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Dedo do meio, beijinho e mais: como é dar um rolê no carro que mapeia ruas

Carro da Here Technologies faz ruas passarem do mundo real para virtual - Gabriel Francisco Ribeiro/UOL
Carro da Here Technologies faz ruas passarem do mundo real para virtual Imagem: Gabriel Francisco Ribeiro/UOL

Gabriel Francisco Ribeiro

De Tilt. em São Paulo

03/01/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Tilt deu um rolê em carro com torre no teto e que serve para mapear ruas
  • Veículo atrai atenção de quem está na rua - com gestos ofensivos ou carinhosos
  • Carro tem algumas diferenças para veículo comum para passageiro e motorista
  • Mapeamentos vão parar em veículos, empresas, apps e nos futuros carros autônomos

Você talvez já tenha visto por aí aqueles veículos com uma torre em cima do teto e se perguntou: mas que raios é isso? Popularizados pelo Google e ligados muitas vezes a fotos por causa do mapeamento que a empresa norte-americana fez para o Street View - com cenas da vida real às vezes bizarras -, esses carros não chamam pouca atenção: em uma voltinha nele rolam desde xingamentos a até gestos carinhosos.

Tive a oportunidade de andar em um automóvel do tipo da Here Technologies e sentir na pele como é estar do lado de dentro do veículo. É nítida a admiração, espanto e atenção que as pessoas de fora têm pelo carro. Já na parte de dentro é bem notório como parece que você não está em um carro diferente do comum e que faz ações vitais para a cidade do futuro.

O carro que andei é batizado pela empresa de True Car e conta com uma série de tecnologias que vão parar, posteriormente, em mapas de navegação embarcados em veículos, empresas, governos, aplicativos de navegação e, futuramente, serão a base para os carros autônomos circularem pelas ruas

As tecnologias internas

Antes de entrar no veículo, já dá para ficar impressionado com a tecnologia só de olhar por fora - e é realmente isso que impressiona quem passa pelo carro e ocasiona reações posteriormente. O veículo utilizado é um Subaru XV, espécie de SUV.

Torre acima do veículo é responsável por fazer o mapeamento - e chama a atenção - Gabriel Francisco Ribeiro/UOL
Torre acima do veículo é responsável por fazer o mapeamento - e chama a atenção
Imagem: Gabriel Francisco Ribeiro/UOL

Até o carro escolhido para o processo importa: precisam ser veículos largos, com espaço para alocar os diferentes equipamentos. No teto do carro está, por exemplo, a torre com os principais sensores que fazem o mapeamento das ruas. São diferentes elementos nessa torre:

  • GPS: o equipamento de GPS é uma espécie de bolachinha que fica na parte de cima da torre. Faz a geolocalização dos dados coletados.
  • Lidar: é o sensor que fica girando no veículo e que mais chama a atenção de quem passa. Ele é o responsável por coletar 700 mil informações por segundo e não pode ser exposto à chuva, já que afeta os dados.
  • Câmeras: há um conjunto de quatro câmeras alocadas ao redor da haste para captar fotos do entorno do carro. Essas fotos também viram dados posteriormente, que são processados por máquinas e validados por humanos.

Esses equipamentos no topo são ligados por cabos a uma bateria que fica dentro do carro, perto do banco do passageiro. Internamente, essa é a principal diferença desses veículos para outros: não é possível que ninguém sente no banco de passageiro da frente do veículo. A bateria, por sua vez, é ligada ao próprio carro para ser constantemente carregada, em processo que, segundo a Here, não consome mais gasolina do carro.

O que basicamente todas essas tecnologias fazem é transformar o mundo real em virtual posteriormente, com auxílio de máquinas e humanos que processam esses dados - um dia de mapeamento gera cerca de 28 TB de dados, de acordo com a empresa. A recriação é comparada a um jogo de videogame: a partir dos pontos, tudo é recriado para formar uma plataforma em 3D virtual. A nuvem de pontos criada tem uma precisão de 2 cm, segundo a Here.

Fala-se muito de navegação autônoma. Todos os carros vão ter que ter o mapa. Fala-se muito de Big Data e o que o carro coleta é esse Big Data. Vai tudo para uma plataforma aberta a desenvolvedores, outras empresas podem contribuir Vinícius Grassi, gerente de parcerias da Here no Brasil e que me acompanhou na brincadeira.

O rolê: reação das pessoas varia

Tecnologia explicada, bora pro rolê. É aí que a diversão começa para quem está dentro do veículo. A reação das pessoas lá fora é, basicamente, a única coisa que chama a atenção e faz a gente lembrar que está em um carro totalmente estranho.

Com exceção do banco da frente de passageiro inutilizado por causa da bateria e do HD, o resto do carro é totalmente normal internamente. Existe só um tablet, ao lado do motorista, por onde o responsável por conduzir o carro verifica pelo painel como está o sistema: há um mapa com marcações e lista de rotas, monitoramento do GPS, página de log com os dados coletados, informações do Lidar, visualização de imagens das câmeras...

