30% sobre apps, parece que essa Guerra Fria entre Facebook e Apple ainda está longe de acabar.