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Não avaliamos ideologias, diz Twitter sobre apagar post de Bolsonaro

Bolsonaro fala com vendedor de churrasquinho em Taguatinga (DF); em março, vídeo do presidente em aglomerações públicas foi retirado do Twitter - Reprodução
Bolsonaro fala com vendedor de churrasquinho em Taguatinga (DF); em março, vídeo do presidente em aglomerações públicas foi retirado do Twitter Imagem: Reprodução

Helton Simões Gomes

De Tilt, em São Paulo

15/04/2020 04h00

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foi o terceiro chefe de estado a ter publicações removidas do Twitter por infringir suas regras, no final de março. Por conta da polêmica sobre uma suposta censura, Fernando Gallo, diretor de políticas públicas da rede social no Brasil, afirmou em entrevista exclusiva a Tilt que não faz uma "avaliação sobre a política ou ideologia de usuários".

Além de Bolsonaro, tiveram posts apagados o venezuelano Nicolás Maduro e o líder do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Como Maduro e Bolsonaro são considerados de espectros políticos opostos, isso dá crédito ao posicionamento do Twitter.

Gallo foi bastante cauteloso ao tratar dos casos dos políticos. Mas disse que pregar contra o isolamento social —uma das principais orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde)— e defender o uso de medicamentos com eficácia não validada pela ciência são condutas que podem levar a sanções no Twitter, de acordo com suas novas regras.

Os tuítes de Bolsonaro foram removidos por conter vídeos nos quais aparecia passeando por aglomerações em comércios do Distrito Federal, contrariando a recomendação médica vigente para que a população fique em casa. Também apareceu nos vídeos defendendo que a população "volte ao trabalho" e propagandeando uma suposta eficácia da cloroquina no tratamento da covid-19, apesar de ainda faltarem estudos amplos que atestem isso.

Tilt - O Twitter removeu posts de políticos e personalidades brasileiros, como um do presidente Jair Bolsonaro, por causa das novas regras para covid-19. O que estes posts tinham de errado?

Fernando Gallo - Toda vez que fazemos uma atualização das nossas políticas, damos publicidade a isso. As novas regras em relação à covid-19 estão públicas no nosso blog e elas versam sobre uma série de assuntos, do isolamento social a tratamentos. São dez ou 12 tópicos. Há categorias que estão proibidas por essas novas regras, e estamos atuando para aplicá-las quando denúncias nos são submetidas. (veja abaixo as novas regras)

    Tilt - Essas personalidades infringiram algumas daquelas regras? É isso que você está dizendo?

    Fernando Gallo - É. Aplicamos no mundo algumas sanções relacionadas ao covid-19. No mundo todo, foram sanções contra 1.100 conteúdos que estavam diretamente relacionados a essa política.

    Tilt - Sempre houve gente negacionista no Twitter, mas não havia uma ação tão enérgica em relação a eles. Por que o Twitter resolveu dar mais atenção a esse problema?

    Fernando Gallo - É a primeira vez em 100 anos que estamos vivendo uma pandemia no mundo, a primeira vez na era digital. A missão mais ampla no Twitter é servir a uma conversa pública saudável. Isso é mais importante ainda nesse momento. Daí as necessidades de novas regras em relação ao que é permitido ou não sobre esse tema dentro do Twitter.

    Tilt - O Bolsonaro foi o único líder de uma nação do G20, grupo das maiores economias, a ter uma mensagem removida. Há outros líderes com conduta parecida, como Donald Trump, dos EUA. Por que só ele teve conteúdo removido?

    Fernando Gallo - Avaliamos todas as denúncias que recebemos e aplicamos as nossas regras de maneira irrestrita e imparcial. Nosso trabalho é analisar todas as denúncias que chegam e confrontá-las com as nossas regras. Nos casos em que não há violação, os conteúdos permanecem disponíveis. Nos outros, a gente aplica as medidas corretivas cabíveis.

    Tilt - Na atualização das regras da covid-19, o Twitter diz pedir aos usuários que removam o conteúdo. Isso é um primeiro passo na interação com quem postou algo que infringiu as regras?

