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A humildade veio? Facebook desenha superpoderes para superar crise

Mark Zuckerberg falou bastante sobre o que pensa ao longo de 2019 - Liu Jie/Xinhua
Mark Zuckerberg falou bastante sobre o que pensa ao longo de 2019 Imagem: Liu Jie/Xinhua

Rodrigo Trindade

De Tilt, em São Paulo

18/12/2019 04h00Atualizada em 18/12/2019 15h22

Sem tempo, irmão

  • Com dados de um terço do mundo nas mãos, Facebook parte para novas frentes de poder
  • Criptomoeda do Facebook, Libra mal foi anunciada e já teve empresa grande desistindo
  • Empresa se aproximou da política, mas há quem queira "quebrá-la" em outras menores
  • Combate ao TikTok virou foco, assim como práticas de moderação de conteúdo

Muitos de nós ficamos com ranço do Facebook em 2018 por causa do grande abuso de dados pessoais de 87 milhões de usuários. Para matar a desconfiança, a empresa passou o ano passado —e parte deste ano— limpando o estrago. A humildade veio? Não muito: a gigante das redes sociais não só aprendeu pouco com os erros, como continua poderosa e já desenha seus próximos passos para continuar sendo uma potência da tecnologia.

Por um lado, com 2,45 bilhões de usuários —quase um terço da população mundial— a empresa de Mark Zuckerberg tem provado que seus "superpoderes" ainda não lhe bastam. Por outro, tais poderes precisam cada vez mais de supervisão. Por exemplo, uma das novidades deste ano, a criptomoeda Libra, é digna de uma nação virtual.

WhatsApp como banco?

A criptomoeda Libra foi apresentada ao mundo em junho, inicialmente com o apoio de outras 27 empresas. A ideia foi pensada como uma organização sem fins lucrativos, de "código aberto, escalável e estável", como diz seu site oficial. Mas "sem fins lucrativos" naquelas: as transações seriam feitas pela carteira virtual Calibra, que é onde o Facebook entra em busca de (mais) dinheiro.

A Calibra lembra o aplicativo de mensagens chinês WeChat, da empresa Tencent, que permite transações financeiras de pessoas para pessoas, ou de pessoas para empresas. Com sua futura carteira virtual, o Facebook quer fazer o mesmo em seus popularíssimos apps de mensagens —WhatsApp e Facebook Messenger— que são mais baixadas e usadas que a própria rede social.

O Messenger até tem propagandas e já tentou render grana de diferentes formas por Zuckerberg, sem grande sucesso até o momento. Já o WhatsApp, que é ainda maior e custou US$ 19 bilhões aos cofres do Facebook, não dá qualquer tipo de lucro à corporação.

Com a Calibra funcionando com Messenger e WhatsApp, os bilhões de pessoas que usam os dois aplicativos também os usariam como bancos de bolso e ainda por cima gerarão mais dados —e se tem algo que o Facebook gosta, é disso.

Mas os 27 parceiros do momento do anúncio da Libra se tornaram, hoje, 20. Pressões regulatórias vindas da Europa e EUA estimularam, em outubro, que grandes empresas do setor financeiro deixassem a iniciativa, com destaque para PayPal, Visa e Mastercard.

Em dezembro, a União Europeia vetou o lançamento de criptomoedas como a Libra na região até que os "desafios e riscos legais, regulatórios e de supervisão tenham sido adequadamente identificados e resolvidos". A expectativa é que a Libra se tornasse uma moeda digital global na primeira metade de 2020, mas a desconfiança sobre ela está melando os planos do Facebook.

A página da iniciativa diz que "nos próximos meses, a associação trabalhará para desenvolver e ampliar a rede Libra". Depois de tanta discussão, não há nenhuma palavra sobre quando ela chegará.

A "Justiça" do Facebook

Além de moeda, Zuckerberg criou as bases para um tipo de "poder Judiciário" interno no Facebook. Ele foi apresentado em setembro. O Conselho de Supervisão —nome formal da parada— será criado para agradar quem acusa o Facebook de parcialidade em sua moderação de conteúdo —posts, fotos, vídeos e afins— ou acha que a empresa não faz o bastante para controlar publicações tóxicas na rede social.

Após ouvir muitas críticas ao longo dos anos —em 2019, repetiram-se em situações delicadas como o massacre de Christchurch, na Nova Zelândia— o fundador do Facebook veio com a ideia desse poder paralelo. Zuckerberg já tinha idealizado o Conselho de Supervisão no ano passado, mas neste ano veio para valer. A justificativa segue a mesma: para ele, empresas privadas não devem tomar, sozinhas, tantas decisões importantes sobre moderação de discurso.