O processo dentro do carro é totalmente silencioso e não difere em nada a outros veículos. É do lado de fora que ficam as reações.

Em grandes avenidas, é nítida a impressão causada a outras pessoas da via. Motoristas de outros veículos passam pelo lado olhando, passageiros em um ônibus apontam ou se impressionam, motoqueiros passam pelo carro e olham para trás...

Mas é em ruas menores que a graça aumenta. No centro de São Paulo, por exemplo, pedestres se soltaram com a presença do veículo. Em determinado momento, um homem do lado esquerdo encheu as duas mãos com um belo dedo do meio apontado para o veículo, achando que iria aparecer nas imagens de maneira "zuera" - todas as pessoas flagradas têm o rosto borrado posteriormente. Dentro do carro, tudo o que a gente pode fazer ao ver a cena é dar risada.

Quando outro pedestre foi atravessar a rua, ele literalmente parou na frente do veículo e começou a olhar espantado para a torre acima dele por alguns segundos. Já outra pessoa passando pelo automóvel tirou uma foto dele. A reação comum é de espanto.

Carro provoca reações em quem está do lado de fora - Gabriel Francisco Ribeiro/UOL
Carro provoca reações em quem está do lado de fora
Imagem: Gabriel Francisco Ribeiro/UOL

Segundo Denílson, o motorista do veículo que está há dois anos na Here e roda o país de Rondônia ao Rio Grande do Sul, isso rende situações pitorescas principalmente em localidades onde as pessoas não estão tão acostumadas com isso como em São Paulo.

Certa vez, de acordo com ele, o prefeito de uma cidade do interior de São Paulo foi conversar para saber do que se tratava aquilo. Em outro caso no Estado, as pessoas foram avisar que estavam ligando para a polícia porque não entenderam o motivo do carro estar passando várias vezes por uma rua.

Segundo o motorista do carro, é comum ainda que pessoas fiquem mandando beijinhos ou dando tchau para o veículo, com a esperança de que sua imagem acabe aparecendo em algum lugar por aí.

É diferente, mas igual

Na prática, do ponto de vista do motorista, dirigir esse carro com sensores é quase igual a dirigir outros carros. Mas Denílson explica que existem algumas especificidades que não passariam pela cabeça de um condutor normal:

  • Evitar caminhões: para poder tirar fotos sem obstruções, ele evita permanecer ao lado de caminhões e ônibus. Dá para perceber como ele freia ou acelera, deixando um veículo desse porte passar ou para ultrapassá-lo.
  • Correr de chuva: o sensor não funciona na chuva, já que as gotas acabam afetando a precisão dos instrumentos. Quando o céu começa a fechar, ele já se prepara para recolher o carro.
  • Limite de velocidade: segundo Denílson, o carro não tem um limite de velocidade e os dados são captados mesmo a 100 km/h em uma estrada. Mas existe o direcionamento para que o carro siga a uma velocidade mais razoável para que a precisão dos dados seja melhor.
  • Altura: das rodas até o topo da haste no teto do veículo são 3,10 m de altura. Por isso, o motorista precisa tomar cuidado com fios baixos - já aconteceu de se enrolar em um cabo - e com galhos de árvores, principalmente.
  • Observações: se Denílson encontrar uma rota que não existe como programado, ele não simplesmente dá meia-volta e segue a vida. É função dele marcar no mapa, com observação em vermelho, essa diferença no que estava relatado no mapa virtual.

Onde o mapa vai parar

Depois que tudo é captado, esses dados vão parar, por exemplo, no aplicativo Here We Go, o serviço de navegação da empresa disponibilizado para iOS e Android. Entre os diferenciais do serviço estão a possibilidade de baixar mapas gerais de países para acesso offline - de maneira que eu considero até melhor ao Google Maps e similar ao maps.me - e o ícone de números de edificações dentro do aplicativo.

Esses números, por sinal, são captados pelas câmeras do carro com os sensores - depois que a imagem chega, ela é tratada para aumentar a qualidade e vai para o sistema da Here pareada com a geolocalização.

Mas os dados não param por aí. A Here tem parceria com as principais montadoras - como Ford, BMW e Mercedes-Benz - para equipar os carros mais modernos com uma navegação eficiente. Além disso, oferece navegações para outras empresas como Amazon e Wappa.

Futuramente, esses dados serão utilizados por empresas que criarem carros sem motorista. Em Dubai, por exemplo, a Here já está implantando isso com o governo local: o objetivo é que nos próximos anos 25% da frota de ônibus da cidade já não tenha motoristas humanos.

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Errata: o texto foi atualizado
A torre não está em cima do capô do veículo, mas no teto. O texto foi atualizado.

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