    Fernando Gallo - Essa é uma das medidas possíveis. A aplicação das medidas em relação a conteúdos quaisquer dentro do Twitter depende de alguns fatores, como a gravidade da violação, se o usuário é reincidente ou não.

    Como são centenas de milhões de tuítes na plataforma, não se lida com isso se não for em escala e olhando para o conjunto. Historicamente, dependemos das denúncias dos usuários. O que temos feito com mais frequência é melhorar as tecnologias para detectar comportamentos potencialmente abusivos e levá-los com prioridade para as equipes de análise desses conteúdos.

    No começo de 2019, 20% dos conteúdos que recebiam alguma sanção por abuso dentro da plataforma tinham sido levados às equipes por meio de tecnologia. No começo deste ano, chegou a 50%.

    E no caso de haver violação, a gente aplica uma variação de medidas corretivas a depender de uma série de fatores. Pode ser deletar um tuíte, pode ser suspender uma conta no limite mais grave.

    Tilt - Em 2018 o Twitter informou que não iria remover ou aplicar sanções a posts de políticos. Já vimos que alguns posts foram removidos e outros receberam um aviso de que o post infringe as regras do Twitter, mas por ser uma personalidade política, é mantido no ar. O que faz um post ser removido ou receber esse aviso?

    Fernando Gallo - Em relação às ações dos líderes mundiais no Twitter, sabemos que esse é um terreno bastante novo e que as ações que adotamos estabelecerão precedentes em relação ao discurso público no mundo digital.

    Devemos às pessoas a quem servimos que essas ações sejam bastante cuidadosas e bem pensadas. Ao mesmo tempo, nossa missão é proporcionar o fórum que permita às pessoas serem informadas pelos líderes e que elas possam se engajar com eles diretamente. Sabemos que tomamos ações diferentes recentemente. Uma das coisas, como você notou, é aplicar o aviso de interesse público nos casos em que regras eventualmente venham a ser violadas por autoridades.

    À medida que essa pandemia evolui, também queremos garantir que estejamos usando o aviso de interesse público para criar um registro, oferecer às pessoas mais contexto sobre o que os líderes estão dizendo e garantir que elas sejam capazes de manter as autoridades sujeitas à responsabilização.

    Tilt - Mas qual o grau de gravidade uma mensagem tem de ter para um tuíte ser removido e outro receber um grau de interesse público? Por que uma ação é feita para um e não é feita para outro se os dois infringiram uma regra?

    Fernando Gallo - À medida que aprendermos, queremos evoluir. Devemos garantir que esse aviso de interesse público sinalize que um determinado conteúdo violou as regras, mas está sendo mantido na plataforma. É importante dizer que quando aplicamos o aviso de interesse público, limitamos completamente o engajamento do tuíte, diminuímos a visibilidade dele dentro da plataforma. Ele fica preservado, mas as pessoas não vão ver o engajamento, e em alguns lugares da plataforma o limite dele fica reduzido.

    Tilt - Até agora foram removidos posts do Bolsonaro, o pastor Silas Malafaia, o jornalista Allan dos Santos e uma mensagem do ex-ministro Osmar Terra sofreu restrição. São todas personalidades conservadoras ou de direita. Isso é ser imparcial?

    Fernando Gallo - O nosso trabalho é receber as denúncias em relação às políticas de covid-19 ou quaisquer outras regras do Twitter. E fazer um confrontamento com as nossas regras. Os conteúdos vão ser moderados em função disso, se estão violando as regras ou não. É assim que a gente olha para os conteúdos que são denunciados, independente de qual usuário se trate.

    Tilt - Ninguém de esquerda foi denunciado por disseminado alguma informação que pudessem infringir regras do Twitter?

    Fernando Gallo - A gente não faz uma avaliação sobre política ou ideologia de usuários. A gente tem, aliás, milhões de usuários no mundo. Nem seria possível fazê-lo. A avaliação que a gente faz é se aquele conteúdo viola ou não as regras da plataforma.