Como a associação da Libra, o Conselho de Supervisão terá certo grau de independência em relação ao Facebook. Inicialmente, ele terá 11 membros, com a previsão de chegar até 40, e atenderá casos repassados pela rede social. Isso significa que o Conselho não escolherá quais casos avaliar, o que dá sinais de que não será tão independente assim.

A ideia é que o órgão ajude o Facebook em polêmicas como:

  • analisar questões sérias com repercussões no mundo real
  • analisar questões de interpretação dúbia ou controversa dos termos de uso e políticas da plataforma
  • analisar conteúdos para tirá-los ou restaurá-los da rede social, a pedido de usuários

Toda formulação desse órgão tem traços de uma instituição governamental, com regras para tomadas de decisão, para revisões e rotação de membros e mandatos. O Facebook cederá US$ 130 milhões para custos operacionais iniciais do Conselho, suficientes para os dois primeiros mandatos.

Toda essa estrutura deve virar realidade ao longo de 2020, mas a expectativa do Facebook é que o Conselho comece a operar no início do ano que vem. Ao contrário da Libra, essa previsão parece mais palpável.

Washington e TikTok

Com todos os fundadores de Instagram e WhatsApp fora do Facebook desde 2018, Zuckerberg perpetuou seu poder. Por conta disso, 2019 também marca uma consolidação da empresa, simbolizada por uma nova logomarca e o complemento "from Facebook" aos dois outros aplicativos.

E não é só no nome: a empresa planeja unir aspectos dos diferentes serviços. Tudo isso fez parte de uma nova visão do chefão para seus brinquedos, anunciada no primeiro semestre e que enfrenta resistência do órgão regulatório de comércio dos EUA. Em vez do feed público do Facebook, Zuckerberg acredita que o futuro da corporação é a comunicação privada.

Isso coincidiu —intencionalmente ou não— com candidatos à presidência dos Estados Unidos defendendo que empresas como o Facebook sejam quebradas em várias empresas menores. O movimento partiu dos democratas Bernie Sanders e Elizabeth Warren, mas Warren foi quem pensou melhor a ideia: ela determinaria reguladores para desfazer fusões anticompetitivas, como as compras de Instagram e WhatsApp pelo Facebook.

Curiosamente, Washington também abraçou o Facebook em 2019, mas por razões geopolíticas. Com toda a bronca dos Estados Unidos em relação a empresas de tecnologia chinesas, Zuckerberg se aproveitou do momento para levantar a bandeira da "liberdade" contra um oponente chinês.

O TikTok cresceu e se tornou o terceiro aplicativo mais baixado em 2019, perdendo para apenas Messenger e WhatsApp. Enquanto tenta, sem sucesso, copiar o adversário com novas ferramentas no Facebook e no Instagram, Zuckerberg também decidiu atacar verbalmente o TikTok, acusando-o de censurar conteúdos que desagradem o governo chinês.

Em paralelo, senadores americanos passaram a analisar de perto os movimentos do TikTok e sua empresa proprietária, ByteDance. Quer mais? Até o terceiro trimestre de 2019, o Facebook foi a empresa de tecnologia que mais gastou com lobby em Washington. Um total de US$ 12,3 milhões foram colocados nisso, quase a quantia total desembolsada pelo Facebook em 2018 —que já era um recorde.

Novo ano, novas controvérsias

As consequências do escândalo com a Cambridge Analytica em 2018 geraram novas polêmicas para o Facebook, como as críticas às condições de trabalho dos moderadores de conteúdo. Mas a mais nova delas veio em outubro: a permissão de propaganda política falsa na plataforma.

Mais uma vez defendendo "liberdade de expressão", Zuckerberg bancou que sua plataforma não irá checar informações em propagandas de políticos, abrindo o caminho para que mentiras e desinformação sejam espalhadas pela rede. Enquanto isso, o Facebook ganha um graninha com isso: cerca de US$ 275 milhões, que parece muito para a gente, mas é "troco de pão" para a corporação: 0,5% da receita anual.

Em 2020, com eleição presidencial nos Estados Unidos, além do lançamento da Libra e do Conselho de Supervisão no horizonte, tenha certeza que as controvérsias do Facebook não terão fim: apenas mudarão.

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