    Tilt - O Twitter também está sendo afetado pelos efeitos da covid-19?

    Fernando Gallo - O Twitter não é diferente de outras empresas do mundo. As nossas operações também sofreram alguns impactos por causa da pandemia. Trabalhamos para analisar a maior quantidade de denúncias possíveis, mas estamos priorizando aqueles conteúdos mais engajados e que ofereçam maior risco de dano nessa situação, em que nossa operação também está impactada pela pandemia.

    Tilt - O risco de dano é um dos critérios para tirar um post do ar ou colocar um aviso de interesse público?

    Fernando Gallo - É. Você está se referindo aos líderes mundiais?

    Tilt - Sim, afinal apenas os posts deles é que são deixados no ar com o aviso de interesse público.

    Fernando Gallo - Sobre isso, como eu procurei dizer, esse é um terreno bastante novo e sem precedentes. Entendemos o desejo de que as respostas em relação às decisões tomamos sejam "sim" ou "não", mas sabemos que não é tão simples assim.

    Tilt - Pensando nos precedentes, você acha que agora os líderes políticos vão tomar cuidado com a forma como eles divulgam informações ou opiniões depois dessas ações que vocês estão tomando?

    Fernando Gallo - Acreditamos que os usuários do Twitter entendem cada vez mais que a nossa missão é servir a uma conversa pública saudável. Isso é ainda mais importante no momento que atravessamos, e confiamos que os milhões dos usuários do Twitter no mundo todo vão saber se conduzir para nos ajudar nessa tarefa.

    Tilt - Muita gente questiona que algumas regras do Twitter limitam a liberdade de expressão de alguns indivíduos. O que vocês acham disso?

    Fernando Gallo - Ao promover a saúde da conversa e proteger a saúde pública, sempre levamos em consideração duas questões fundamentais. De um lado, a liberdade de expressão. De outro, a segurança dos usuários. O que a gente quer é promover um ambiente que seja saudável para as pessoas se sentirem confortáveis e confiantes para exercer sua liberdade de expressão.

    Pelas novas regras do Twitter, serão removidos são aqueles que contém os seguintes tópicos:

    • Negação das recomendações de autoridades de saúde locais ou globais, tal como, "o distanciamento social não é eficaz"
    • Descrição de supostas curas alegadas para covid-19, como, ""use aromaterapia e óleos essenciais para curar covid-19"
    • Descrição de tratamentos prejudiciais ou medidas de proteção ineficazes, "beber água sanitária e ingerir prata coloidal curará a covid-19"
    • Negação de fatos científicos estabelecidos, como "covid-19 não infecta crianças porque não vimos nenhum caso de crianças doentes"
    • Afirmações específicas em torno das informações da covid-19 que têm como objetivo manipular, como ""o coronavírus é uma fraude e não é real - saia e curta seu bar local!!"
    • Afirmações específicas e não verificadas que incitam as pessoas a agir e causam pânico generalizado, como "a Guarda Nacional acaba de anunciar que não haverá mais reposição de alimentos por 2 meses - vá até o supermercado o mais rápido possível e compre tudo o que puder!"
    • Afirmações específicas e não verificadas feitas por pessoas que se passam por um funcionário, organização ou governo de saúde
    • Propagação de informações falsas ou enganosas sobre os critérios ou procedimentos de diagnóstico da covid-19, como "se você puder prender a respiração por 10 segundos, não terá coronavírus".
    • Declarações falsas ou enganosas sobre como diferenciar covid-19 de outra doença, como "se você tem tosse úmida, não é coronavírus - mas tosse seca é"
    • Informações de que grupos específicos ou nacionalidades nunca são suscetíveis a covid-19, como "pessoas com pele escura são imunes a covid-19 devido à produção de melanina"
    • Afirmações de que grupos específicos ou nacionalidades são mais suscetíveis a covid-19, como "evite empresas pertencentes ao povo chinês, pois é mais provável que tenham a covid-19"

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